Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

2014, não viste país nenhum

A bicicleta tornou-se o principal meio de transporte, em função dos insuportáveis engarrafamentos, em São Paulo as pessoas não sabem se podem tomar banho todos os dias por causa da falta d’água, os jovens estão satisfeitos com o que o governo determina que seja bom para a população e a globalização está metaforicamente registrada no espaço físico através de uma divisão territorial do país em pedaços mais ou menos definidos que impedem que as pessoas cheguem onde antes estava a Amazônia, floresta dizimada. A obra de ficção de Ignácio de Loyola Brandão, Não Verás País Nenhum, definitivamente se confundiu em 2014 com a realidade do país. Mais ainda: as imagens das águas negras do rio Tietê em Salto, no último 27 de novembro, que mostravam uma enxurrada que causou a morte de milhares de peixes por ter levado toda a poluição acumulada no leito do rio nos meses de estiagem, pareciam mesmo superar qualquer caráter profético projetado pelo livro.

Lançado em 1981 no meio da abertura política, o livro poderia parecer, por causa do seu tom apocalíptico, fora da moldura otimista então vigente no país, mas rapidamente se tornou um sucesso de vendas, uma leitura obrigatória para os adolescentes nos anos 80, presente nas listas de títulos recomendados para os vestibulares. Seu autor viajou o país apresentando-o diante de salas lotadas, afinal, nas vésperas de 1984, o livro atualizava e jogava para um futuro – que agora sabemos não tão distante assim – as visões de uma sociedade encerrada em sua burocracia, em um ambiente não muito distante daquele do livro de Orwell. O lançamento do filme Brazil, de Terry Gilliam, em 1985, cujo título à época causou certo mal estar no país, contribuiu para associações que hoje poderiam ser vistas como não tão aleatórias assim. Mas exatamente por Não Verás País Nenhum conectar naquele momento o país com uma ansiedade mundial, ligada aos últimos anos da Guerra Fria, aos medos das bombas atômicas, ao desastre da usina em Chernobyl, o livro estabelecia uma ligação direta com o mundo após anos de ensimesmamento. E isso também era parte das possibilidades otimistas da época.

Mas o ano de 2014, em que a realidade social brasileira fez o texto de Loyola Brandão assumir o papel de um oráculo, foi também o ano da morte de João Ubaldo Ribeiro, que exatamente há 30 anos, em 1984, lançou o livro que indiscutivelmente assumiu o lugar de chave para a compreensão do país, algo que de tempos em tempos é estabelecido pela literatura mais do que qualquer outra expressão artística. Viva o Povo Brasileiro é quase a completa antítese a Não Verás País Nenhum: sua perspectiva do tempo voltada para o passado, em vez do futuro, com seu farol apontado para a saga histórica dos brasileiros naquilo que conforma culturalmente o convívio entre as pessoas – em oposição à relação entre as pessoas e o Estado em Não Verás… – indicava em meados dos anos 80 que para imaginar um país diferente para o futuro, seria necessário, com bom humor, avaliar e se confrontar com um passado que vai muito além no tempo do que os 20 anos que antecederam o seu lançamento.

É bem provável que o ano de 2014, 30 anos depois de Viva o Povo Brasileiro ter sido lançado, obrigue-nos a colocar Não Verás País Nenhum ao seu lado para compreendermos melhor o Brasil das últimas décadas. O desafio cultural apontado por João Ubaldo Ribeiro não parece nem de longe possível de ser cumprido, ao passo que as mais caricatas previsões de Loyola Brandão assumiram ares de realidade cotidiana. Itaparica, ameaçada por uma ponte insana de se tornar uma segunda Niterói, encontra-se e funde-se na condição de distopia com a São Paulo de ciclovias apenas lambuzadas sobre sarjetas. O caminho histórico percorrido nestes trinta anos, em vez de se alimentar das duas narrativas, anulou vetorialmente os dois olhares, o do passado, agora turvado por uma miopia voluntária, o do futuro indesejado, agora tornado presente irrefutável.

2014 já entrou para a história como o ano em que no dia 8 de julho ninguém viu país nenhum no Mineirão (aliás, viu um país somente, a Alemanha). Voltamos ao estado de perplexidade, agora muito mais intensa, daquele momento posterior aos 2 X 3 contra a Itália em 1982. Diante da existência de 39 ministérios no governo federal, não se sabe se há saudade, desespero ou melancolia, ao se recordar que nos anos 80 houve um ministério da desburocratização. 2014, o ano em que a fonte do Rio São Francisco secou, mas que as falidas obras de sua transposição continuam a consumir milhões. Após as primeiras chuvas, o Tietê em Salto, mais uma vez, nos ensinou que segue sendo mais provável em 2015 que grandes volumes de líquido profundamente negro surjam nos leitos dos rios do que sejam extraídos das profundezas dos oceanos. Em ambos os casos, é o livro de Ignácio de Loyola Brandão que nos apresenta o retrato.

PS: Não poderia haver melhor estreia em circuito comercial para o filme de Claudio Marques e Marília Hughes, Depois da Chuva, do que este janeiro de 2015. Aguardo-o ansiosamente.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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