Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

A Arena Joinville e a grande arena do mundo

O calvário de nossa civilização não é e não será, meramente, uma ação de cima para baixo, como imaginam muitos que projetam em personalidades a culpa de nossa desgraça. O grande problema está nas massas, e nos indivíduos que, cada um a seu modo, vão corroendo a esperança e a humanidade.

Já havia escrito um artigo, aqui, onde eu falava que indivíduos loucos, canalhas e estúpidos – talvez até por isso – que detêm o poder em diversos níveis, em nossa sociedade, são legítimos representantes da merda que somos nós, como um todo. É fácil culpar os que estão em evidência. Seja Hitler, Feliciano ou o dirigente do clube, projetamos todo mal nos que estão à frente de estruturas estabelecidas.

A violência na Arena Joinville, hoje, durante o jogo entre o Atlético Paranaense e o Vasco da Gama, não é pontual, não é exceção, e passa ao largo de questões políticas, opressoras e culturais.

Os linchamentos, os atos violentos em protestos e manifestações, as brigas em estádios e no carnaval têm como componente unificante a violência humana, simplesmente.

Outro dia, acompanhei uma conversa, ao fim da minha natação, entre alunos e instrutores. Eles contavam de ex-lutadores que incitavam seus alunos a irem ao carnaval brigar para “treinar”. Quem não batesse, apanharia do próprio, depois. Grupos de bairros periféricos, invasões e subúrbios esperam o mesmo carnaval para brigarem entre si.

Já acompanhei, de muito perto, brigas no Estádio da Fonte Nova. Os envolvidos eram de classes sociais e culturais das mais diversas. Não havia, ali, nenhuma rixa, ódio de classe, demanda reprimida. Havia simplesmente a violência.

Existe uma rua, em Ondina, que, durante o carnaval de Salvador, meninos de classe média e classe média alta, lutadores de artes marciais, brigam entre si e, notadamente, contra jovens de classes menos favorecidas. Sociólogos, antropólogos, humanistas e gente de ONG vão, talvez, analisar, ali, uma luta de classes, vão citar Reich, Foucault, a porra toda, mas, na prática, o que se vê, ali, é gente querendo brigar.

Os hooligans moram no primeiro mundo, não sofrem metade do que nós, terceiro-mundistas, sofremos, e, mesmo assim, brigam entre si. Tribos da África, também. Jovens dos Balcãs, também.

Há, neles todos, uma imagem muito simples: eu sou de tal partido/etnia/time/nação/religião e, você, de outra. Por isso, brigamos. É tudo muito mais simples e triste do que diversas situações econômicas, culturais, sociais e históricas profundas. É tudo mais idiota e irracional, no fundo.

O mais curioso e desesperador é que os chefes, líderes, poderosos, sobre quem recaem a maioria das culpas e a esmagadora maioria das responsabilidades, estão muito bem, obrigado. Muitos podem citar alguns poderosos que caíram e digo: caíram porque não eram mais sustentáveis ou interessantes aos donos do poder. Estes “donos” que jantam em lugares caros, vestem-se bem, viajam, ganham muita grana e têm prestígio e sucesso, tudo que essa imensa massa de briguentos, assim como a maioria de nós, sonha.

Quando eu vejo os radicais do facebook em discussões virulentas, petralhas pra cá, tucanalhas pra lá, acusando os donos do poder, sempre me vem a imagem dos apertos de mão, das alianças, dos conchavos e de tudo que rola nos bastidores da política que faz com eles continuem perpetuando-se no poder. Vem-me à cabeça os cartolas dos clubes, os líderes religiosos, a grande mídia que tange, qual gado, essa “multidão boiada caminhando a esmo”. Lá, da torre de marfim, eles assistem à nossa selvageria e disputa, enquanto, aqui “em baixo, a vida, metade de nada, morre”.

Sabe por que os poderosos têm poder e estão bem? Porque continuamos brigando entre nós. Enquanto assim for, nosso lado animal vai continuar despertando o ódio pelo irmão, que tem outro time, religião, partido, etnia. E, acima de tudo, nosso lado animal vai continuar domesticado por eles, lá de cima, que assistem a tudo de camarote, comem ananás e mastigam perdizes.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Elaine Guedes
Por que será que a frase "eles não sabem o que fazem " me parece tão adequada? Porque eu, na minha arrogância talvez, não consigo deixar de ver como ignorância. Mas...Me dá desânimo discursar , discorrer, mesmo pensar sobre tudo isso, é como se dedicasse meu tempo à estupidez com tanta coisa importante pra pensar. Hoje penso em como me proteger, infelizmente tenho que ensinar minha filha sobre a barbárie. Fato é que essa expressão "ser humano" serve aos pensantes, aos pacíficos, aos psicopatas e a esses babacas. Puxa, estou num saco de farinha apertado e perigoso, e não sei como "desmisturar" , nem deixar de me sentir um pouco melhor que essa corja violenta. Credo, sai de retro!
 Geraldo Cohen
A violência ocorre, sim, na classe e pela classe. Não há violentos fora das classes. Todos nós nascemos em período e contexto histórico. O professor de artes marciais e seus alunos formam, sem sombra de dúvida, uma classe. Do mesmo modo, as facções, as torcidas, o bando. A violência ocorre em contextos sociológicos, antropológicos e históricos. O ato violento é competição acirrada que perdeu o discurso - e a crise contemporânea é uma crise do discurso. Mas não há nada de novo desde a primeira revolução industrial, afora essa crise semiótica. Existe aqui, como em todo lugar, grupamentos humanos organizados em classes, castas, estamentos, comunidades organizadas, de tal maneira, resultado das histórias e da História, que o torne apto a competir. As Sociedades Capitalistas são todas assim, desde os britânicos Hooligans, até a Bamor.
 Magna Cerqueira
Talvez, estejamos prestes a viver uma terceira guerra mundial!!! Chegamos ao século XXI, com uma enorme banalização para com a vida e achando tudo normal, desde que, não nos coloquemos em lugar do outro. Se esta constituição de homem que foi gestada nos anos anteriores com tantas catástrofes lamentáveis,ainda não aprendeu a lição, é realmente assustador!!! É perceptível a forma que esta violência se multiplica , também nas escolas, sendo motivados como se os mesmos fossem ganhar algum troféu, e pior, não se sabe o que fazer!!! Sendo assim, corpo docente e discente finalizam mais um ano letivo com uma sensação de estarem sendo passados para trás, sem saber o porquê, nem por quem.

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