Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

A arrogânsia da ignorânsia

Alta cultura para a classe alta. Já foi assim. A plebe não sabia ler, não tinha acesso a concertos, óperas e obras de arte. As elites guardavam pra si o que de mais sofisticado, complexo e belo poderia haver na arte, enquanto “lá embaixo” a massa ignara, com sua arte popular pulsante, mas artesanal, era tolhida em iguais proporções de todos os direitos elementares para uma vida digna.

Contudo, o declínio dos impérios, dos reinos e das monarquias (e ditaduras – as que, graças a deus, acabaram) foram também a ascensão da burguesia, dos direitos iguais, e prontamente todos reivindicavam o acesso aos bens materiais e imateriais que tanto adornavam a vida das elites.

A arte, quando saiu dos salões da corte, passou a viver na eterna encruzilhada entre manter uma estética apreciada pela elite, e dialogar com um novo público que, por sua ignorância e despreparo, tinha outras exigências e apreciação.

Ademais, a acessibilidade continuava difícil, pois os grandes espetáculos, os livros, tudo era muito caro, havia uma discriminação inerente à obra devido à sua natural elitização. Quando Walter Benjamim escreveu “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, ele, vendo a evolução da indústria, analisava os meios de produção em larga escala para difundir entre todas as classes obras que antes eram monopólio apenas de alguns.

Chegamos a uma era de reprodutibilidade extrema. Hoje em dia, uma pessoa pode baixar a filmografia completa de Federico Fellini em Irecê, ou a discografia completa de Egberto Gismonti em Ibotirama. Contudo, não foi isso que aconteceu. O pedido de Maiakovski (um entusiasmado comunista) – “que se eleve a cultura do povo” – inverteu-se na triste constatação de que a cultura da “classe condutora” se desencantou.

As famílias com mais condições, como se costuma dizer, e que poderiam oferecer uma vasta diversidade cultural e artística a seus rebentos, deseducam ou fazem pouco caso da formação cultural dos seus descendentes; muito devido ao fato, também, deles mesmos já fazerem parte do declínio da estética e da ética como princípios básicos de construção de uma personalidade.

Além do desmantelamento de uma provável elite cultural, com acesso e formação para as grandes obras de arte mais sofisticadas e complexas, houve o processo de preconceito para com essas obras por parte dos que antes não tinham acesso, e pelos que, decadentes, passaram a não mais se interessar por isso. Finkielkraut, Ortega y Gasset e muitos outros autores vão analisar o declínio do pensamento, da sofisticação, e o domínio absoluto do gosto médio; portanto, medíocre. Há, de forma cada vez mais evidente, uma demonização de certas obras de arte e literárias, com adjetivações como cult, cabeção, papo-cabeça, que poderiam ser traduzidas como: obras chatas, ininteligíveis, desagradavelmente intangíveis e rebuscadamente repulsivas.

Há algo que, aliado a isso, transforma a situação atual numa ditadura das massas. Vamos a um fictício exemplo prático:

Numa mesa de bar, uma única pessoa gosta de Tarkovski, Mahler e Tchekhov. Ela é chamada pelos outros de metida, chata, cabeção, e, na sequência, suas preferências são tidas como chatas, cabeçonas, há uma natural consideração de que aquelas artes são coisas esnobes e enfadonhas e é natural não gostar, é, mais do que aceitável, lógica uma rejeição a esses autores e obras. A situação é aceita numa boa.

Mudemos a situação e pensemos que essa mesma única pessoa resolve dizer, apenas, que não gosta de seriados de TV, nem de Almodóvar e tampouco de Marisa Monte. A ela, não é dado o direito de não gostar do senso comum. Essa pessoa será, novamente, estigmatizada como chata, cabeção, metida. A situação é aceita numa boa.

Em suma: todos têm o direito de ridicularizar o gosto do diferente, e o diferente não tem o direito de desgostar das preferências da maioria. Não precisa um raciocínio muito apurado para perceber-se nessa atitude algo opressor e ditatorial. Talvez os títulos dos livros de Finkielkraut e Ortega y Gasset que tratam do assunto possam dar nome à situação: A derrota do pensamento, e A rebelião das massas.

Com a democratização do acesso, o conceito de alta cultura e baixa cultura foi pro espaço. A bem da verdade, na prática ele nunca existiu de fato. Contudo, a impossibilidade de acesso a bens materiais e imateriais por parte da maioria fazia com que esta não pudesse dialogar com certas estéticas, ao contrário dos artistas e escritores ligados às elites, sempre dialogando, inspirando-se e até mesmo adaptando o popular, a matéria bruta, a autêntica identidade de seus povos e culturas.

Há sofisticação nas convenções rítmicas de uma banda de pagode formada por meninos da periferia, assim como pode haver pobreza estética em pretensos sofisticados espetáculos de dança contemporânea, por exemplo. Tudo isso porque grandes gênios, seguidamente, foram misturando o erudito e o popular, desde sempre, e cada vez mais rompendo fronteiras em busca de uma arte que pudesse ser sofisticada e popular, erudita e acessível; e daí resultaram os grandes e os pequenos, os bons e os ruins, independente das artes, formações e nichos sociais e econômicos.

O problema não está nas obras, defenderei sempre. O problema está na formação cultural e educacional, na falta de interpretação, sensibilização e leitura do homem contemporâneo, e numa resistência estúpida aos caminhos diversos da criação artística.

Acredito que um engenheiro elétrico possa ler e gostar de Kafka. Creio que um porteiro pode ouvir e gostar de Villa-Lobos. Insisto que um gari e um veterinário podem assistir e gostar de diversos dramaturgos, encenadores, coreógrafos.

O problema é que as pessoas estão tão oprimidas por sua mediocridade que elas mesmas não acreditam, não creem ou não insistem que podem ultrapassar a barreira do óbvio, do que é teleguiado pela grande mídia e pelo gosto comum. Como a melhor defesa é o ataque, e um bicho acuado e inseguro disfere de imediato suas presas ou seu veneno para cima da ameaça, as pessoas atacam o que lhes é pretensamente distante, inacessível, como forma de se fortalecer. A maioria faz isso, e o senso vulgar predomina de forma opressora.

O que muitos não percebem é que se refaz o caminho de volta a uma pretensa elitização da arte. O que antes era inacessível aos olhos e bolsos do cidadão comum, torna-se agora intangível por conta da ignorância do mesmo. Ou pior, por conta da sua arrogância.

Hoje em dia, em Salvador, um dos programas culturais mais baratos é assistir à Orquestra Sinfônica da Bahia. O que seria mais elitista tem a viabilidade mais popular possível. Entretanto, as pessoas não vão. Vão quando tem trilha de filmes de roliúde. É o momento onde a orquestra sai da erudição e chega à cultura de massas, estendendo a mão para as massas. Só que o caminho de volta não acontece. O público não faz o retorno em direção a Bruckner ou Shostakovich e larga a mão da orquestra prontamente.  Parece que a OSBA está correta em tocar o tema de ET e Guerra nas Estrelas, mas se distancia do público quando toca os chatos cabeções Bruckner e Shostakovich. O público que ouve a trilha de Harry Potter não vai querer ouvir Sibelius, e está tudo bem. A massa tem sempre a razão e a orquestra é que está equivocada quando toca um repertório clássico.

Alia-se a isso tudo uma resistência ao desconhecido. Uma apresentação musical de algum cantor popular só se torna boa quando ele canta os sucessos de carreira. Basta cantar inéditas e todos se desinteressam. As pessoas querem se reconhecer naquilo que vão assistir, num exercício de vaidade e comodismo. Não se ouve mais a música, estão todos num grande caraoquê ou jukebox (falo mais sobre isso num próximo artigo onde pretendo falar de João Gilberto, João Bosco e a apreciação da arte e da música).

Há um discurso estabelecido e recorrente que demoniza a arte e a literatura mais complexa e sofisticada e exalta o senso comum, obras mais populares e de fácil digestão. Nada contra. Muito pelo contrário. Os verdadeiros grandes artistas e escritores souberam apreciar e dialogar com todas as manifestações folclóricas e populares, e muitos muniram-se preponderantemente dessas para criar sua obra. Há, vale registrar, por outro lado, o preconceito de pretensos eruditos, pseudo-intelectuais e artistas mofados em relação ao popular, ao sucesso, ao ligeiro, ao simples, ao que mais facilmente chega às pessoas. No “pretensos”, “pseudo” e “mofadas” já estão embutidas as ideias que tenho sobre estes; deve-se separar o joio do trigo acima e abaixo, à esquerda e à direita.

Anseio e tenho sempre a esperança – e esse escrito é uma tentativa de alertar sobre isso – de que a Arte e a Literatura sejam cada vez mais difundidas, em toda sua complexidade, riqueza e beleza. Está tudo mais acessível, as torres de marfim desmoronam aos poucos e a pluralidade de estéticas, belezas e expressões poderiam ser um bálsamo contra esse mundo cada vez mais concreto e sem arte, sem poesia e sem paixão de verdade.

No entanto, todas as conquistas de acessibilidade e de democratização esbarram, agora, na arrogância de pessoas que exaltam sua própria ignorância como o padrão a ser seguido.

Se não se der o pulo do gato, a onça da mediocridade continuará devorando todos e a arte vai perdendo seu espaço, sua força e valor, abandonada de seus mecenas e sem o sustento do público comum.

Ainda há tempo. O caminho pode não ser fácil, mas nem sempre o fácil pode ser o caminho. Abram seu coração à verdadeira beleza, antes que alma se feche na escuridão da obtusidade.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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[...] Enquanto, de um lado, há uma horda torcendo por notícias que aniquilem o país, torcendo para que ele dê errado, para provar sua oposição, do outro temos outra horda condenando qualquer notícia crítica sobre o atual governo, seja ele federal, estadual ou municipal, com antolhos que não lhes permite criticar e, assim, fazer com que as coisas melhorem de fato. E todos sempre com opiniões definitivas e impassíveis de argumento contrário. Mais assustador ainda é perceber o quanto o pensamento de intelectuais e pensadores contemporâneos são facilmente rechaçados, como se todo o embasamento destes não valesse de nada diante da sapiência superior de iletrados cidadãos comuns (e é inevitável lembrar de meu artigo “A arrogânsia da ignorânsia“). [...]
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Relativizar tudo é mesmo preciso? Temos que relativizar sempre o hábito de não comer merda antes de não comê-la? (isso aqui é mera divagação, para reflexão dos teóricos "benjaminianos". E não estou chamando cultura popular de merda, nem acredito nisso, antes que me lancem este rótulo). Após essa primeira reflexão, digo, num senso popular, que há coisas boas e ruins neste mundo. Sem maniqueísmo gratuito, apenas me apego a um aspecto polar, equilibrante. Numa mesma coisa pode haver os dois lados, que podem ser relativizados pela compreensão de qualquer um. Sendo bem popular, diria que é na ilusão do bom e do ruim, do bonito e do feio e de tantas outras oposições que o mundo humano se constrói em suas escolhas, muitíssimas vezes nefastas (seria eu um pessimista, se não houvesse tanta roubalheira, maldade e destruição). Sendo assim, não sei a razão de tanto melindre na hora de uma pessoa gabaritada, com percurso, dedicação e prestação de serviço no campo cultural, dizer as coisas que pensa sobre o que está bom e o que está ruim, o que é feio e o que é bonito nessa sociedade de merda. E também não vejo problema em discutir o gosto, assim como não vejo por que relativizarmos tudo, absolutamente tudo. Isso é totalmente contraproducente e, com tanta masturbação mental sobre extremos já assimilados desde os tempos das cavernas, me desculpe, não se alcança de forma alguma o caminho do meio, seja platônico ou budista. O texto de Gil não vai de encontro à cultura popular, muito pelo contrário, critica sim essa incapacidade de até mesmo se entender e qualificar o que vem da cultura popular, seja por conta de abestalhações coletivas, de modismos ditados pela indústria em regurgitação do que há de pior em nós e, principalmente, do desaparelhamento das pessoas diante de signos estéticos um pouquinho mais complexos. Em um trecho, Gil fala da riqueza contida no pagode baiano, tanto matricialmente, em seu ritmo, como na execução e na criação da turma. Eu concordo, há muita coisa boa ali. Lembro de duas muito boas agora: a levada do contrabaixo do Harmonia nos primeiros trabalhos e a criatividade rítmica no Psirico (bejaminianos roqueiros, agora, se contorcem). É com ouvido aguçado e aparelhado que se distancia de qualquer preconceito e se aproxima da clareza (os tolos dirão, é metido à besta. Pois direi: em terra de cego, quem tem um olho é caolho). É da ausência de educação, de exercício estético para se chegar a uma percepção apurada, que, creio, Gil reclama, desse emburrecimento da alma que graça em meio à babel de acessibilidades e pouquíssima atenção ao conteúdo. Nessa conjuntura, acredito que, se houvesse um Tom Jobim por aí, ele morreria de fome ou desistiria da música, pois quase ninguém mais reconheceria o Cristo. De volta ao pagode, e óbvio que há muita pobreza na maioria das letras do gênero, na melodia de muitas destas canções, às vezes abaixo de rasteiras. Temos, por exemplo, o direito de questionar isso, tanto quanto a má política, a criminalidade etc sem sermos taxados de preconceituosos (aliás, que palavrinha preconceituosa, heim?). É desse questionamento que vem a busca pela melhora, pela mudança. Gil pede que as pessoas procurem se sensibilizar, estudando e vivenciando mais, indo mais fundo nas coisas, para acordar a carne e a alma e desfrutar melhor das infindas possibilidades estéticas. Almejar que iletrados sejam letrados não significa rebaixar o mundo do analfabeto nem ele mesmo. Dirão agora, quem lhe disse que o mundo do letrado é o seu? E voltamos à masturbação e ao período anterior à escrita. Na minha bagunça, volto novamente ao pagode, para dizer que desejo um mundo em que o contrabaixista e compositor baiano Ivan Bastos possa mostrar o belo trabalho que fez em cima dessa essência pagodeira, soteropolitana, e que alguém possa, de fato, ouvi-lo. Não quero uma sociedade de surdos que se vangloria de sê-la. Por fim, Gil baseou o texto dele em cima dessa coisa de arte de alta e baixa sociedade. Isso de fato aconteceu e ainda reverbera tristemente, apesar de cada vez mais perder a força. Não porque a população menos abastada, tendo acesso agora às coisas, deu um passo à frente, mas porque os mais abastados e que sempre tiveram acesso às coisas recuaram abruptamente – de tanto se alevantar os monturo, se arrebaixará os muro. O importante é dizer que apuro estético não tem nada a ver com grana e que tais, é a evocação de um deus em cada um. Esse papo de alta e baixa cultura ganhou um sinônimo apedrejador. Gil só quis mostrar como as coisas se deram historicamente nesse butetê social. Mas cada um faz o seu caminho e sabe que o trilhou. Há infinitas maneiras de se percorrer essa trilha, e ela merece ser feita e não negligenciada. Sobretudo ninguém deveria jamais dizer ao incauto, desorientado, que assim o permaneça, por originalidade e estilo. Abraço a todos!

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