Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

A autobiografia que o mundo (não) irá ler: de Morrissey ao Procure Saber

Fera ferida: melhor expressão não poderia haver para descrever o Morrissey que se apresenta em texto autobiográfico; melhor porque obviamente além de sintetizar de maneira precisa a imagem final que o cantor de Manchester constrói de si próprio, permite fazer uma relação imediata com o debate sobre as biografias autorizadas ou não no Brasil, cujo pivô é exatamente o autor da famosa canção popularesca.

Para o fã dos Smiths, o livro escrito pelo seu vocalista pode vir a ser um tanto frustrante: informações detalhadas sobre os camarins da banda ou sobre o processo criativo e rotina de trabalho da parceira de Morrissey com Johnny Marr são muito escassas, quando existentes. Com histórias ou pessoas que simplesmente surgem e desaparecem, o livro é escrito como se fosse a versão textual de alguém que explica um álbum de fotografias arrumado mais ou menos de maneira cronológica. Escrita com um vocabulário exuberante e vasto, a autobiografia de Morrissey oferece ainda assim uma série de anedotas e comentários sarcásticos sobre várias pessoas do show bizz, especialmente sobre aqueles com quem ele nunca teve mesmo uma grande proximidade, ou seja, quase todos.

Apesar de ter um objetivo específico, que pudesse talvez ser alcançado em um outro formato, sua autobiografia não deixa de cumprir com formalismos indissociáveis do gênero literário: ali está tanto a ideia romântica de que a obra do artista é um reflexo mais ou menos direto da sua história pessoal (e são várias as passagens da infância e adolescência construídas com este efeito, culminando muitas vezes com a citação de versos de canções, para “ajudar o leitor menos esperto”), como a ideia da diva inalcançável, que sofre ainda mais do que o seu público (a grande solidão, a frustração sexual, a incompreensão são, seguindo a norma, imolações do ídolo transformadas em poesia para a sua plateia).

Mas terminada a leitura do livro, é mais que evidente que a vontade de narrar a sua vida – íntima ou artística – não foi o que moveu Morrissey a escrever estas mais de 450 páginas e bancar o seu lançamento na até então seletíssima série Classics da Penguin. Focado em três questões básicas, Morrissey escreveu este livro para apresentar ao mundo e deixar registrado para o futuro sua perspectiva extremamente divergente da narrativa sobre alguns episódios publicada nos periódicos especializados ou em livros sobre a sua famosa banda. Mais do que uma complementação de fatos ou um ângulo distinto, Morrissey elabora uma contra-representação, em tom às vezes vingativo, às vezes simplesmente reparador, de eventos que considera importantes.

O primeiro assunto a ser atacado pelo cantor é a péssima relação de exploração estabelecida entre as gravadoras e os artistas. Contratos elaborados para garantir lucro exorbitante às empresas e criar uma dependência completa dos artistas, além de um mínimo empenho por parte das gravadoras em promover a sua banda, são os alvos de sua denúncia, não muito distante do que se pode ler na canção Paint a vulgar Picture do último disco dos Smiths. O segundo é por assim dizer um não-assunto: Morrissey acusa a imprensa britânica de ter simplesmente ignorado todo o sucesso que ele teve após o fim dos Smiths. O cantor pop passa a um relato pessoal de suas turnês como artista solo, especialmente nos Estados Unidos, para plateias de milhares e milhares de pessoas. O detalhe com que locais e datas são tratados tem certamente como propósito orientar futuros musicólogos diante do que ele considera uma completa ausência de registros na imprensa de seu país de origem.

Mas o assunto principal, ao qual estão dedicadas páginas e páginas de minuciosa descrição, é o processo judicial aberto e ganho pelo baterista dos Smiths, Mike Joyce, contra o cantor e o guitarrista Johnny Marr, e que levou à divisão equitativa dos dividendos da banda. Convencido de ter passado por injustiça sem tamanho, Morrissey não poupa os piores adjetivos para todos os envolvidos no processo, em especial o litigante e o juiz, abertamente atacado pelo cantor em sua competência. Ao final da narração deste pesadíssimo episódio, o leitor sabe perfeitamente por que até hoje a banda não voltou a se reunir. E provavelmente não voltará.

Morrissey observa que o biógrafo Johnny Rogan, que, segundo o cantor, intitula-se o historiador dos Smiths, também assiste ao julgamento. Obviamente sem nenhuma simpatia pelo jornalista, Morrissey aproveita para atacar os biógrafos na página 327: “Rejeição é o que motiva muitas biografias porque os escritores (ao se colocarem a si próprios como exemplos morais enobrecedores) conquistam a fascinação do público através da deslealdade. Biografias populares precisam desmistificar e destruir para poder alcançar algum valor prático”. E aí ele para.

Não há espaço sequer para articular qualquer pensamento sobre censuras: é claro que a liberdade que garante ao cantor um ataque tão voraz ao juiz é a mesma que garante ao biógrafo ali sentado a sua versão dos fatos. Há adiante no livro ainda uma citação a uma batalha jurídica do cantor contra a publicação editada de uma entrevista sua, e que ele conseguiu vencer após quatro anos. Aqui outra vez nenhuma menção a qualquer ideia de uma censura prévia.

Todos conhecemos como a liberdade de expressão é muitas vezes abusada pelos jornais sensacionalistas britânicos, os paparazzi atrás de Diana tendo sido sem dúvida um marco desta atuação. Mas o livro de Morrissey sequer entra no campo de “defesa da vida íntima”. Ele é muito mais a construção de uma versão pessoal de fatos mais ou menos públicos. É o estabelecimento de um confronto de diferentes versões de histórias públicas, adornadas aqui e ali com inofensivas confissões da vida privada, na construção da opinião pública sobre a sua figura artística.

Diferente da situação de Morrissey, intuitivamente imagino que a imprensa brasileira deve apresentar um saldo bastante favorável àqueles artistas agrupados até há pouco tempo sob a insígnia do Procure Saber. Ainda mais em um país como o Brasil onde é costume escutar a opinião de cantores e atores sobre todo e qualquer tema da vida nacional. O que poderia um biógrafo escrever sobre a vida de, por exemplo, um Roberto Carlos que, fundado ou não em fatos, pudesse vir a concorrer com a imensa relação afetuosa que o seu público cultiva e que faz parte da recepção da sua imagem como figura pública?

Há talvez algo de muito reprovável em todas estas carreiras cujos registros não tenham sido liquidados? Mesmo sem ter que dividir seus dividendos com parceiros, como é o caso de Morrissey, faltará dinheiro para contratar alguém e escrever uma biografia ao seu próprio gosto? Provavelmente não. Ou realmente a questão central ou única seria (ou teria sido) o percentual previsto no modelo discutido, a ser cobrado dos que se arrisquem a biografá-los?

Diferente de Morrissey, que escreveu sua autobiografia na posição defensiva da fera ferida, não deve ter havido fato de repercussão negativa mais ampla na biografia destes artistas que exatamente este debate sobre as biografias. Eles próprios se destruíram e se desmistificaram, no sentido em que Morrissey comenta a tarefa do biógrafo. Eles próprios estabeleceram uma deslealdade, só que com a urgência de liberdade de expressão na opinião pública nacional. Tudo indica que lhes será inevitável a tarefa de escrever autobiografias.  Eles próprios se colocaram nesta situação.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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