Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

A Barra arquitetônica

Domingo, 7 de setembro: dezenas de pessoas dançavam animadamente ao som de um pagode no terraço-varanda do centro comercial vizinho ao Edifício Oceania, na Barra. O fato de eles estarem no andar superior, separados da rua, faria da sua festa um evento de interesse essencialmente privado, mas eles estavam naquele fim de tarde de vento muito forte – e frio para os padrões locais – envoltos por uma multidão de milhares e milhares de pessoas que aproveitaram o domingo de feriado para conhecer a orla da Barra transformada em calçadão. Eles eram por assim dizer o centro especialmente animado de uma multidão que curtia o novo play-ground urbano. E que continua até hoje frequentando-o com intensidade.

Como bem sublinhou Eduardo Carvalho, a obra inaugurada recentemente no trecho entre o Porto da Barra e o Barracenter acerta ao reconhecer o potencial de lazer do lugar; o grande número de pessoas que a cada fim de semana vem lotando o novo calçadão poderia ser visto como a comprovação desta vocação da orla do bairro, ainda que o efeito de novidade e a imensa demanda por espaços públicos na cidade sempre devam ser considerados ao se observar o sucesso de público destas primeiras semanas.

Em finais dos anos 70, Coop Himmelb(l)au, um escritório de arquitetura na Europa Central, afirmava em um texto-manifesto que a arquitetura não é um paliativo, arquitetura é o osso da carne da cidade. Sob esta perspectiva, poderia ser dito então que a nova intensidade de uso derivada da intervenção feita nos espaços abertos na Barra equivaleria a um treino muito eficiente em uma academia de ginástica, acompanhado de personal trainer? Teria recebido esse esqueleto maltratado e combalido uma dose potente de cálcio para combater a osteoporose visível e se tornar capaz de sustentar isso que parece ser uma nova e revigorada massa muscular?

Há que se ter cuidado com esta primeira impressão; o texto de Cláudio Marques, A Nova Barra e a história de L., mostra como o novo arranjo da região demonstrou total insensibilidade com os vendedores de coco estabelecidos no bairro há décadas. Efetivamente, uma série de pequenos comerciantes e prestadores de serviços, à frente de negócios simples, com número reduzido de funcionários, instalados na orla e nas ruas que tiveram seu tráfego modificado, não teve destino distinto daquele do vendedor descrito por Cláudio, tendo a sobrevivência ameaçada e muitos sendo obrigados a fechar as portas. Mesmo os hotéis parecem sofrer com certa intransigência que impede que seus hóspedes desembarquem de maneira confortável, tendo a imprensa local noticiado queixas de gerentes destes estabelecimentos. A condução do projeto e obra parece ter desconsiderado todo um espectro de pequenos empreendedores que vinham mantendo o que havia de pulsação cotidiana nesta faixa de quarteirões próxima a orla. Desta perspectiva, a intervenção no bairro assemelha-se mais a um enxerto de tecido muscular do que a um programa balanceado de musculação.

A mudança no tráfego e a redução das áreas de estacionamento conformaram o desafio de maior peso para a sobrevivência destes pequenos negócios. Determinantes para uma radical mudança nos hábitos de uso do espaço do bairro, sua execução não foi acompanhada de medidas compensatórias a curto e médio prazo que permitissem que pequenas lojas, restaurantes ou clínicas veterinárias, por exemplo, mantivessem sua parte na irrigação dos fluxos urbanos no bairro. Não é por acaso que a primeira ação da prefeitura após a inauguração foi dedicada ao incentivo de instalação de áreas de estacionamento. Para além dos possíveis estragos na estrutura arquitetônica que tal incentivo pode vir a causar, é evidente que para uma série de pessoas esta decisão chega com muito atraso.

Ter reduzido substancialmente o tráfego de veículos em um trecho e limitá-lo ao tráfego local nos outros dois trechos na Barra (no Porto e entre o edifício Oceania e o Barracenter) é um dos dois aspectos importantes da relação entre os espaços abertos e as edificações, cuja importância extrapola os aspectos locais do bairro. Sua experiência pode servir de base para uma avaliação da cultura de uso dos espaços na cidade. É possível perceber, a partir da experiência na Barra, que a recuperação de espaços sensíveis – seja pela sua configuração histórica, seja por motivos ambientais, qualidades reunidas no Porto da Barra – passa por uma discussão sobre a redução do tráfego pesado de veículos. Em uma cidade que demorou muito para limitar o tráfego de veículos no Pelourinho, a Barra pode ser a alavanca para a discussão de outras áreas fora do perímetro mais limitado entre o Terreiro e o Taboão.

Torna-se, portanto, mais que evidente que a recuperação de áreas como a Ladeira da Montanha não pode ser pensada sem a retirada do pesado tráfego de ônibus e que a atual reforma na Baixa dos Sapateiros é mais uma chance perdida de interromper o tráfego pesado no Aquidabã (função para o qual o terminal fora construído). Evidencia-se ainda o quanto somente a imensa demanda por espaços públicos é responsável pelo sucesso de uso de áreas como o canteiro central na Avenida Centenário ou na Avenida Jorge Amado, no Imbuí, também comprometidas ambientalmente pelo excesso de tráfego. No Rio Vermelho é a chance de rever os efeitos positivos que tiveram a transformação do largo de Santana e perceber que a estrutura arquitetônica do bairro só poderá ter uso e ambientação qualificados e adequados se o volume de tráfego for ao menos sensivelmente diminuído.

O outro aspecto importante para outras áreas da cidade é o da ocupação dos quarteirões da orla. Se a Barra apresentou em comum com outros bairros o efeito nocivo e incontrolado por parte do poder público da desvalorização comercial causada pelo limite de gabarito que esteve vigente até as recentes atualizações do PDDU, o bairro esteve ainda mais devastado pelas consequências da exploração dos imóveis para o carnaval, o que levou até aqui a muitos deles serem utilizados somente nos dias da festa. A decadência de uso e a falta de inserção destes espaços no cotidiano dos moradores foi uma consequência tratada até agora como se fosse dotado de naturalidade, da Barra a Itapoã. O grande desafio que está colocado na Barra, diante da pressão de verticalização que já chegou ao terreno em frente ao Barravento e se consolida na franja do morro do Gavazza, é o do estabelecimento do tipo arquitetônico que um grande calçadão à beira-mar necessita para que sua utilização seja garantida.

Com uma série de soluções que nas últimas décadas marcaram as construções tendo como objetivo a redução máxima ou mesmo eliminação do contato de uso entre edifícios e o espaço da rua – que vão da utilização de pisos térreos elevados, muros cegos, eliminação de aberturas, e mesmo a manutenção de terrenos baldios apenas para as estruturas temporárias para o carnaval – o desafio de estabelecimento de bairros confrontados com esta nova situação do interesse do capital imobiliário por investimentos nos quarteirões da orla passa por uma necessária redefinição da tipologia arquitetônica, na Barra como em alhures, em prol desta nova barganha com o uso privado em defesa do que é coletivo e comum na cidade. Neste aspecto, diferente do que a experiência da rua com tráfego reduzido traz de pedagogicamente positivo, mesmo com todos os problemas que indicam a necessidade de vários ajustes, o que está posto como possibilidade de ocupação arquitetônica não aponta para mudanças satisfatórias. Ao contrário; a mini-praça (ou será mini-parque ou mini-jardim) instalada no terreno antes ocupado por imóvel histórico onde por muito tempo funcionou uma pizzaria não deixa de ser, retomando a metáfora do corpo humano, assumir que o vazio deixado por um dente, que havia sido arrancado sem necessidade ou tratamento, faça parte do sorriso, desta maneira, um tanto desconcertado.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

Todos os Artigos

Comentários

 SALVADOR, MAIS UM SHOPPING CONTRA A CIDADE |
[...] 1 Sobre as obras na Barra, ver: CAMPOS, Márcio C. A Barra geográfica. Salvador, Teatro NU, 20 ago. 2014 <www.teatronu.com/a-barra-geografica>; CAMPOS, Márcio C. A Barra arquitetônica. Salvador, Teatro NU, 6 nov. 2014 <www.teatronu.com/a-barra-arquitetonica>. [...]
 Habitar em Salvador: entre a arquitetura e espaço público | Teatro NU
[...] tanto o artigo de Cláudio Marques neste site sobre a situação de vendedores de coco, como o artigo que assinei tratando da urgente discussão sobre as tipologias arquitetônicas e o desenho e uso do térreo das [...]
 Pedro Meirelles
Texto chato e sem propósito... Um mala, quem escreveu isso.

Deixe o seu comentário


código captcha

Voltar

Cultura e Cidade

O Brasil no escuro (II)

Ordep Serra 18/08/2016

Em artigo anterior eu falei que é preciso ser muito burro para acreditar na lenga- lenga de nossos governantes: acreditar que se dinamiza a economia cortando no orçamento verbas destinadas a...

Um Ano Tião!

Cláudio Marques 01/07/2016

“Ele está bem?”. Eu tinha certeza de que no momento exato do nascimento do meu filho eu faria essa pergunta à Marilena, nossa médica. Passei quase toda a gravidez pensando nisso. Às 15 horas e...

chico science 50

James Martins 11/03/2016

[isso não passa de um post de facebook. mas como já sei que gil vicente ia reclamar, decidi postar aqui. dada a desimportância do texto, peço de antemão, perdão]: participei da transmissão do...

Assine nossa newsletter