Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

A Cidade do Futuro, o filme

Várias cidades do futuro foram erguidas no mundo desde que a sensibilidade moderna se estabeleceu: da italiana e renascentista Palmanova, com sua complexa combinação matemática originando uma cidade-fortaleza destinada a resistir aos ataques dos turcos contra os venezianos, a Brasília, uma ode ao transporte individual motorizado no encerrar das luzes do movimento moderno em arquitetura, o estabelecimento de assentamentos humanos planejados em lugares sem nenhum registro de ocupação anterior deveria conformar, através da sua geometria, o espaço novo, retirado do mundo ideal, criando assim condições para a transcrição da utopia para a experiência de vida real das pessoas. Ao moderno estava intrinsecamente associada a cidade nova, tornada presente mas advinda do futuro, para não somente abrigar o homem moderno, mas também e essencialmente formá-lo através de certa pedagogia do espaço.

A história contada no novo filme de Marília Hughes e Cláudio Marques, A Cidade do Futuro, que entra em cartaz na próxima quinta-feira, dia 26 de abril, é vivida em um destes assentamentos planejados em nome da modernidade, a cidade de Serra do Ramalho, no interior da Bahia. Muito longe de possuir a fama internacional da capital federal e o requinte de sua arquitetura, as trajetórias da fundação e povoamento das duas cidades, devido exatamente a esta condição de cidade do futuro, não deixam de se assemelhar. Serra do Ramalho, fruto do reassentamento de famílias que foram retiradas das margens do S. Francisco devido à construção da hidrelétrica e do lago de Sobradinho, traz em sua história as marcas da modernização periférica descritas por M. Berman em seu livro Tudo que é sólido desmancha no ar, através do exemplo de São Petersburgo na Rússia.

Esta modernização periférica (autoritária, repressora de conflitos, simbólica, cosmética ou superficial, no limite, um ato brutal que pode ser instrumentalizado exatamente contra a modernização das relações sociais que idealmente deveriam lhe corresponder) reproduz um padrão de ruptura e reestabelecimento perante as relações sociais, concretizado na experiência do deslocamento, movido pelas promessas levantadas pelo imaginário moderno. No caso de Brasília, o filme alemão de 1960, Weit is der Weg (Longo é o Caminho, na tradução direta do título ao português), um musical que conta a história de um pescador morador de palafitas em Salvador que vai para Brasília trabalhar na construção da capital em busca de uma vida melhor, moderna e integrada, retratou todas estas contradições contidas no imperativo deslocamento desencadeado pela modernidade.

Através de cenas de um documentário e do depoimento de uma testemunha, quando a palavra deslocado é citada duas vezes para descrever os moradores de Serra do Ramalho, entendemos logo no início de Cidade do Futuro que é este o pano do fundo, aqui historicamente consolidado, contra o qual a história do trio amoroso envolvendo Mila, Gilmar e Igor, será contada.

Marília e Cláudio apresentam ao espectador, a partir da experiência traumática do deslocamento dos moradores ribeirinhos para o ambiente “artificial” da Cidade do Futuro, como as relações sociais não modernizadas, tradicionais, tendem a se reestruturar, ainda que, através da inevitável imperfeição desta reestruturação, venham a oferecer espaço exatamente para que impulsos modernizantes floresçam. A palavra aqui de novo é deslocamento, através de sua negação. Perceber que, apesar de todas as adversidades que a história irá desenvolver, há espaço para permanecer na Cidade do Futuro é, paradoxalmente, atestar-lhe capacidade renovada de contestação, é reconhecer na sua geometria apenas mais ou menos regular um espaço de negociação. Não mais se deslocar, desafiando-a, é redefinir a direção do potencial modernizador da Cidade e, assim, reafirmá-lo.

Para isso, o filme irá mostrar como o cotidiano da Cidade está transpassado por diversos elementos modernizantes: das motocicletas e a tradicional estação de rádio aos games, à festa de Halloween, ao ultrassom e ao do-it-yourself na montagem do berço do bebê, a ambiência é constantemente sinalizadora de experiências que unem os personagens da Cidade do Futuro, mas muito distante de tudo, ao mundo contemporâneo. Todas estas “artificialidades” (cujo contraponto de grande eficiência é o universo dos animais e da vaquejada) são exploradas também na direção de atores, todos novatos, sem experiência ou formação clássica: aqui o estranhamento causado por uma certa rigidez na fala, com pausas construídas, ou no gestual é empregado como parte da inteligente e delicada indefinição entre ficção e não-ficção da história, que marca o filme.

A Cidade do Futuro representa um amadurecimento dos diretores em uma série de elementos técnicos e formais, como o emprego da trilha sonora, a fotografia e edição; a afinada direção de arte de Carol Tanajura cumpre muito bem o seu papel. Destaco aqui ainda a cena da piscina no clube da Cidade, como um acertadíssimo momento de pausa e alternância na narrativa. Com uma duração exata e tão cuidadosamente elaborado, o filme emociona através de um balanço entre força e fragilidade na relação entre os personagens e na relação deles com a Cidade do Futuro.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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