Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

A Funarte e as necessidades especiais da cultura

Certa feita, conversando com meu ortodontista, ele me perguntou quanto eu precisaria para montar Sade, meu próximo projeto, texto meu, com o Teatro NU. Eu falei que precisaria de uns duzentos mil reais. Ele se assustou, achou um valor absurdo e eu prontamente fiz uma pergunta bem objetiva a ele.

Acompanhando sempre minhas peças, ele é fã de Carlos Betão. Viu-o fazendo diversas peças do grupo e admira o trabalho dele. Perguntei-lhe quanto um ator do naipe de Betão mereceria ganhar por mês para ensaiar X horas por dia. Ele respondeu que uns oito mil reais. Então, foi só fazer os cálculos. Quatro meses de ensaio: trinta e dois mil reais. Na peça, são cinco atores, todos do naipe de Betão. Pensando que o diretor e a produtora ganhem o mesmo, multiplicaríamos os trinta e dois mil por sete. Resultado: R$224.000. Ele parou por um segundo e concluiu: é, com R$200.000 você não monta essa peça, não…

Todos nós artistas baianos sabemos que quando ganhamos, ao final de um processo, R$8.000 por todo o ensaio e primeira temporada, já é um bom cachê para os parâmetros miseráveis em que vivemos. Infelizmente, não podemos trabalhar dentro de um patamar de dignidade e justeza de valores para o grau de competência, reconhecimento e história que temos na profissão.

Para piorar nossa situação, o teatro, na Bahia, vive de uma quase total dependência dos recursos estaduais, sempre mal geridos, insuficientes e pulverizados. Em Salvador, a prefeitura claudica entre tentativas de editais, pouco orçamento, direcionamento mais sério para uma política cultural eficiente. Além disso, diversas iniciativas paralelas ao erário são poucas ou inexistentes na cidade.

A Caixa Cultural de Salvador é um pequeno oásis nessa seca, com um espaço alternativo, a promessa de construção de um teatro em 2015, mas, afora isso, não temos centros culturais de bancos, nem de telefonias, que possam realizar editais, chamadas públicas, e nem tampouco o SESC investe na produção local através de recursos para montagens, temporadas e projetos outros. Temos um teatro que cumpre bem seu papel, somos contemplados pelo Palco Giratório – programa de excelência em circulação de espetáculos pelo país –, mas, localmente, estamos longe de ter um investimento como vemos no Sudeste, para não falar em São Paulo, aonde chegam a chamar o SESC de Ministério Paralelo da Cultura, ou algo que o valha.

A Funarte acaba de lançar o edital Myriam Muniz 2014. Apesar de toda a discussão que houve com o Minc, na gestão Gil/Juca, a Funarte parece ter regredido e acaba de criar uma diferenciação nos valores digna de nota. Comparando Sudeste e Nordeste (não me arvoro a discutir a situação de regiões que não conheço, mas que, imagino, sofram igual ou pior), os valores são os seguintes para montagem  de  espetáculos  ou  manutenção  de  atividades teatrais de grupos e companhias:

No Nordeste, são 8 projetos de R$50.000 e 3 de R$100.000.

Nu Sudeste, são 2 projetos de R$50.000, 5 (isso, cinco!) de R$100.000 e, tcharam!!!, 7 (isso mesmo, lembram da semifinal da Copa?) projetos de R$150.000.

Sabemos da concentração de projetos da Lei Rouanet – a (praticamente única) “política cultural” dos anos FHC que os favorecidos lutam pra que não mude – no eixo Rio-São Paulo. Sabemos da força dos CCBBs, dos SESCs, que no Sudeste estão os três estados mais ricos do Brasil, etc. Sabemos da força da TV, das indústrias, das empresas, das fortunas fomentando as artes.

Não que eu ache que eles não merecem. Eles merecem muitos mais da Funarte e de todos os recursos possíveis. Mas será, realmente, que os nove estados – historicamente desamparados e sem tradição de políticas culturais eficientes (com raras exceções) – do Nordeste precisam tão menos do que os quatro estados do Sudeste?

Pergunto mais: será que não há no Nordeste grupos e coletivos, artistas importantes, que precisem tanto quanto os do Sudeste de R$150.000 para suas peças? Não podemos aqui montar espetáculos com mais recursos financeiros, maior aporte de investimento num grande elenco, numa grande estrutura cênica, musical, itinerante?

Cada estado da federação tem uma demanda diferente. Essa separação por regiões é uma falácia. Chegou-se a se fazer uma nova divisão de regiões de acordo com o potencial artístico e produtivo, na época das Câmaras Setoriais – que, como em diversos aspectos, sumiram na regressão da Funarte – buscando uma maior honestidade na distribuição de recursos.

Não bastassem os poucos recursos, as divisões equivocadas, a falta de visão arguta das diferenças e dimensões culturais do país, ainda deparei-me com um novo critério de pontuação dos projetos. O critério “c”, que vale de 0 a 15 pontos, num total de 100 que o projeto pode atingir, refere-se à “atenção a acessibilidade” (sem crase, mesmo), exemplificada através da linguagem de libra ou áudio descrição.

Sou totalmente a favor da democratização, da acessibilidade, de tudo que possa amenizar as profundas diferenças, exclusões e inacessibilidades desse nosso Brasil varonil. Entretanto, me pergunto: precisa cair na “nossa conta”?

Sabemos da escassez de recursos para a cultura. Vê-se que o edital da Funarte não destina nenhuma grande fortuna que possa realizar o sonho da casa própria para quem for aprovado no Myriam Muniz. No entanto, em nosso projeto artístico, conta ponto, ou perde ponto, a falta de aplicação nos recursos de acessibilidade.

Ora, sabemos o quanto é dispendiosa a tecnologia e a mão de obra qualificada para tal. Sabemos, também, que os recursos que nos chegam dão, apertadamente, para realizar uma obra, dinamizar uma obra de arte dentro de seus padrões mínimos.

Contar com o recurso da acessibilidade é pensar além, com orçamento aquém. É recorrente vermos projetos isolados de formação de plateia, de acessibilidade, que, dessa maneira, não solidificam uma tradição, nem tampouco surtem efeitos globais.

Dou total apoio ao Minc, se este começar a criar projetos de acessibilidade, onde ele possa investir em recursos, estruturas que façam com que portadores de necessidades especiais possam ter acesso a obras de arte. Afinal, são recursos públicos, e o que é público deve ser usufruído por todos.

Porém… Semos nozes que temos que começar a pensar, pegos no susto, sem conhecimento de causa, sem noção técnica e tecnológica, sem acessibilidade às possibilidades de recursos, em incluir acessibilidade em nossos projetos, sob a pena de termos uma avaliação que já comece com nosso projeto valendo 85 dos 100 possíveis?

Aí, há a grande chance de vários projetos ficarem como naquelas coisas de contrapartida social: o artista inventando artimanhas pra ter o projeto aprovado. Aí, tome-lhe oficina tapa-buraco, tome-lhe ingresso por quilo de alimento e livro pra doar, tome-lhe pagar alguém pra ficar no canto do palco fazendo sinal de libra dos diálogos da peça, de qualquer jeito, e os artistas começam a inventar um bando de ações emergenciais para suprir demandas de edital. Soa-me sempre, da parte do Estado, como uma forma de mostrar o bom-mocismo e “preocupação” deste com questões das “minorias”. Demagogia, oportunismo, populismo? E a real eficiência dessas demandas? E o que o “poder” do Estado faz, diretamente, para suprir essas demandas, ao invés de exigir ações pontuais e isoladas?

Faz-se necessário entender as necessidades e as suprir. As necessidades das regiões num edital da Funarte, as necessidades especiais de parte da população que também deve ter acesso a obras de arte, as reais necessidades de um país.

A meu ver, o novo edital da Funarte – travestido de preocupações com regiões e acessibilidades – está longe de contemplar de forma eficiente tudo isso. Eddie Lack Authentic Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Chico Oliveira
Pois é Gil, só mudam os "pacientes", a "doença" e os "remédios" são os mesmos. A situação é a mesma na música. A arte no Brasil precisa urgentemente sair dessa submissão. Verdadeira mendicância. CU ltura!
 Polis
Então... Para além de toda a discussão que poderíamos empreender em relação ao Myriam, desde quando houve essa divisão por Região, isso me parece mais uma das manobras para justificar a possível incapacidade de uma comissão em julgar e aprovar Projetos de qualidade. Porque qualidade aqui é algo muito relativo. E põe relativo nisso! Sei que os critérios são diferentes, nas "concorrências" públicas às quais podemos ter acesso e inscrever os nossos Projetos. Mas numa comparação simples, ao ler uns três ou quatro Editais e Regulamentos, nos últimos três anos, verificaremos que é possível equipará-los, ainda que de forma superficial. Cada instância elege os seus critérios e define as suas pontuações de acordo com seus princípios, ou não né? Como saberemos? Do lado de cá, ficamos nós tentando nos adaptar a cada nova oportunidade de conseguir um financiamento para continuarmos trabalhando naquilo que acreditamos e investimos esforço, no entanto, tudo tem limite... Enquanto isso, vamos tentando continuar o caminho, quem sabe em direção à implementação de políticas púbicas de Estado... Uma possível luz para as mudanças que almejamos!

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