Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

A goleada da Alemanha e Holanda ou: pra frente, Brasil!

Quando estive em Berlim, em 2001, fiquei encantado com o espírito multicultural da capital. Era uma cidade* que queria dialogar com outras artes, outros povos, uma cidade pra frente, em busca de uma maior liberdade e tolerância. Mal sabia que um ano depois eu comemoraria, meia apático – por ser em plena manhã – o pentacampeonato em cima da seleção alemã.

Dizem, lá, que aquela derrota foi o estopim para uma renovação do futebol no país. Nada tão rápido. Foi preciso cair pra Itália em casa, em 2006, numa das copas mais sem graça de todos os tempos, e depois cair em 2010 para a Espanha, com um futebol bonito, alegre, vivo, investindo em “meninos” que fraquejaram na semifinal com os espanhóis, depois de um 4×0 na Argentina.

A seleção alemã do século XXI em nada parecia aquela pragmática, metódica e marcial seleção campeã em 1990. O futebol evoluiu, as nações evoluíram e vimos, esse ano, o grupo alemão fazendo as coisas certas. Brincaram quando tinham que brincar, treinaram sério quando tinham que treinar. Apenas uma folga a copa inteira. Vídeos engraçados, passeios na praia e muito treino.

Os alemães aprendiam Lepo lepo nas horas vagas, e estudavam esquemas táticos para eles e dos outros combinados. Ambiente descontraído quando tinha que ser, sério quando precisava. A disciplina, o rigor e a técnica contrapondo o encanto com nosso Pindorama.

Os alemães golearam Portugal e o Brasil.

Os holandeses golearam a Espanha.

Nunca estive na Holanda, mas sei, como muitos, do quanto o país é embalado pelas liberdades e reconhecimentos de direitos individuais e sociais. O país das legalizações, na década de 70 do século passado, surgiu para o mundo com seu carrossel, sua laranja mecânica que encantou a todos com seu futebol ágil, versátil, criativo e pra frente.

À Holanda, esse futebol rendeu dois vice-campeonatos. Perdeu dos donos da casa, na Alemanha e na Argentina. Depois, chegou na década de 90 às quartas e à semifinal, sendo eliminada ambas as vezes pelo Brasil, que viria a ser campeão em 94 e vice em 98. Só então em 2010 retomou o prumo e, apresentando um futebol interessante, chegou à final da copa, perdendo para a Espanha, num jogo marrento, 1×0 sem graça.

A Argentina tem Messi. Isso é meio caminho andado. Mas caso a Holanda chegue à final – e tem mais coletivo para isso, a despeito do gênio argentino –, chegará tendo mandado espanhóis para casa com cinco gols nas costas, ajudando a eliminar a seleção campeã na primeira fase. Chegará, também, mostrando um futebol aberto, mais pragmático que o da década de 70, segundo dizem os especialistas, mas que tem belas jogadas, velocidade, além de um técnico meio cientista louco – e, segundo os resultados, altamente lúdico e lúcido – que sai mudando seu combinado de acordo com a situação. Em suma, uma seleção, jogadores que, assim como os alemães, curtiram o Brasil, mas treinaram, estudaram adversários, têm esquemas táticos, jogadores de destaque, possibilidades e alternativas na seleção.

E o Brasil?

O Brasil está careta.

Enquanto Manuel Neuer pede que outros jogadores assumam sua homossexualidade, David Luiz – nosso mocinho – adere ao movimento “eu resolvi esperar”, guardando sua virgindade para o casamento. Nada contra as escolhas pessoais, tudo contra aderir a movimentos. Neuer fez um pedido que romperia preconceitos. Se metade dos homossexuais famosos assumisse sua orientação sexual, ia ficar um pouco mais difícil existir o preconceito que ora existe. O único movimento que há nisso é de empurrar o mundo pra frente.

A seleção entrou com boné #forçaneymar, entrou com mão no ombro parecendo pré-escolar, cantou o hino nacional como se estivesse em passeata ou regimento militar, deu declarações de bom-mocismo capitaneadas pela figura de David Luiz, que virou nosso queridinho, um exemplo para o país, um referencial para novas gerações, (zzzzzzz, cochilei) etc.

Um clima chato. Careta. Bobo. Felipão como o paizão, um mero motivador – como todos os entendedores chamam ele – que não acrescentou nada além de uma boa dose de arrogância, um espírito de união sentimentalóide e nenhuma ideia sobre futebol.

Não defenderia, jamais, aquela imagem de que jogador tem que ser cachaceiro, putanheiro, irresponsável. No Brasil, facilmente confunde-se a coisa e sei que é moda dizer por aí que Romário pulava muro de concentração e por isso ganhamos em 94, que Garrincha se embriagava no dia anterior ao jogo e por isso ganhamos em 62. Não é por aí.

A questão é que Alemanha e Holanda entraram na felicidade brasileira, curtiram o país, na hora que era pra fazer, e treinaram, treinaram e treinaram na hora que era pra treinar. E buscaram renovação.

Enquanto isso, David Luiz consolava algum jogador adversário para emoção de todos, Thiago Silva chorava e se recusava a bater um pênalti – o capitão do time –, e Felipão arrotava a seleção que ele ia empurrando copa afora de forma torta e troncha.

Soube, hoje, que quando o técnico da seleção alemã olhou sua escalação e a do Brasil, em 2002, ele falou que não tinha como ganhar. Tínhamos Rivaldo, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, e, de quebra, Roberto Carlos e Cafu em forma, e por aí vai. Era uma questão lógica. Não à toa, depois de anos, uma seleção era campeã tendo o artilheiro da competição.

Ok, a seleção era treinada por Felipão. Treinada? Vai me dizer que a seleção de 94 era excelentemente treinada por Parreira? Fomos aos trancos e barrancos, das duas vezes, mas com craques. Tínhamos Romário e Bebeto. Tínhamos Rivaldo e Ronaldo, e de quebra Ronaldinho e Kaká para cobrir eventuais faltas.

Agora, tínhamos só Neymar. Que só jogou bem duas partidas, das cinco que participou, e nem tão bem assim. Olhamos nossa seleção desse ano e não temos em quem depositar nossas esperanças. Pela primeira vez, em anos, não temos um ou dois reservas que comentaristas e o povo, em geral, clamam que entrem na seleção titular.

Tudo isso por conta de termos uma seleção careta, numa convocação estranha (cadê Philipe Coutinho, Lucas, tantos outros?), num esquema reacionário. Careta em seus jogadores, que se benzem e rezam por tudo, falam frases de efeito sobre motivação, união e humildade, parecendo lição de colégio. Reacionária em sua comissão técnica, que ganhou duas copas – Parreira e Felipão – sem estilo de jogo, sem esquema eficiente, sem surpreender ou mostrar algum esquema novo, diferente, louvável. Ainda não chegamos ao século XXI, com o futebol. Parece que estacionamos no tempo. E, para completar, a CBF e seus defeitos e problemas nefastos, atrapalhando ainda mais tudo.

Já o Brasil, nosso país, não. Parece que está recuando em diversos aspectos. Estamos mais preconceituosos, mais radicais, mais fundamentalistas, mais reacionários, mais raivosos, mais caretas, mais maniqueístas.

Tudo aquilo que aconteceu em 64, no país, reflexo de um movimento reacionário também da população, refletiu naquela seleção bagunçada de 66, com Pelé machucado, apanhando, e a gente ficando pelo caminho. Nada justifica, depois de 58 e 62, e antes de 70, esse 66 tão ruim. E a seleção de 70 veio com militar, Pelé, luta armada, Tostão, tortura, Rivelino, desbunde, Gérson, um monte de camisa 10 num time só e não teve jeito.

Agora, algumas nuvens estranhas também pairam por aqui. Mas não sei se em 2018, na Rússia, já estaremos renovados, olhando pra frente e arejando nossa mentalidade e nosso futebol.

Não é cachaça, puta e samba o que precisamos. Mas a caretice é um mal terrível, e o comportamento reacionário, também. Em todos os aspectos. Precisamos nos reinventar e saber esculhambar e levar a sério nas horas certas. Precisamos ser técnicos e táticos, e ao mesmo tempo livres e soltos; olhando pra frente e nos redescobrindo.

Pra frente, Brasil. Salve a seleção.

 

*Havia colocado “país”, mas mudei pra “cidade”, depois de diálogo com uma amiga que reside na Alemanha; para não generalizar e ser irresponsável. Dave Robinson Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Tem culpa quem na goleada, ou: um adendo à conversa sobre a Seleção | Teatro NU
[...] ps: Esse artigo foi um adendo ao anterior: A goleada da Alemanha e Holanda, ou: pra Frente Brasil! [...]

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