Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

A imagem do Brasil e a Copa da FIFA

Tenho percebido uma preocupação muito grande, de parte dos brasileiros, sobre a imagem que estão passando do Brasil, lá fora. Toda hora vejo comentários repudiando editoriais, vídeos, sites que tratam nosso país como um lugar violento, desigual, erotizado, festeiro e desorganizado, para lembrar apenas alguns dos adjetivos mais corriqueiros.

Não me incomoda nem um pouco que vejam nosso país assim, apesar de minha placidez, quanto ao fato, não derivar nem daqueles alarmistas apocalípticos, para os quais o Brasil é o cu do mundo, nem tampouco daqueles que acham que está tudo certo.

Não me incomodo porque muito mais importante do que a imagem que fazem da gente, lá fora, será a imagem que farão da gente, depois da Copa da FIFA. E nós, brasileiros, em nossa maioria, não estamos fazendo nada para que tenhamos uma boa imagem, passado o evento.

Será que se, ao invés de criarmos o movimento “não vai ter Copa”, fizéssemos um movimento “tem que ter metrô”, “tem que ter ciclovia”, “tem que concluir o PAC da Copa a tempo”, “tem que investir noutras culturas”, será, mesmo, que se pressionássemos para que as coisas boas acontecessem, se reivindicássemos para que as promessas fossem verdade, não teríamos um país melhor depois da Copa (que vai acontecer)?

Vai chegar a Copa e, muito além dos políticos e da FIFA, muita coisa não vai mudar por causa da gente. Chegará a Copa, e brasileiros e brasileiras estarão ansiosos pelos gringos e gringas que virão pra cá, e para esses o Brasil será o país da putaria, das mulheres e homens fáceis, seminus, das fodas e beijos sem fim. Virá a Copa, e todos aplaudirão o “circensis” dado pelos políticos. O estrangeiro chegará aqui e verá a programação de Salvador, por exemplo, durante a Copa. Teremos um novo carnaval, com mijo na rua, latinhas no chão, muita zuada, putaria, confusão e histeria, e praticamente nenhuma exposição, nenhum espetáculo de dança ou teatro, concerto ou apresentação de nomes importantes da música local que não façam “festa”.

O turista chegará aqui, e verá um trânsito caótico muito por conta da nossa falta de educação, nosso egoísmo e violência no trânsito. O estrangeiro aportará por estas plagas para ser explorado indevidamente em preços abusivos, para ver a sujeira das ruas, o péssimo atendimento, gente mal educada e falando mal da própria cidade. Intolerância religiosa, sexual e desigualdade social.

A Copa vai acontecer, com ou sem manifestação, com ou sem violência. E o Brasil continuará do mesmo jeito porque nós não queremos mudar. Vamos às ruas porque São Paulo foi, mas não vamos às ruas para combater desmandos, corrupções, equívocos do poder público de nossa cidade e Estado. Para nossos reais problemas, ficamos de mimimi nas redes sociais e mesas de bares. Mas para ir à rua sem propósito definido porque foi moda levar cartaz pedindo padrão FIFA e mais saúde e educação – jura que alguém quer isso? Só aqui, né? – todo mundo vai. Ou porque a passagem aumentou, apertou no bolso, somente por isso. Agora, políticos podem fazer milhões de merdas evidentes, que poderiam ser contestadas, e ninguém sai de casa.

Soube que, terminado o carnaval, dia 4 de março, haverá uma semana de xous de 23 a 29 de março, no aniversário da cidade, com investimentos de milhões, trazendo atrações caríssimas. Mal acabou o carnaval, e entraremos numa semana de festas novamente. Ai de quem criticar. Uma semana de festa, mijo na rua, latas pelo chão, putaria e latrocínios. Maus serviços de transporte, segurança e saúde. E todo mundo feliz e aplaudindo. Que imagem queremos passar da cidade para quem vem nesse período? Necessitamos, realmente, de mais festa em Salvador?

Precisamos olhar no espelho e pensar quem seremos, e o que queremos que o Brasil e os brasileiros sejam nessa Copa. Acho que manifestações pacíficas, reivindicando problemas concretos, são tão aceitas quanto a exigência de uma programação cultural diversificada, qualidade nos serviços para o turista e o cidadão, e, antes de tudo, é fundamental que possamos rever quem seremos e o que queremos enquanto cidadãos. Se você é atendente, artista, policial, médico, gari, ambulante, jornalista, político ou empresário, que país você está ajudando a construir?

Perdemos o bonde da história para muito do que poderia ser feito e reivindicado a tempo, para essa Copa. Mas ainda há muito o que fazer, reclamar, reivindicar, contestar, cobrar e agir. Se incomoda tanto a você a imagem que outros países têm do Brasil, ao invés de reclamar disso, faça com que eles saiam com outra impressão. Os governantes vão passar, a Copa vai passar, a FIFA vai passar, mas a cidade continua. Com sua rotina, cotidiano, problemas a ser enfrentados e é no dia-a-dia que se constrói uma cidade.

Até junho, muito ainda será dito, inclusive por mim. Inclusive pelos outros colunistas desse site. Sejamos propositivos quando for a hora, contestadores quando for conveniente, provocadores quando for preciso.

Vai ter Copa. Com briga, guerra, luta, ou sem, vai ter Copa. E depois da Copa? Tem eleição. Vamos brigar por isso, também, de forma consciente? Entender nossa cidade, nosso estado e país além dos partidos e meios de comunicação? Vamos ser cidadãos construtivos e propositivos para a cidade que queremos? Para além da discussão clichê sobre a Copa, vamos começar a pensar de forma mais atuante e crítica o que realmente queremos para nosso país, estado e cidade? Josh Bynes Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 selma França
Alarmante..provocador!

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