Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

A rivalidade na Copa do Mundo

Em 2001, eu estava em um albergue em Barcelona, quando percebi que dividiria o quarto com três argentinos. Um deles, ao saber que eu era brasileiro, falou muito entusiasmado que adorava o Brasil e o futebol brasileiro.

Eu, estupidamente influenciado por esses folclores idiotas, ri ironicamente e falei que ele estava brincando comigo. Pois o argentino abriu sua mochila, com a pouca roupa que tinha para aquela viagem, e dentre suas tralhas ele desfraldou a camisa 9, amarelinha, de Ronaldo.

Nessa mesma viagem, tive oportunidade de ir a Berlim, como relatei num artigo recente. Fui com um amigo tradutor ao lendário Berliner Ensemble, assistir a uma montagem do Ricardo II, de Shakespeare, dirigida por Claus Peymann. Recém-formado, ia comprar um ingresso mais barato, se não me engano 40 marcos, que eram mais ou menos 40 reais, na época, o que era muito pra mim, já. De repente, meu amigo tradutor deu uma risada e me disse que a bilheteira tinha descoberto que eu era brasileiro, e por isso me venderia, pelo mesmo preço, o melhor lugar do teatro.

Eu poderia, sim, contar histórias desagradáveis sobre argentinos e alemães, mas, de lá pra cá, só acumulei gentilezas, parcerias e amizades.

Quando vejo um estímulo à rivalidade com outras nações, não consigo me animar nem um pouco. Mais do que xenofobia, soa-me como algo tolo, pré-fabricado, um estímulo desnecessário ao conflito.

Qualquer seleção do mundo festejaria uma vitória contra a Seleção Brasileira, assim como sua derrota para outra equipe. Também temos a mania de torcer pelo “mais fraco”. Somos pentacampeões e outros querem ter títulos, ou mais títulos, até mesmo porque vêm merecendo mais que a gente desde 1986. Temos sido salvos por talentos, mas já estamos obsoletos nas táticas e técnicas há tempos. Isso não é rivalidade, disputa, inimizade ou discórdia. É competição.

Se temos um inimigo, um rival, tenho certeza que não está fora de nossa fronteira.

Dirigentes e ex-dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol, associação privada, são denunciados, seguidamente, como corruptos, como ligados à ditadura de forma acintosa, como cartolas atrasados, reacionários e perniciosos para o futebol brasileiro. Escândalos e mais escândalos são acumulados, contratos são investigados, desvios, corrupção, é tudo uma grande tragédia para o nosso esporte.

Negociações de passe, gestões de clubes de futebol, roubalheira, jogos de interesse, mentalidade atrasada, má vontade em modernizar estruturas, arrogância e preguiça para entender a evolução do esporte mundo afora, tudo isso faz nosso futebol perder de goleada seguidamente.

Sinceramente, se eu torço contra alguém, nessa Copa do Mundo, é contra a CBF e todos os males que a circundam e prejudicam nosso futebol, incluindo dirigentes de clubes, cartolas, empresários, patrocinadores e muitos jogadores e técnicos por aí.

De resto, fica a indecisão entre ouvir Beethoven ou Piazzolla, ler Bertolt Brecht ou Jorge Luis Borges, comer uma bratwurst ou um bife de chorizo. Corey Seager Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 maurício gramacho
excelente artigo. muito bonito, mesmo.

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