Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

A vacina contra o HPV, ou: o Horror da Puberdade Violada

Recorte de "Puberdade", de Edvard Munch (1894)

Acordei hoje e, ao entrar no computador, sou surpreendido com um amigo que refletia sobre a polêmica da campanha de vacinação contra o HPV, encampada pelo Ministério da Saúde. Prontamente perguntei qual era o motivo da polêmica, visto que achei algo irrepreensível, por parte do Governo Federal, e ele me respondeu: “destaque para um suposto incentivo à precoce inicialização da vida sexual nessa faixa etária”.

O problema do Brasil é um problema de base. Critica-se muito o Governo Federal, desde que me entendo por gente, por não investir em educação. Seja qual partido, presidente ou coligação for, o problema e culpa desembocam na instância máxima, mas a nascente disso passa pelos governos municipais e estaduais. Contudo, pouco importa se há mais de 20 anos os governos federais mandam vultosas verbas, fazem memoráveis programas que são boicotados, têm suas verbas desviadas pelos gestores estaduais e municipais em todas suas instâncias: a culpa recairá sobre o Governo Federal.

Por conta dessas e outras razões, Cristovam Buarque vem defendendo há tempos uma federalização da educação. Essa divisão: ensino fundamental a cargo dos municípios e o médio por conta dos estados não estaria – e não está – dando certo. Não vou me alongar sobre o assunto, mas sugiro que pesquisem. Não sou de total acordo, mas entendo as justificativas.

O sistema de cotas, quando foi lançado, sofreu violenta rejeição por parte de muitos. Eu, a princípio, fui contra. Entretanto, números sérios, pesquisas fundamentadas mostraram que, nas faculdades mais disputadas, o desempenho dos cotistas superou, em boa parte das vezes, as notas dos alunos que entraram da forma usual. É um programa que, a médio prazo, está dando relativamente certo (e que talvez não deva continuar por muito tempo, justamente porque precisamos evoluir da nossa atual situação social). Claro que sei de casos, notadamente em faculdades menos disputadas e tradicionalmente mais “marginais” ao sistema capitalisto-arrivista, em que os alunos cotistas são analfabetos funcionais, praticamente.

Contudo, citei as cotas não para falar delas, mas para usá-las como exemplo desse eterno tapar buraco de nosso país. As cotas são necessárias porque o ensino público fundamental e médio é uma lástima, e não prepara bem seus alunos para ingressar numa faculdade. Tradicionalmente, pelos nossos séculos de escravismo e exclusão, a imensa maioria negra foi escorraçada para as periferias e subúrbios, e em condições de vida altamente precárias, com a abolição da escravatura. Natural que ela não tivesse acesso aos bens necessários para uma vida digna, numa sociedade perversa como a nossa, que não dá condições públicas para uma educação, cultura e saúde dignas, ao menos.

Conheço diversos artistas, de gerações anteriores à minha, que não fizeram faculdade alguma, ou largaram no meio, para seguir carreira. A faculdade deveria ser, como vejo em países da Europa, a especialização, dedicação à pesquisa e à teoria, bem como a formação de profissionais que necessitam se aprofundar em questões técnicas, teóricas e tecnológicas para exercer determinadas profissões. Na Europa, até pouco tempo atrás, por exemplo (até onde puder ver), não ter uma faculdade era algo normal, de alguém que queria tomar outros rumos na carreira. Aqui, aos poucos, a coisa se afunila ao ponto de vermos pessoas entrando nas universidades para ter um diploma e conseguir um emprego, passar num concurso, ou algo que o valha.

Por que essa exigência de um diploma? Porque o ensino público fundamental e médio não prepara ninguém. Há casos de pessoas que vão até o último ano do ensino médio sem saber ler nem escrever de forma mais profunda, sem entender patavinas de história – no que ela é fundamental para nos compreendermos –, sem conhecer nossas letras, geografias e biologias de forma produtiva e relevante.

O que tudo isso tem a ver com o assunto do início? Tudo. Vivemos numa sociedade de consumo onde as empresas perceberam que acelerar a infância dá mais lucro. Os pais, na esteira disso, vêm achando lindo suas filhas, o mais cedo possível, vestirem-se como putas, dançaram como putas, comportarem-se como putas. Tudo é muito gracioso, divertido, mostrado para a família e vizinhos como uma prova de inteligência, amadurecimento e esperteza da menina. Esses mesmos pais, ao ouvirem seus filhos ainda muito pequenos falarem que querem namorar, começarem a se masturbar, verem revistas de mulher nua, falarem das coleguinhas, tudo isso deixa os pais orgulhosos, é uma comprovação da masculinidade e do quanto seu filho vai ser pegador, furador, brocador, comedor. Há um incentivo nefasto de uma sexualidade que ainda se descobre com alguma pureza e que poderia seguir seus passos naturais. Tudo dito acima sempre aconteceu e acontecerá com suas nuances e seus matizes.

Estamos numa sociedade onde a sexualidade é exacerbada em músicas, em novelas, sites pornográficos pululam, sem controle algum, na rede, e a infância vem sendo encurtada ao máximo. Os grandes programas infantis, como Sítio do pica pau amarelo, Balão mágico, Castelo Rá-Tim-Bum foram perdendo força porque há cada vez menos crianças no mundo. A sexualidade do Xou da Xuxa, recriminada por muitos, ainda vinha acompanhada da ideia de um programa infantil. Mas agora, isso não tem mais força. Os meninos querem e devem ser, o mais rápido possível, os pegadores. As meninas não têm mais a referência da princesinha, e sim da patricinha. Elas querem usar bolsas, batom, ver filmes mais adultos, sair com as amiguinhas para xópins e baladas o quanto antes. Boates infantis, blocos de carnaval infantis – com música adulta, em sua maioria!!! –, a todo o momento a infância é sepultada.

Não faço aqui críticas nem análises antropológicas e sociológicas, não tenho a intenção e nem capacidade para tal. Mas, aliado a esse processo todo, há, historicamente, um fogo desperto na descoberta da sexualidade e, desde sempre, casos famosos são relatados de relações sexuais entre pessoas mais velhas e mais novas, tanto quanto entre adolescentes e pré-adolescentes que vão se descobrindo e se relevando, uns aos outros, entre namoros, “ficações”, festinhas, banheiros e quintais. Entretanto, os pais fazem-se de desentendidos, porque todos já passaram pelas mesmas situações, usaram das mesmas artimanhas e desculpas para experimentar os prazeres da descoberta, mas fica aquele clima sonso, no ar. Parece que nossos filhos não trepam e não bebem, e por isso mesmo somos contra ações preventivas contra doenças, gravidez, drogas, ou sei lá o quê.

Nossa sociedade hipócrita não permite a legalização do aborto. Diversas religiões estúpidas condenam a camisinha e a pílula anticoncepcional. A falta de um esclarecimento sobre sexo entre as famílias, no colégio e nos meios de comunicação – que incentivam, como disse acima, muito mais uma exaltação da putaria que uma conscientização –, deixa os jovens perdidos entre a autodescoberta e a procura ávida pelos meios – muitas vezes escusos e despreparados – que possam suprir suas curiosidades e desejos.

Nada disso é condenado pela opinião pública de forma contundente. Não há uma preocupação de base com a formação de nossas crianças, cada vez mais desinformadas, ignorantes, limitadas intelectualmente, e, além de tudo isso, cada vez mais erotizadas pelo que as circunda.

Frente a tudo isso, descubro que foi polêmica a iniciativa de vacinar meninas entre 11 e 13 anos contra o HPV, que pode causar, dentre outros problemas, câncer no colo do útero.

A vida sexual de boa parte das meninas que eu conheço começa aos 14, 15, 16 anos. Basta ter a oportunidade, a pessoa, o namorado, a ocasião. Uma vacina é uma prevenção. Se, queira a sorte, fosse criada uma vacina contra o HIV, que pudesse ser aplicada em crianças de 1 ano de idade, isso não necessariamente seria um estímulo para que essas crianças começassem a fazer sexo com qualquer um, sem prevenção e de forma desenfreada, a partir dos 2 anos de idade.

A proteção e a prevenção são questões de saúde pública. No Brasil, aborto é um crime contra a vida até sua filha de 15 anos engravidar (acompanhado do “o que foi que eu fiz?”). Legalizar a maconha é um absurdo até seu filho de 16 anos sofrer baculejo da polícia, seu filho de 18 ser levado à delegacia por conta de um minúsculo baseado. Beijo gay é um acinte até descobrir que seu filho é um. A tal “opinião pública”, é geralmente aquela que pode condenar a vacinação, mas terá plano de saúde ou dinheiro, depois, para tratar do HPV de sua filha; enquanto os pobres que se lasquem, com sua promiscuidade descapitalizada (sim, porque pobre gostar de foder é promiscuidade).

Se vivêssemos numa sociedade intelectualmente preparada, nossos ataques seriam contra as interferências religiosas nas questões públicas. Estaríamos condenando os conteúdos das rádios e TVs. Protestaríamos contra os preconceitos de credo, cor e orientação sexual. E, acima de tudo, cobraríamos de nossos governantes municipais e estaduais um melhor ensino público fundamental e médio, com salários e planos de carreira dignos para os professores e uma grade curricular com formação mais humanista, trabalhando a interpretação de textos, a formação cultural, musical do aluno, atividades físicas regulares, um incentivo ao pensamento, à filosofia como parte da formação do indivíduo; algo que Platão já pensava em sua “república” ideal: música para a sensibilidade, ginástica para o corpo, filosofia para o intelecto.

Lembro de uma ação que aconteceu no Rio de Janeiro, década de 80, quando morei lá. Diversos pais de classe média tiraram seus filhos de colégios particulares, colocaram em colégios públicos, e passaram a cobrar, em conjunto, um melhor ensino e estrutura. Aquela lei que pensaram, de obrigar a família dos políticos a frequentar colégios e hospitais público seria uma razoável iniciativa, neste aspecto. Ao menos uma pequena parcela se preocuparia com a própria família e agiria em causa própria, pois acho que a maioria nem pra isso ia ligar, mandaria seus filhos para o exterior e pronto.

Nossos problemas começam nas pequenas estruturas. Na formação familiar. Na sala de aula. Na repartição pública com seus funcionários. A sociedade não anda porque as pessoas insistem em ocupar o lugar da esquerda, em escadas e esteiras rolantes, que é destinado a quem deseja andar e ir mais rápido. A sociedade não anda porque em diversas ruas onde cabem dois carros, as pessoas vão pelo meio da pista, causando um engarrafamento desnecessário. Nosso problema é de base e é, também, o micropoder, a microestrutura e o egoísmo, a péssima relação com o lugar e o bem público, a falta de educação que vem de berço.

Mas nada disso importa. O que importa é que o Ministério da Saúde, com a vacinação preventiva contra o HPV em meninas pré-adolescentes, está mandando um recado claro: vão foder despudorada, desenfreada e loucamente, a partir de agora: está tudo liberado.

Acorde com um barulho desses… Bill Bates Authentic Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Eli
Entendi seu raciocínio com a longa volta em vários assuntos sociais, mas discordo do seu julgamento quanto ao recado que o Ministério da Saúde está mandando: "vão foder despudorada, desenfreada e loucamente, a partir de agora: está tudo liberado". Eu sou portadora do tipo de HPV que pode desenvolver câncer, quando soube disso, com 30 anos de idade, fiquei chocada! Afinal, perdi minha virgindade com 18 anos e sempre usei camisinha! E sempre fui à ginecologista regularmente. Tive que ser submetida à uma cirurgia à laser (não coberta por um bom plano de saúde) e desde então gastei mais de 10 mil reais em cirurgia e medicamentos para sistema imunológico, fiquei pensando nas mulheres pobres que não têm acesso a um bom médico, diagnóstico e tratamento adequados, morrem de câncer com certeza. Fiquei super feliz em saber dessa vacinação, se eu tivesse uma filha com idade para recebê-la, não pensaria meia vez, pois a maior questão, falando diretamente do assunto, é que os homens não se cuidam tanto quanto as mulheres e são eles os grandes disseminadores do vírus. Pesquise mais sobre a doença, quando eu contraí, fui pesquisar e é muito assustador, o HPV é uma epidemia mundial!
 Ana Paula Mira
Pesquise melhor, a escolha por essa idade se dá exatamente pela resposta imunológica obtida nessa faixa etária. Trabalho em serviço público e sei o quanto custa essa vacina em clínicas particulares, meninas carentes não teriam como pagar, a doença alastra, essa é uma realidade. E é muito triste dá uma notícia de câncer a uma moça de 21 anos que iniciou sua vida sexual precocemente. Lutamos diariamente para orientá-las, mas nossa sociedade se perdeu, e saiba ainda que camisinha não evita o HPV por isso a importância da vacina.
 Leonnes
Esse texto tá vago, foge do tema, extremamente pessoal. Essa vacina é pensada para os próximos 5 anos. Não sei quem disse que conversar sexualidade, educar sexualmente é educar pro sexo. Nada disso. O diálogo se faz necessário sim: a família e a escola são os principais vetores. Chamar algumas religiões milenares de "ridículas" mostra a intolerância do autor - cito a maior instituição de caridade do mundo, A Igreja Católica como exemplo. Por fim, sou contra o aborto. Sou a favor de uma instituição ética que considere o Si e o Outro, ou seja o Eu, o Tu e o Ele, esse outro Eu no qual eu ainda não conheço, sem rosto. Um feto é um sujeito, uma pessoa, com história social, direitos e deveres garantidos antes de seu nascimento. Existem inúmeros métodos para se evitar gravidez.

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