Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

A vida e a vida de Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer perdeu muitas chances de morrer, em sua trajetória. Perdeu uma grande chance, quando aos 30 anos viu o Brasil passar por uma ditadura. Ele, comunista, vendo um presidente que flertou com o fascismo e entregou Olga, a mulher de Prestes, aos nazistas.

O grande arquiteto poderia ter morrido de alegria, aos 52 anos, ao ver Fidel Castro e Che Guevara implementando um sonho comunista na Revolução Cubana, ou morrido de emoção, em 1960, ao ver uma capital de um país ser erguida num deserto, projetada por ele e Lúcio Costa, num Brasil Bossa Nova que – com suas desigualdades, mesquinhez e subdesenvolvimento – não poderia durar muito tempo com seus amores, sorrisos e flores embalando o progresso.

Talvez por isso, em 1964, Oscar Niemeyer poderia ter morrido de profundo desgosto ao ver o país sofrer de novo um golpe e entrar numa ditadura mais brutal e duradoura. Em decorrência disso, várias chances de morte, vindas de um homem apaixonado, combativo e político em sua essência, poderiam ter acontecido. As torturas, exílios, assassinatos como o de Marighella e tantos outros que representavam um período de chumbo e sangue.

Provavelmente, Niemeyer resolveu não morrer durante a ditadura, pois, como poeta do traço, comunista utópico e visionário homem da vida, ele sabia que não há bem que sempre dure, não há mal que nunca se acabe. Assim, ele viu o Brasil voltar a ser livre e poder votar para presidente aos 82 anos de idade. Mas era pouco.

Oscar Niemeyer quis ver os latino-americanos assumirem o poder em seus países, quis ver um metalúrgico chegar ao poder, em 2002, em seu país, aos 95 anos. Quis construir belezas ao redor do mundo, ver o século XX, de conquistas e desgostos, passar. Um homem que viveu 104 anos, até agora, com certeza desagradou a muitos com seus traços e com sua ideologia, mas deixou, para tantos mais, a esperança, a utopia, a beleza e a poesia como metas na vida.

Eduardo Galeano disse: “é sabido que Oscar Niemeyer odeia o capitalismo e odeia o ângulo reto. contra o ângulo reto, que ofende o espaço, ele tem feito uma arquitetura leve como as nuvens, livre, sensual, que é muito parecida com a paisagem das montanhas do Rio de Janeiro – montanhas que parecem corpos de mulheres deitadas, desenhadas por Deus no dia em que deus achou que era Niemeyer”.

Oscar Niemeyer perdeu várias chances heroicas de morrer, em situações limites, durante 104 anos, mas, talvez, ele pense como Brecht e ache uma tristeza um povo precisar de heróis, mesmo quando ele chama de heróis alguns que muitos podem odiar; homem de contradições e traições suficientes para ser chamado de gênio.

Já era. Não se pode perder tantas chances assim na vida, seu Niemeyer. Agora, já era. Niemeyer perdeu a chance de morrer e, se por acaso, ele decidir se picar daqui, é a gente que vai morrer um pouquinho, nesse mundo cada dia mais sem graça e sem gênios.

 

(artigo originalmente publicado em novembro de 2012)

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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