Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

Alvorada Hipster da festa de Iemanjá gentrificada

2 de fevereiro de 2003: o CPM22, banda popular à época entre os jovens brasileiros, apresentava-se no último dia do Festival de Verão, muito longe do Rio Vermelho, mais exatamente no Parque de Exposições, à Avenida Paralela, e comentava a festa de Iemanjá. Naquele ano, como à exceção de apenas duas vezes entre as suas primeiras oito edições, o Festival de Verão acontecia sempre incluindo o dia 2 de fevereiro entre os dias de sua programação. Os ovos de ouro acabariam logo e o axé começava a degustar sua galinha: o sucesso nacional da música de carnaval de Salvador havia tornado desimportante a rua, o contato com a população das festas de largo que antecedem o carnaval e do próprio carnaval: os camarotes naquele momento já tinham tomado até as areias da Barra e as festas de largo eram desprezíveis uma vez que havia uma massa volumosa de público com pessoas de todo o país disposta a pagar ingressos em áreas fechadas para os shows das estrelas do axé.

O Festival de Verão é o mais emblemático fenômeno deste processo desde que os trios elétricos tinham sido banidos da Lavagem de Bomfim e as bandas de axé passaram a cobrar ingressos muito caros na festa que acontece ao lado da Contorno, na marina. Se havia dado certo no Bomfim, daria certo com a festa de Iemanjá, afinal a classe média da cidade vivia (e até hoje vive) a celebração progressiva da separação espacial como básica distinção de classe. A Festa do Rio Vermelho do início do século XXI rapidamente espelhou essa segregação: os moradores do bairro continuavam a manter a tradição das feijoadas em casa, nas colinas ao redor do largo de Santana, o que permitia aos convidados não irem até a praia, e a festa religiosa associada à festa de largo, cada vez mais esvaziada, era quase exclusivamente dos pobres que não haviam se tornado evangélicos. Estes, estavam também presentes, distribuindo panfletos onde se lia que Iemanjá era coisa do demônio.

Ao mesmo tempo o Rio Vermelho, na ressaca do sucesso meteórico do Pelourinho como aglomerado de bares e casas noturnas em meados dos anos 90, ainda não ocupava o lugar central que ocupa hoje para a vida boêmia da cidade. O público GLS (sim, na época a sopa de letrinhas ainda não existia) frequentava a Off Club, boite que dominou a cena noturna e fez a rua Dias d’Ávila na Barra passar a ser conhecida como beco do Off (fazendo dobradinha com o beco dos artistas no Garcia, com o Quixabeira nos Barris e com a reabertura do Zanzibar na ladeira da Misericórdia), consolidando um uso que permanece até hoje, ainda que muito enfraquecido, anos depois do fechamento da Off. Ao menos o público gay, tão responsável por estabelecer tendências, não frequentava a noite do Rio Vermelho no início do século XXI.

Sem dúvida alguma, a centralidade que o Rio Vermelho tem hoje na cena boêmia, e que havia sido enfraquecida entre 1995 e 2005, aproximadamente, deve-se sobretudo à abertura em 2006 da Boomerangue, casa noturna que ocupava o imóvel que hoje abriga a Boite San Sebastian. Com espaços generosos e palco para apresentações musicais, com uma programação que era tão diversificada como interessante, a Boomerangue foi capaz de rapidamente atrair para si a classe média universitária alternativa antes mesmo de esta assumir em Salvador o visual hipster. O perfil de casas e de público que o Rio Vermelho tem hoje deve-se em grande parte ao pioneirismo da Boomerangue, seguido de tantas outras casas.

Quando a Prefeitura de Salvador executou em 2015 a reforma que consagrou a nova cena boêmia do Rio Vermelho, quase única em toda a cidade, como o grande play ground dos hipsters / não cis-gêneros da cidade, há muito o perfil de uso do bairro já havia mudado: com a consolidação da noite da Pituba como a cena “dos integrados”, o espaço público do Rio Vermelho passou a ser a casa a céu aberto de uma rede aparentemente diversa, mas cada vez mais homogênea formada pelos bohemian bourgeoises (dentro do que isso é possível), gays, lésbicas e os novos identitários, e os ativistas universitários, nacionalmente reconhecidos como “progressistas”. Era a coroação da Vilamadalenização do Rio Vermelho. O Lalá era a nova igreja do bairro, e as diferenças entre o Lalá e a Boomerangue servem muito bem como evidência da mudança de perfil pela qual o público da noite do Rio Vermelho passou nesse processo de aproximadamente dez anos.

Este público é essencialmente millenial pós-hipster - os homens de barba volumosa, as mulheres com algo de hippie pendurado nos cabelos, os autoproclamados queers de barba e alguma coisa hippie pendurada do cabelo – , foi contra o impeachment de 2016 e é radicalmente contra os camarotes de carnaval (sim, são os filhos do desocupa salvador): defende que as ruas sejam ocupadas por eles, mas nunca conseguiram defender a intervenção de pedestrialização da Barra. Com a grande concentração por que o Rio Vermelho passou, e com o apelo alternativo do momento, essa e a mais ampla classe média paulatinamente voltou à festa do Rio Vermelho (o Festival de Verão já tinha adquirido autonomia e tampouco precisava mais retirar o público da festa de Iemanjá), ao ponto de nos últimos anos ter se consolidado um pré-Iemanjá na noite do dia 1 de fevereiro. Cada vez mais as casas incentivaram isto que passou a ter um caráter de “Virada Iemanjá” e de repente, o que era um impulso de retomada da festa popular, ameaça-a severamente.

Como em qualquer processo de gentrificação, e este aqui descrito é mais um deles, o motor do que atrai um público bem informado, alternativo, para uma área antes ameaçada de sobrevivência, neste caso um evento em determinada área que é a festa de largo do dia dois de fevereiro, acaba ameaçado pelo volume do afluxo de “interessados” na área, que chega a por em risco a sua existência no local. A alvorada de Iemanjá, que era o início da festa e que marcava a chegada do presente principal à colônia de pescadores, antes restrita aos iniciados no culto a Iemanjá e aos moradores do bairro, hoje é frequentada por dezenas de milhares de pessoas, acompanhadas do lixo da festa antecipada da noite anterior. A ressaca de qualquer fim de noite boêmio do Rio Vermelho atropelou o início da festa. A festa acaba agora antes de começar.

PS: A pedido de uma pessoa que se reconheceu na foto que anteriormente ilustrava este artigo, resolvi substitui-la. A foto anterior era a única foto bonita que eu tinha conseguido fazer, que ilustrava o que guardava algo do sentido da alvorada original, diferente daquilo que acontecia ao redor, um tanto assustador, e que está registrado nesta segunda foto que agora ilustra o artigo.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 juliana
Inclusive, sacadas, varandas etc... de bares, alternativos (por falta de outro termo) ou não, estão se configurando espacialmente como camarotes, acho bem provável que isso se intensifique nos próximos anos. Como bem gosta a classe média e elite. No dia primeiro não sabia se estava no RV ou no Leblon.

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