Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

Amor capaz de desestabilizar um país

Clara e Manuela são amigas de infância. Filhas de exiladas políticas, elas só retornam ao Brasil em 1984. Depois, as duas estudaram no mesmo colégio, no Rio de Janeiro.

Já adultas, Clara passa a trabalhar com cinema no Brasil, enquanto o desejo de voar de Parapente leva Manuela às montanhas do Equador. Ela começa a aprender espanhol e termina por ficar mais tempo do que havia imaginado no país. Manuela aprende espanhol, é contratada por uma Universidade e se interessa cada vez mais pela luta dos direitos humanos dos povos indígenas.

Manuela e Carlos Pérez, líder indígena, se conhecem e se apaixonam. Em certo ato contra o governo, reprimido com força pela polícia, Manuela é presa. Carlos e uma pequena multidão se aglomeram na tentativa de libertar Manuela. Ele segura um cartaz onde está escrito “Te amo, Manuela”. Carlos reitera em uma entrevista que “o grande pecado de Manuela é amar Carlos Pérez”. A paixão dos dois ganha contornos políticos desestabilizadores.

Vale dizer que o maior oponente do casal é Rafael Correa, legítimo representante da esquerda latino-americana que chegou ao poder no início dos anos 2000. O “correísmo” é inaugurado e, após sucessivas reeleições o presidente se une aos militares contra os direitos indígenas, num sistema extrativista e neo-liberal.

O amor de Carlos por Manuela comove os equatorianos até mesmo porque há um mito fundador do país, que passa pelo romance de Bolívar com sua amante, que se chamava…. Manuela! Para muitos, a esperança por dias melhores passa pela união do casal no presente.

A história retratada em “La Manuela” é notável, rara, com personagens de grande complexidade! E nós não ficaremos na superfície das reportagens de TV.  A amizade e cumplicidade entre a cineasta, Clara, e a personagem, Manuela, permite que a intimidade do casal venha à tona, no filme. É possível compreender a repercussão pública ao mesmo tempo em que os vemos se beijando ardorosamente em um pequeno elevador. Temos a intimidade de um casal que vive um amor improvável, capaz de mobilizar boa parte de um país.

Verdade que Manuela é um personagem complexo, de difícil definição. Ela é expansiva, apaixonada e bem articulada. Manuela sorri naturalmente, mesmo quando triste. Em alguns momentos, ela parece estar deslumbrada com a repentina fama. Em outros, ela fala com genuína propriedade sobre o processo político e econômico pelo qual passa não apenas o Equador, mas toda a America Latina.

Já Carlos é retraído. Ele fala bem, mas sempre de forma reservada. Ele é carinhoso e apaixonado! É linda a cena em que Carlos chega ao aeroporto do Rio e surpreende Manuela, que está nervosa à espera do amado. Manuela é consciente da elaboração do filme. Ela está à vontade diante da amiga e da câmera. Carlos, por sua vez, se contrai, parece não gostar daquele jogo.

As situações contraditórias se sucedem com a estadia de Carlos no Rio de Janeiro. É desconcertante ver o líder indígena, que viaja com uma mala pequena e poucas roupas, abrigado em um apartamento típico de uma família da elite carioca, que pertence à mãe da mãe de Manuela. Carlos e Manuela vêem de classes sociais distintas. Há um incômodo no fato, mas também boa dose de romantismo sobretudo pela teimosia e resistência dos dois em manter o relacionamento vivo, contra tudo e todos. Verdadeiros Romeu e Julieta, numa roupagem bastante singular.

Em contraposição à intensidade romântica de cerca de dois terços do filme, os momentos derradeiros são melancólicos. A separação que parecia provisória se torna constante e a tristeza consome o casal. A ligação pelo skype possui um delay irritante. Manuela quer definir as coisas, exige um posicionamento mais firme de um companheiro que mal consegue respirar, por não saber o que fazer.

“La Manuela” é um filme único, capaz de suscitar debates os mais variados e acalorados. Para mim, trata-se de uma das grandes descobertas desse Panorama.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

Todos os Artigos

Deixe o seu comentário


código captcha

Voltar

Cultura e Cidade

Amor capaz de desestabilizar um país

Cláudio Marques 10/11/2017

Clara e Manuela são amigas de infância. Filhas de exiladas políticas, elas só retornam ao Brasil em 1984. Depois, as duas estudaram no mesmo colégio, no Rio de Janeiro. Já adultas, Clara passa a...

Sobre Platão e Jorge Luis Borges

Gil Vicente Tavares 29/09/2017

Pouca gente sabe, mas o Shazam da música que meu pai fez com Antonio Carlos & Jocafi, com o qual aprendeu-se a sorrir, era o cão de meus pais. Platão, meu cão, sorriu por cerca de 15 anos ao...

O Brasil no escuro (II)

Ordep Serra 18/08/2016

Em artigo anterior eu falei que é preciso ser muito burro para acreditar na lenga- lenga de nossos governantes: acreditar que se dinamiza a economia cortando no orçamento verbas destinadas a...

chico science 50

James Martins 11/03/2016

[isso não passa de um post de facebook. mas como já sei que gil vicente ia reclamar, decidi postar aqui. dada a desimportância do texto, peço de antemão, perdão]: participei da transmissão do...

Assine nossa newsletter