Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Ao torturado autor mentado: direito, valor e fado

Em 2001, eu estava em Berlim, e caminhava em direção ao Berliner Ensemble para comprar ingressos para uma montagem do Ricardo II de Shakespeare, junto com um amigo tradutor. Em frente ao teatro, um banner imenso me chamou a atenção. Havia um nome alemão, no alto, uma imagem no meio e “Shakespeare” embaixo.

Pedi ao meu amigo para se informar do que se tratava aquilo. Ele veio com a resposta de que, naquela temporada, o Berliner Ensemble montaria X peças de Shakespeare traduzidas pelo tal nome no topo do banner.

As discussões recentes, sobre direitos do autor, sejam através do ECAD, sejam o direito de escrever sobre alguém, quaisquer que sejam, são reflexos da forma como os próprios artistas e o público tratam seus autores no país.

Enquanto na Alemanha até mesmo um tradutor merece destaque, aqui, no Brasil, os autores são considerados problemas em seus direitos, mendigos de atenção, de crédito em projetos gráficos e reconhecimento dos próprios parceiros de criação.

O autor é o alicerce de um trabalho, seja musical, seja teatral, seja cinematográfico. Ser alicerce não significa ser mais importante, mas fundamental e, na maioria absoluta das vezes, base estética e ética de um trabalho.

Contudo, é comum percebermos como o autor é esquecido.

Na música, onde tanto se reclama do descumprimento da lei que deveria dar crédito aos compositores brasileiros nas canções executadas na rádio, percebemos o quanto os autores são excluídos de contracapas de CDs, de citações em apresentações, de agradecimentos. Há uma relação que se inverteu há tempos.

Antigamente, um bom compositor era assediado, respeitado e sua opinião era fundamental. Hoje em dia, se seu nome não estiver na moda, o compositor pena mostrando suas músicas e está tudo bem se o intérprete não vai gostar. Agora, experimente, um compositor, dizer que não gostou da gravação? Vira um ingrato! Parece um favor ter sido gravado, e parece, o autor, se tornar desagradável por criticar algo, ou querer até mesmo simples convites – sim, convites! – para ver executada sua música.

Os próprios artistas não entendem que estão executando a obra de outrem, e que não só uma deferência como uma questão de direitos está em jogo. É comum que, nalgum xou que um intérprete vá fazer, ele peça a liberação dos direitos do compositor. Nesta apresentação, os músicos ganharão, o intérprete ganhará, o produtor vai pagar e ficar com o seu, mas o(s) compositor(es) deve(m) liberar seus direitos para que não seja pago ao ECAD os 5% que, em tese, retornarão a ele.

Compositor só é bom até a segunda página. Depois, passa a ser um estorvo, algo oneroso (sim, pagar direitos de execução e utilização parece não ser um direito, mas uma extorsão para muitos), sua opinião pouco importa e melhor seria que ele morresse. Ao menos até que novas composições fossem precisas. Aí, ele ressucistaria e voltaria a ser maravilhoso, tratado a pão de ló para abastecer com obras de arte o balaio do intérprete.

No teatro, é bem parecido, ou até pior. Lembro de situações que eu, como autor, passei, ao longo da carreira, e que demonstram o quanto a frase “dramaturgo bom é dramaturgo morto” é verdadeira por parte dos artistas.

Lembro da estreia de Cidade baixa, no Teatro Castro Alves. Além de eu não ter tido acesso ao roteiro final, e ficar totalmente por fora das filmagens, ao serem chamados artistas e técnicos para subir ao palco, os roteiristas ficaram de fora do convite. Recordo uma produtora argentina residente na Bahia que ficou soprando, perto de mim: “e os roteiristas, os roteiristas?”.

Recentemente, fui convidado a escrever um texto, Alugo minha língua, e, na estreia, o mesmo. Não fui lembrado e nem convidado a subir no palco, assim como não fui lembrado nem convidado a assistir sequer um ensaio; outra prática comum no teatro (ao menos em Salvador). Esses fatos, como batalhar o nome no programa, no cartaz, panfletos, etc., demonstram que aos artistas interessa apenas que sua peça, composição, roteiro seja entregue e depois: adeus. Nesse momento em que escrevo este artigo, por exemplo, outra peça minha, Destinatário desconhecido, está sendo ensaiada e jamais fui, nem provavelmente irei a um ensaio, e minha opinião e minhas ideias sobre o texto e a encenação só serão ouvidas depois da estreia. Do mesmo modo, como foi em Alugo minha língua, não há consulta alguma ao autor das letras sobre sua apreciação das melodias feitas sobre elas. Se eu ouvi, se eu gostei, pouco importa. Sou assassinado antes do primeiro dia de ensaio e ressuscitado na estreia, com uma leve sensação de uma ressureição indesejada.

Ora, seja numa gravação de uma canção, seja na montagem de uma peça ou filmagem de um roteiro, o alicerce daquilo – a canção, a peça, o roteiro – foi feito por alguém que teve uma inspiração, fantasiou imagens, sensações, ideias, cores, texturas, entonações, ritmos. Nada melhor seria – penso eu e pouquíssimos aqui e muitíssimos mundo afora – que o autor pudesse estar presente, omitir sua opinião, contribuir no entendimento, tradução, transposição e recriação de sua obra.

Falo em recriação porque o chamado “textocentrismo” também não deve existir. À visão do autor deve-se somar a do diretor, a do ator, do cenógrafo, do cantor, do arranjador, do iluminador, enfim, o processo de criação final de uma obra de arte passa por diversos criadores e é de sua soma, equação, harmonia, que resulta uma peça, uma canção, um filme. Contudo, o contrário também é desonesto: retirar do autor seu papel fundamental no processo de uma obra.

Outro problema são os direitos do autor. Não foram poucas as vezes em que tive que negociar os direitos autorais de uma peça. Difícil lembrar quando e por quanto tempo recebi os 10% do bruto que são convencionais para o autor. Já tive cachês ridículos para criação de uma peça com a promessa de compensação na porcentagem da bilheteria. Então, bastava a peça estrear para começarem as negociações, as queixas sobre a manutenção da peça, e o autor, que até ali tinha sido alijado, passava a ser parceiro, amigo e irmão da produção. Somente em negociações sobre direito autoral eu me sentia parte do espetáculo; de resto, eu era inexistente e desinteressante. Resultado: abaixa pra 8%, pra 6%… Ao menos nunca me cobraram para que minha peça fosse executada, pelo menos…

Não foram poucas as vezes, também, que tive que batalhar pelo meu nome. No espetáculo Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia, no qual, nós autores, passamos pelo constrangimento de sermos expostos ao elenco como os responsáveis pela pouca grana de bilheteria dele, pois ganhávamos os exorbitantes 10% divididos por três, era recorrente vermos peças gráficas sem nossos nomes, outdoors, etc.; e para a peça ficar em cartaz e todos satisfeitos, diversas vezes tivemos que nos contentar com os 8%, 6%…

A peça estreou sem meu Tavares em todo material, por exemplo. Como se fôssemos ler um livro de Luis Fernando ou João Guimarães, a letra de um Paulo César ou a peça de Jean Paul. Esse meu Tavares ficou ausente seguidas vezes, em composições, peças, e, por mais estranho que seja, não lembro de ninguém me consultando sobre como deveria ser a creditação, ou algum tipo de negociação sobre aparição do nome, por exemplo. Afinal, eu era um autor, e estava morto. Só seria ressuscitado em caso de negociação de porcentagem de bilheteria ou ECAD.

Pode até parecer, mas não guardo rancor de nenhum desses episódios. Eles estão inseridos numa realidade de um país analfabeto funcional e eu sou só mais um. Em todas as esferas, o autor é um estorvo, depois que sua obra foi ou está sendo usada. Exigir direitos, receber pelo uso de sua obra, ter seu valor reconhecido, nada disso conta. Na imprensa, sempre foram recorrentes certos elogios ao espetáculo, ao intérprete, que, no fundo, eram elogios ao texto da peça, às letras e/ou melodias, às situações e tramas de um roteiro. Contudo, o cantor, o ator, o diretor não só levam os créditos como ainda caem, muitas vezes, na tentação de assumir para si os méritos que não são seus. Está tudo bem, pois essa é a regra. Está tudo bem?

A criação de um grande país passa pela cabeça de seus criadores, passa pelo valor simbólico, intelectual, poético, científico das cabeças que gestam os alicerces da identidade, cultura e educação de uma nação.

Infelizmente, numa época em que a celebridade e a celeridade reinam, o autor será sempre atormentado e torturado pela obra que ele criou. Fato e fado?

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Pedro da Rocha
Esse desleixo com a autoria é frutos de povo que nao cultua a memória; e nao a cultua porque nao aprendeu a cultuar a si próprio.
 Luciano Aguiar
Ao ver esse escanteamento do autor no Brasil, sobre o qual você, Gil, discorreu tão bem, penso no cenário decadente de apreciação da arte. Talvez comece aí o problema, na origem. Se atores, intérpretes, produtores, diretores não demonstram entender quão sagrado é cada aspecto da criação, dentre estes o da autoralidade, que esperam de seus espectadores, ouvintes etc, senão o mesmo desrespeito? Me parece lógico que esse tipo de atitude mesquinha com relação ao autor só coloca a arte na posição de morta-fome. Obrigado por desentalar esse grito.
 Fernando de Oliveira
Correto, digno, preciso... tantos justos adjetivos podem ser aplicados ao seu texto, querido Gil Vicente Tavares! Você lavou nossas almas.

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