Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

Aqui podia morar gente

Uma das casas abandonadas pertencentes à empresária Luciana Rique

O Centro Histórico de Salvador amanheceu com dezenas de casas pintadas com a frase “Aqui Podia Morar Gente”. Todos os imóveis que foram marcados estão abandonados. Alguns, há décadas.

Trata-se de um protesto de moradores da região que estão cansados de ouvir as autoridades (em nível federal, estadual e municipal) falarem de forma leviana sobre a revitalização do Centro Histórico sem que nenhuma política concreta seja discutida e colocada em prática. Não existe planejamento para essa região, que é preciosa, verdadeira jóia rara. Poucas cidades do mundo contam com um Centro Histórico tão belo e extenso. Aqui, temos uma mistura privilegiada de famílias baianas que vivem há décadas, com estrangeiros que se apaixonaram por Salvador, além de artistas (baianos ou não), que elegeram o Santo Antônio, Pelourinho e arredores para residir e criar.

O Centro Histórico de Salvador possui cerca de mil e quinhentos sobrados, apartamentos e salas comerciais vazios, segundo estudo do Escritório de Referência do Centro Antigo. Isso, mesmo: mil e quinhentos. A placa de “Vende-se” está por todos os lados, mas são raros os negócios concretizados. O que vigora por aqui é uma especulação paralisante, que condena o bairro à desertificação e à degradação.

História recente que ilustra de forma irretocável o descaso com que a mais importante região da cidade vem sendo tratada, é a que envolve Luciana Rique. Famosa por ser herdeira do Grupo Iguatemi, ela comandou a compra de trinta e quatro sobrados (chegou-se a mencionar quarenta sobrados, em entrevistas e matérias) no Santo Antônio, anos atrás. A empresária falava em atrair investidores e construir uma espécie de shopping a céu aberto. Mas, ela desistiu do projeto e as casas estão abandonadas. Sem manutenção alguma, os imóveis acumulam lixo, atraem bichos e colocam em risco as casas vizinhas. Existe o risco de desabamento, em algumas delas.

A ação promovida por Luciana Rique provocou forte impacto econômico e social no bairro. São centenas de pessoas a menos para comprar o pão na padaria, frutas na mercearia ou mesmo freqüentar os salões de beleza do bairro. No mínimo, são trinta e quatro famílias a menos nas ruas, que se tornaram mais perigosas.

Lamentavelmente, os poderes públicos nada fizeram para reverter a situação da região.

Após sete anos no poder e faltando pouco menos de um ano para a Copa do Mundo, o governo do estado mandou pintar as fachadas das casas no Centro Histórico, inclusive as abandonadas, com uma tinta acrílica que é inadequada à materialidade histórica do lugar. Lembro, aqui, que estamos em região de preservação, tombado por lei. Trata-se de Patrimônio Mundial da Humanidade, titulo conferido pela UNESCO. Usar esse tipo de tinta se equivale a trocar as telhas de cerâmica por telha metálica, por exemplo.

O governo mandou pintar as “cascas”, para maquiar a degradação, o abandono, durante grande evento.

O estado e a prefeitura possuem meios legais para exigir a manutenção ou mesmo desapropriar os imóveis abandonados.

Mas, em primeiro lugar, deve-se conversar com os moradores para que as soluções não sejam tomadas de forma autoritária. O Centro Histórico guarda marcas profundas da intervenção “arrasa-quarteirão” (nas palavras do saudoso sóciologo Gey Espinheira), promovida por ACM, o avô. No início dos anos 90, moradores foram expulsos de suas casas. No lugar, foram implantadas lojas sem nenhuma relação com a história do lugar. Aos poucos, o comércio foi minguando e a região tornou-se mais e mais deserta. Com o passar dos anos os problemas se tornaram ainda mais agudos.

Todos sabem: a resposta para a revitalização está nas pessoas, na moradia. Existe uma procura gigantesca por casas e apartamentos para alugar, sobretudo, no Santo Antonio, mas não há oferta. É preciso que uma política seja estabelecida, com metas e prazos, para que as milhares de salas e casas vazias se transformem em residências para estudantes, artistas, estrangeiros e quem mais quiser. O Centro Histórico precisa estar repleto de pessoas que cuidem da região, no dia a dia.

A moradia é necessária, ainda, para que a arquitetura especial dessa região seja preservada. Não devemos tolerar reformas a qualquer custo, sem cuidado.

“Aqui Podia Morar Gente” é o nosso primeiro grito pela moradia no Centro Histórico.

 

PS: Leiam artigo de Dimitri Ganzelevitch sobre o mesmo tema no jornal A Tarde (22/03/2014) ou no blog http://dimitriganzelevitch.blogspot.com.br/2014/03/virei-pichador-sim-senhor.html

PS1: Agradeço à Marília Hughes e Márcio Correia Campos pelas observações ao presente texto. Peter Holland Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Ana Amélia Sousa
Olá Cláudio. Me chamo Ana Amélia e quero fazer um artigo sobre urbanização e meio ambiente, cidades e direito à moradia para uma matéria que curso na UFBA. Na hora da proposta, não tive como não lembrar dessa manifestação super criativa dos moradores do centro histórico. Queria conversar com alguém que estivesse por dentro desse movimento sobre isso. Segue meu email para esclarecimentos e maiores informações. Achei muito boa essa maneira de protestar e queria escrever sobre isso. Desde já grata, Ana Amélia.
 Habitar em Salvador: entre a arquitetura e espaço público | Teatro NU
[...] mais recentemente consolidada, surge no positivamente gentrificado Santo Antônio e teve na ação Aqui Podia Morar Gente seu mais conhecido e desafiador embate: diante de um sem números de imóveis vazios, cujo plano [...]
 EDGARD NAVARRO
EU ADORARIA MORAR NAQUELA ÁREA SE ELA, POR ALGUMA EXTRAORDINÁRIA VIA, VIESSE A SE TORNAR UM LUGAR APRAZÍVEL E ENCANTADOR, MARAVILHOSO! POTENCIAL PRA ISSO O LUGAR TEM. ADORARIA VER ALI GENTE PRODUTIVA, FELIZ, BICICLETEIRA, TUDO RESTAURADO, CUIDADO, GENTE LIGADA NA PRESERVAÇÃO DA VIDA, DO AMBIENTE, AMANTES DA CIDADE. NÃO SEI NADA SOBRE COMO ISSO PODERIA ACONTECER OU SOBRE O QUE HÁ NAS GAVETAS DAS REPARTIÇÕES DE GOVERNOS MUNICIPAIS E ESTADUAIS QUE SE SUCEDEM... GOSTARIA DE TER UMA VIZINHANÇA AMIGA, AMÁVEL, CIDADÃ. IMAGINE TODO MUNDO VIVENDO A VIDA EM PAZ... SAUDADE DO FUTURO QUE AINDA NÃO CHEGOU. VOCÊ PODERÁ DIZER QUE SOU UM SONHADOR, BUT I'M NOT THE ONLY ONE...

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