Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

Argo ou a desilusão hipster

A cultura hipster é tão transparente (que) está sendo vendida a nós de volta em comerciais de fast food. É hora de jogar fora todas as nossas roupas e começar de novo.

Tennis, no twiter, em 15 de maio de 2013

 

Não faz muito tempo que assisti a Argo, o suspense dirigido por Ben Affleck que ganhou o Oscar de melhor filme em fevereiro deste ano. Havia tentado logo após a premiação, mas o ar condicionado defeituoso da sala do cinema na universidade me fez desistir naquele momento. Mesmo passado este tempo, tive a sorte de assistir ao filme sem ter visto um trailer sequer e sem muita informação além de uma vaga descrição do enredo. A única cena de Argo que eu havia visto foi exatamente a cena final do filme, o momento quando Michele Obama, à frente de pessoas com uniformes militares em uma sala na Casa Branca, na noite de 24 de fevereiro abriu o envelope e o mundo inteiro sabia que o único título que ela poderia anunciar ali era Argo.

Quando finalmente assisti ao filme como ele foi apresentado nos cinemas, surpreendi-me diante de um exercício obsessivo de perfeição formal e técnica, como se o diretor tivesse estado a cada instante de sua realização preocupado prioritariamente em demonstrar o quanto ele aprendeu corretamente das grandes clássicos do gênero as noções de ritmo, edição, fotografia, enquadramento e narrativa. Além disso, a auto-referência à indústria cinematográfica (que eu também desconhecia e que é tão importante para o filme) e a extrema coolness hipster dos personagens ilhados na embaixada canadense, com seus óculos, cortes de cabelos, bigodes, barbas e batons extremamente contemporâneos, de grande apelo sentimental, foram igualmente surpreendentes.

O apelo sentimental e de identidade que a caracterização dos personagens do filme evoca é duplamente nostálgico, de cunhos estéticos e políticos. Textos publicados nas revistas europeias e norte-americanas sobre cultura, em especial a cultura popular, dificilmente têm conseguido deixar de utilizar a palavra nostalgia para caracterizar a sensibilidade contemporânea. Pós-moderno talvez seja o termo a ocupar o segundo lugar entre os mais recorrentes nas críticas e comentários sobre moda, música ou artes nos últimos anos. E muito provavelmente nostalgia e pós-moderno estejam sendo usados para tentar expressar o mesmo fenômeno que vem marcando a produção recente.

Partindo da compreensão histórica mais ampla da dicotomia entre moderno e pós-moderno sedimentada no campo da arquitetura (onde, aliás, a noção de pós-moderno se delineou muito cedo), este fenômeno na produção cultural mais recente indicaria que o pêndulo entre moderno e pós-moderno teria completado um movimento inteiro nas últimas duas décadas, indo de um polo a outro; e estaria à beira de iniciar outro movimento.

Explico-me: se a fé no projeto moderno de civilização e cultura entra em crise com a Segunda Guerra Mundial, como nos ensinaram os filósofos dos anos 60 do século passado, a pós-modernidade parecia ter se esgotado a finais dos anos 80: em arquitetura especialmente, o aparente embate entre o historicismo norte-americano e o deconstrutivismo fechavam um ciclo de discursos sobre a forma, muita teoria e empréstimos de conceitos filosóficos, pluralismo, multiplicidades narrativas. Do rock à new wave, dos hippies aos yuppies, da pop art à street art, os 20 anos entre meados dos anos 60 e finais dos anos 80 experimentaram a ascensão e declínio do potencial crítico de uma cultura de base popular, histórica e plural.

A queda do muro de Berlim em 1989 fez o pêndulo balançar novamente para o lado do moderno: a globalização fornecia de novo a chance de uma grande narrativa e de sua crítica, a arquitetura indistinta dos aeroportos e lojas de subúrbio ganhou o nome de supermodernismo e houve quem falasse mesmo de uma segunda época moderna, assim como também eram tipicamente modernistas as aspirações programáticas e “anti-formais” de Kazuyo Sejima e Lacaton&Vassal, dois dos grandes nomes surgidos naquele momento. A promessa libertária e democrática contida no horizonte de disseminação da internet representou uma nova fé na tecnologia, a arte voltou a se arriscar a ser política, e performática, e o tecno, universal e abstrato, foi a música daquela década.

Os protestos de Seattle em 1999, o ataque terrorista às Torres do World Trade Center e o lançamento de Is This it, do Strokes, ambos em 2001 marcam a nova mudança no pêndulo, em direção a uma sensibilidade novamente pós-moderna. Acompanhando a grande crítica à globalização, as guitarras dos Strokes anunciavam os traços nostálgicos que nos anos seguintes seriam cada vez mais explicitados na cultura popular através de uma apropriação ampla de sinais do passado como “alternativa e resistência”. Hipsters ideologicamente anti-consumo transformaram-se no símbolo da última década.

Como cultura jovem, a música, disseminada por internet e também por isso cada vez mais ao vivo, e em especial a música produzida nos Estados Unidos forneceu a trilha sonora nostálgica para a geração que combinou símbolos do início dos anos 80 com outros dos anos 60 – óculos ray-ban, as barbas longas, batons vermelhos e camisas listradas, bigodes, chapéus, suspensórios, às vezes combinados de uma maneira a parecer mesmo fotografias de dândis de cem anos atrás. A banda mais-que-hipster The Daredevil Christopher Wright tem inclusive uma canção intitulada My attempts to grow a beard. Se o primeiro disco dos Strokes ainda deixava no seu ouvinte a noção rarefeita de referências dos anos 60, cada vez mais a música parecia tentar dar continuidade aos anos 60 como se ainda fosse 1969 e ninguém quisesse que o ano de 1970 chegasse.

Enquanto o folk de bandas como Two Gallants retomou com poucas inserções contemporâneas algumas sonoridades deixadas de lado nos anos 70, a neo-vanguanda weird de Devendra Banhardt tentava fazer renascer o espírito de contra cultura da música mais radical de Caetano Veloso entre finais dos 60 e início dos anos 70. Isso sem falar no sucesso mainstream de Amy Winehouse, com música e corte de cabelo que passavam por cima os anos 90, 80 e 70 para se conectar mais uma vez diretamente com os anos 60. E muito já se discutiu sobre as relações ente Lady Gaga e Madonna.

E como as comunas artísticas têm suas restrições em uma época de sexo não tão livre como há 40 anos, a experiência do casal que lidera a banda Tennis de navegar sozinhos durante alguns meses pela costa norte-americana e ali compor um disco cujo tema das canções claramente nostálgicas é o próprio navegar, talvez seja bem sintomática do escapismo que não deixa de compor esta nostalgia generalizada. A precisão com que eles tocaram o pulso do momento pode ser vista na maneira como a sua ambiência sonora aparece, por exemplo, no último álbum de The Best Coast. Sem necessariamente ser escapista, no Brasil, de algum modo, a música de Los Hermanos e a retomada do samba poderiam muito bem ser compreendidos a partir desta melancólica vontade de passado.

E se a música jovem, sem o apoio dos milhões que a indústria fonográfica fazia circular até a virada do milênio esteve em condições de captar o pulsar da geração que Ocupou Wall Street, as formas de arte mais próximas aos investimentos nas bolsas acabou por revelar o outro lado que compõe as invitáveis contradições de uma época como esta: Jeff Koons e Damien Hirst reativaram o imaginário e as estratégias de divulgação da pop art e do surrealismo, incluindo as vendas de papeis em branco apenas assinados, agora pelo twitter, evidenciando como perfeição técnica formal e esvaziamento de conteúdo podem também constituir um caminho para a nostalgia. Sintomática sem dúvida foi a recente polêmica entre Hockney e Hisrt, sobre a arte em tempos de produção em série.

E se o “novo pós-moderno” na produção de arquitetura pode ser saudado por Denise Scott-Brown através da exaltação de escritórios como FAT ou Velorose e se Andrés Jacque, o nome mais interessante surgido na Espanha, de alguma maneira retoma a poética arquitetônica dos Smithsons, por outro lado, o formalismo vazio das grandes obras de Hadid ou Gehry, apenas para citar dois dos nomes mais famosos, ao lado da estética desnorteada dos desnecessários arranha-céus no Oriente Médio, acentua o mal-estar da face essencialmente formalista desta cultura.

Enquanto no campo da produção artística explorar tais contradições e canalizar as diversas nostalgias que representam o mal-estar contemporâneo guarda a chance de tornar a experiência social mais rica e menos hegemônica, e servir de expressão crítica, em política o apelo nostálgico parece ser invariavelmente conservador, acabando por sufocar o vigor crítico das expressões da cultura popular. É por esta ótica que podem ser vistos os governos dos dois países mais importantes das Américas, que tiveram como mote a compensação simbólica de tensões sociais de décadas anteriores, revelando-se ao mesmo tempo incapazes de abrir perspectivas propositivas para a sociedade a partir da ebulição social do presente, sendo a discussão em torno da igualdade dos direitos civis para a população LGBT ou as tensões ambientais de todas as ordens os melhores exemplos tanto no norte como no sul.

Efetivamente, a maior novidade política deste período no continente, o chavismo venezuelano, tem sua construção ideológica massivamente ancorada no duplo apelo nostálgico sintetizado na expressão socialismo bolivariano: nem o cultivo das lutas pela independência de Espanha, nem o da revolução cubana, parecem ter, passados todos estes anos, garantido que a população venezuelana tenha acesso a coisas tão simples como papel higiênico.

Argo, o filme, está a serviço exatamente da cultura política calcada neste tipo de satisfação simbólica de um passado a ser idealizado. Se lembrarmos dos minutos iniciais do filme, quando um mini-documentário nos informa do contexto político da época em que se passa a história, é difícil não constatar com certa melancolia que Argo cumpre a terrível tarefa de por a estética de Michael Moore e Costa Gavras inteiramente a serviço do establishment. Argo parece representar o fechar das portas do beco sem saída de toda esta cultura crítica contemporânea, em um momento que pode ser entendido como um paralelo àquele da conclusão da sede do AT&T por Philip Johnson.

Ainda que esteja terminando este texto no dia em que o Blockupy literalmente bloqueou o centro financeiro de Frankfurt, a insatisfação e o mal-estar da banda Tennis registrado no início deste artigo têm seus fundamentos. O último disco do Strokes é um fantasma dele mesmo; a música assumidamente retrô, calcada na sonoridade do banjo, da banda Mumford and Sons ganha Grammys e domina todas as rádios; Devendra se mudou da Califórnia e agora mora em Nova Iorque; diz-se que a barba de Ben Affleck foi retirada no dia seguinte à cerimônia do Oscar. Parece mesmo ser a hora de começar tudo de novo.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

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