Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

As caravanas que passam e o Chico que se eterniza

Jornais e sites do país ficaram recheados de notícias sobre o lançamento do disco Caravanas, de Chico Buarque. A análise de Hugo Sukman, que veio oficialmente, através da assessoria, desvelar citações, livrou-nos de perscrutar sua criação pelo lado intelectual. Há canções bonitas, histórias de amor, de futebol, a pérola A moça do sonho, etc.

No entanto, o novo disco de Chico me tocou especialmente por duas canções que, por motivos distintos, valem pelo disco todo.

No que tange aos afetos, Chico Buarque virou avô. Não o Francisco Buarque de Hollanda, já de tempos cheio de netos, mas o Chico compositor. Na canção Massarandupió, melodia de seu neto e seu xará, a infância deste na praia: “lembrar a meninice é como ir cavucando de sol a sol” a areia, e “devia o tempo de criança ir se arrastando até escoar, pó a pó, num relógio de areia o areal de Massarandupió”.

Depois de ouvir a canção umas quatro vezes sem conseguir conter o choro, minhas vistas se clarearam às imagens simples e sensíveis, de um avô pensando a infância do seu neto, aquele tempo de criança que todos nós lembramos. Para aqueles que viveram suas férias à beira de praia ou rio, passar o dia a cavucar a areia, a se banhar, apenas com pausas para comer, ou chupar um picolé, ou tomar água de côco, traz uma lembrança de um tempo dilatado, que nunca queríamos que acabasse.

Aquela relação com a praia, tão íntima a qualquer criança, representando “ali onde a perna bambeia, ali onde não há caminho”, lugar que poderíamos passar toda nossa vida no mesmo cavucar, no mesmo banho de mar, é tratada por Chico com tanta delicadeza, e fica ainda mais lindo ver que é uma declaração ao seu neto. Chico poderia fazer parcerias com qualquer gigante da melodia brasileira. Bastava ele estalar o dedo e centenas de melodias incríveis chegariam em suas mãos. Mas ele parece ser movido pelo afeto, como quando ele disse que tinha em suas mãos várias melodias que Jobim deixou pra ele, mas que ele não via sentido em botar letra sem o maestro soberano ao seu lado para ouvi-las.

“Ó mãe, pergunte ao pai quando ele vai soltar a minha mão. Onde é que o chão acaba e precipita toda a arrebentação”. Sim, é seu neto com Carlinhos Brown, entrando na água, querendo saber quando ele vai poder nadar sozinho. Mas é também a simbologia do momento onde acaba a meninice, acaba o “sol a sol” sem compromisso, “ali onde ninguém espia”, ali “num mundaréu de areia à beira-mar de Massarandupió”, e seu neto vai precisar enfrentar sozinho a arrebentação da vida. Chico Buarque bem queria, como toda criança, que “o tempo de criança se arrastasse”, mas a gente cresce e faz música, e parceria com o avô, e aprende a cantar como Clara, sua outra neta.

Chico também podia fazer seu Dueto com Maria Bethânia, com Beyoncé, com qualquer grande cantora do mundo, mas foi o afeto que o moveu a gravar com a neta. Chico virou avô, e isso é delicadamente mostrado nas duas faixas que se seguem de forma singela e profunda. Ele não deve mais nada a ninguém, porque, há anos, já havia criado uma obra de dimensão amazônica, e talvez seja esse novo Chico vovô o que de afeto se constrói, em meio a tantas canções de amor de seu disco, como um lugar especial em Caravanas.

E as caravanas chegam, ao final do disco, de forma avassaladora. Chico dá um depoimento sobre sua canção As caravanas, dizendo que não queria que seu disco fosse de crônicas, mas achou “bom terminar com um testemunho dos tempos que a gente tá vivendo”. Sem nenhuma canção assim em seu último disco, Chico, o hiato de 11 anos da canção Subúrbio de seu disco Carioca fez falta suficiente para que nenhuma canção de Chico (a despeito da bela valsa Nina) fosse marcante e causasse algum tipo de discussão. Ele parecia estar querendo fugir do papel que tantos insistem que ele assuma, com seu lado político, a despeito de uma obra cuja potência incrível se basta; podendo ser sempre rememorada em momentos atuais.

Mas Chico não tinha falado do problema migratório. Não tinha falado da invasão dos espaços e lugares “nobres” pelo “populacho”. Seu guri, seus marginais estavam sempre, como diz o nome, à margem. Estavam no subúrbio onde “tem Jesus, e está de costas”. Postos de escanteio, como chagas, máculas, vermes da civilização, estavam em praça pública apenas para que jogássemos pedra ou bosta.

“Mas esses estranhos suburbanos tipo muçulmanos” querem estar na Europa ou no Jardim de Alah. Assim como os sem-teto, os sem-terra, os índios, todas as minorias sociais que vinham sendo alijadas e escanteadas, querem agora assumir um protagonismo. Para desespero da “gente ordeira e virtuosa que apela pra polícia”. São os homens de bem, bem-sucedidos, sucessores, na história, dos bens, das posses, das corrupções, do escravagismo entranhado em nossa sociedade onde há os ricos que ali estão porque exploraram os demais. E esse populacho não têm direitos, deve ser despachado “pra favela, pra Benguela ou pra Guiné”.

“Tem que bater, tem que matar”. Tem que prender e deixar “essa zoeira dentro na prisão, crioulos empilhados no porão”. O “dia de real grandeza”, de nobreza cor azul turquesa. Azul dos turcos, não, mas o azul do mar da nobreza que manda no Rio. Ou no Brasil; e no mundo.

O sol que tantos responsabilizam pelo nosso atraso, esse calor dos trópicos que derrete qualquer raciocínio, esse sol culpado da nossa tragédia ilumina violentamente a imagem dessa canção que vem se impor de forma soberana, na canção brasileira, como de longe o que melhor se fez em termos de canção política, ou de protesto, ou social, nos últimos anos.

Chico faz Arte. Chico, em tempos de discurso direto, raso, óbvio e pronto, é irônico, é poético, e ao mesmo tempo incisivo, agressivo.

O sol que se pôs, depois nasceu e nada aconteceu ao personagem de Caetano Veloso, na canção Perdeu, bate agora na moleira dessas caravanas. A canção de Caetano, não tão festejada e meio esquecida, meio que preencheu, no últimos anos, a falta de uma crônica poética e contundente de nosso país. Esses pretos que “no som, no sonho somem” de nossa realidade, mortos todos os dias lá “nas bordas da favela”, desceram pra Zona Sul, com Chico, e passaram a existir com seus “calções disformes”, “picas enormes”, “torsos negros nus” deixando “em polvorosa a gente ordeira e virtuosa”.

As caravanas é uma canção que serve de farol, de referência imediata para quem quer fazer canção no país. É preciso aprender e apreender com essa sua canção. O nível geral do repertório brasileiro é sofrível, rasteiro, ingênuo ou óbvio demais. A descrença em melodias, letras, arranjos rebuscados cai por terra quando ouvimos em As caravanas o que de melhor, em termos de música atual, retratou uma parte escrota de nosso país e nosso mundo. Chico acorda com essa canção para nos mostrar caminhos possíveis da canção em pleno século XXI.

O disco foi lançado um dia antes de eu fazer 40 anos. Dizem que a vida começa aos 40, e a minha começou reparando nessas duas canções de Chico, como um alerta para que eu aprenda com o tempo, para que eu me debruce sobre o passado e o presente de forma delicada e arguta, para que eu me dedique a fazer melhor, mais belo e mais contundentemente tudo que passarei a fazer, a partir de agora, porque Chico ainda passa com sua caravana, enquanto os outros ladram, espumam, enfeiam a possibilidade de um país melhor. Um país que poderia ser como as canções de Francisco Buarque de Hollanda.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Mauro Aguiar
Bravíssimo, Gil! Você, assim como Chico, me inspira. Grande texto. Obrigado!
 Robherval Santos
Muito bom, Gil! Parabéns!!! Compartilhando...
 Rogério Costa
Gostei muito de seu texto. Principalmente quando você cita Caetano com sua Perdeu.

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