Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

As eleições e o Nordeste

O Nordeste sempre foi a referência do Brasil, quando se falava em miséria. Região explorada pela indústria da seca, de um lado, e pelos latifúndios, do outro. Região comandada por oligarquias e coronéis, ainda sob a sombra das capitanias hereditárias, explorando mão de obra e mantendo sob seu cabresto a condução das políticas, suas escolhas e decisões ilusórias.

Sempre ouvi, desde pequeno, da boca dos principais pensadores desse país, que enquanto não resolvêssemos o problema da miséria e da fome, que o Brasil não poderia ir pra frente. O grande Celso Furtado, nesse caminho, por exemplo, criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste em 1959 (abafada pela ditadura militar, que queria aumentar o bolo pra repartir), sete anos depois de ter sido criado o Banco do Nordeste do Brasil, iniciativas que tentavam corrigir um erro histórico de políticas e coronelismos no país.

Durante muito tempo, o Nordeste sustentou os grupos políticos que subjugavam sua população, locupletando-se do erário e mantendo a miséria, gerando inclusive a expressão “Indústria da seca”, popularizada como referência ao eterno problema que parecia insolúvel da miséria, da fome e da falta de água no semiárido brasileiro.

Os recentes ataques aos nordestinos são completamente compreensíveis. Vêm de regiões com formação migratória distinta, em sua maioria, regiões mais industrializadas, mais desenvolvidas historicamente, e, curiosamente (será mesmo só curioso?) de estados onde os índices de neonazistas crescem mais a cada dia. A mesma intolerância de certos europeus com os imigrantes que vêm emporcalhar sua rua, roubar seu emprego e abarrotar seus subúrbios, existe aqui no Brasil com o nordestino. Ele – eu, nós – que é a vítima da desigualdade histórica desse país, acaba virando algoz.

Falei da ascensão neonazista porque Adolf Hitler, na Alemanha, já havia usado o antissemitismo de forma parecida; e ele não foi o primeiro e nem será o último. A humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes fez a população alemã se ancorar na ideia nazista de que a grande chaga da Alemanha era o judeu, e a população afundou-se numa das maiores tragédias da humanidade, ao embarcar nas loucuras do “pintor de paredes”, como dizia Brecht.

A diferença, em relação ao Brasil, é que os alemães estavam na miséria, com a autoestima no chão, e a psicologia de massas do fascismo, como bem estudou Reich, caiu como uma luva no momento histórico da Alemanha.

No Brasil, os recentes ataques aos nordestinos vêm de pessoas bem sucedidas, que viajam ao exterior, possuem carros, smartphones, comem e vestem-se bem. Há um ódio contra as políticas sociais que desumaniza esse tipo de brasileiro a ponto de, ao invés de todos comemorarem o fato inédito e glorioso de termos saído do mapa da fome da ONU, as pessoas acharem que sustentam vagabundos, que esses miseráveis só querem ter mais filhos para ganhar mais bolsas, que essas desgraças foram as culpadas pela reeleição de Dilma Roussef, com discursos de ódio, de separatismo, de preconceito brutal.

Em momento algum, a direita, a oposição, o PSDB, ou os que apostam nesses, pensaram em fazer um mea-culpa e parar pra analisar que a derrota das oligarquias e de certos partidos no Nordeste provavelmente deve-se ao fato destes não terem feito nada – ou muito pouco – por essa região do país. A cegueira odiosa não os faz enxergar que a chaga histórica da miséria e da fome nunca foram devidamente tratadas por outros governos e, por isso, os milhões que puderam comer três vezes ao dia e ter um pouco de dignidade estão retribuindo, com seu voto, a primeira grande ação continuada e eficiente do país no combate à desigualdade e aos erros históricos de um Brasil que ainda insiste no modelo “Casa Grande e Senzala”.

Nós, nordestinos, estamos menos famélicos. Conseguimos ter mais acesso a médicos, mesmo os cubanos, que têm sido elogiados pelo New York Times e o Deutsche Welle, dentre outros, por suas atuações na África, no combate ao vírus ebola, mas que parte dominante da imprensa e dos formadores de opinião da grande mídia consideram incompetentes. Estamos tendo mais acesso aos recursos do Ministério da Cultura. Estamos tendo mais universidades federais sendo construídas, mais escolas técnicas, mais bolsas não só para sair da miséria, mas para ingressar em pesquisas, em estudos universitários, em mestrados, doutorados e pós-doutorados, aqui e em outros países.

Com isso, acreditem, o Nordeste mudou sua maneira de votar. O cabresto do coronel não manda mais em nosso voto como antigamente. E dizer que um governo, que tira milhões de uma miséria histórica que nunca havia sido resolvida, é o novo “coronel” dessa região, é não ter noção política e humana. Um povo que come, estuda e se sente mais livre, é um povo diferente: “mais fortes são os poderes do povo”.

Você pode ser antipetista, ser democrata, reacionário, comunista, pode ter votado em Eduardo Jorge, Luciana Genro, Marina, Dilma ou Aécio, e vou te respeitar: ninguém é o dono da verdade e compreendo muitas vezes as críticas de todos os lados. Mas ignorar a melhoria da grande chaga desse país e culpar os “desinformados” nordestinos pela eleição democrática de uma pessoa, é, de tal modo, segregacionista, preconceituoso, desumano e estúpido, que a única expressão que uma pessoa dessa merece, de forma debochada, tranquila e orgulhosa é:

Oxente! Ryan Johansen Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Pedro Gomes
Para nossa tristeza,após a redução do coronelismo, volta com toda força grupos de ultra-direta,compostas de pessoas com ideologias neo-nazistas e fascistas,com a clara intenção de estagnar o crescimento do nosso País.
 Maria D'Ajuda S Ferreira
Eita texto inteligente, lavei a alma, partilhei com muito orgulho.
 ulisses
Simplesmente formidável, Parabéns!!

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