Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

As redes sociais e a vitória da TV

Tenho conhecido muita coisa graças às redes sociais. De um site de política a um de humor, de vídeos documentários a apresentações musicais históricas, as redes sociais tornaram-se uma pequena enciclopédia viva, onde, além de tudo, podemos dialogar com amigos, compartilhar ideias, elogios, e comentar, gerar uma fortuna crítica efêmera sobre o mundo ao redor.

No entanto, numa rápida passagem pela página inicial do facebook, podemos perceber que a grande maioria das postagens está diretamente relacionada ao que está passando ou passou na TV; notadamente, na Rede Globo. Novela, The voice, UFC, Faustão, o facebook tornou-se um repositório de achados e perdidos do que passa na TV, uma espécie de anúncio espontâneo, irradiação imediata e propaganda (falem mal, mas falem de mim) do nosso grande meio de comunicação.

Com pavor patológico de chegar aos 5.000 amigos, vou mantendo na rédea curta os aceites do livro de rostos. Tenho 3.887, atualmente, muitos dos quais adicionados logo que entrei nesse troço e achava que era bacana aceitar qualquer um, desconhecido ou não. Já tinha em mente usar a ferramenta para divulgar o site e meus trabalhos, e quando descobri o limite, travei.

O fato é que a maioria absoluta das postagens é falando de televisão e eu não tenho quase audiência nenhuma, assim como diversos que enriquecem com suas postagens e ideias, mais do que eu, a rede. O que concluímos, disso? Que as pessoas passam muito tempo nas redes sociais antes, durante (principalmente!) e após a TV.

A diversidade da internet, que era um mundo, através das redes sociais foi filtrada pelo bom gosto de amigos e conhecidos que brindam-nos com seus links, pensamentos e compartilhamentos. O facebook, por exemplo, virou um local onde sempre visito em busca de algo para rir de forma inteligente, ler de forma atenta, ver de forma estimulante.

Contudo, um fato me entristece e outro me assusta.

Fico triste ao ver que existem milhares de pessoas irradiando coisas da TV que, elas mesmo, analisam pejorativamente – na maioria das vezes –, enquanto diversas manifestações culturais que estão ali, à sua “mão”, são ignoradas e negligenciadas. Boa parte de meus amigos são artistas ou entusiastas das artes, e são recorrentes as divulgações de espetáculos musicais, de teatro, de dança, exposições, concertos, e tudo isso passa ao largo dos comentários, postagens e diálogos das redes sociais.

A pessoa não precisa nem mais acessar um site, abrir um jornal, ligar pra um disque-informação. A cada segundo pululam divulgações mis, dos mais variados valores e estilos. E enquanto isso, “na sala de preguiça”, as pessoas sofregamente comentam a TV, criticam a TV, elogiam a TV e narram a TV. E não venham me falar que o excesso de informação gera ruído, não, porque quando é do interesse de todos, qualquer postagem vira um sucesso instantâneo.

Essas mesmas pessoas têm belos discursos sobre nossa pobreza cultural, sobre nossas políticas equivocadas, sobre a falta de produções interessantes. Mas digitam isso em suas casas, enquanto veem TV, e não aproveitam programação alguma oferecida por seus próprios amigos na página principal da rede social que elas acessam.

O fato que me assusta, para além da tristeza, é a falta de discernimento crítico e busca de informações e opiniões várias, associados a um imediatismo que é perturbador. Tudo isso, de certa forma, ainda uma cultura que nos remete à TV.

A Rede Globo diz que Roberto Carlos é o rei. Ponto final. Ele é o rei. Não precisa balizamento de nenhum conhecedor, o que aliás é outro problema atual; o conhecedor, quanto mais culto, preparado e embasado for, mais torna-se um arrogante equivocado. A opinião da massa é suprema; a voz do povo é a voz de deus (e a voz do povo é, geralmente, eco da TV). A Rede Globo diz que o Mensalão foi o maior caso de corrupção do país. Se foi ou não foi, pouco importa. Se a Globo disse, eu repito, é verdade.

Na internet isso piorou. As pessoas compartilham qualquer manchete sensacionalista sem nem ler, muitas vezes, e sem nem cotejá-la com outras fontes. Na hegemonia da TV, tudo bem, é até aceitável, por mais preocupante que seja essa lobotomia. Mas na internet podemos, em tempo real, ter opiniões, informações e críticas que possam ajudar-nos a criar nossa própria opinião que não é a do editorial do Jornal Nacional ou da capa da Revista Veja.

Enquanto muitos veem o sucesso das redes sociais como o sucesso das redes sociais, fico aqui, do meu canto, percebendo que elas deixam transparecer socialmente diversos problemas do Brasil.

Erros de português, pensamento reacionário e preconceituoso, desinteresse cultural, prostração televisiva, superficialidade de opiniões, alarmismo irresponsável e radicalismo obtuso. Tudo isso passeia por nossas notícias alimentadas por alguns dos nossos “amigos” das redes sociais.

Depois de um recente ocorrido aqui no site da gente, prefiro concluir meu texto de forma óbvia para não correr riscos de leituras radicais. Não sou contra a TV e acho, até, que ela tem seus méritos. Apenas não gosto dela e acho que muitos vivem dela e com ela, e esquecem da programação cultural de sua cidade, esquecem livros, esquecem de viver outra vida de forma mais viva. Também não sou contra as redes sociais. Apenas acho que poderia ser uma ferramenta de guerrilha cultural bem mais intensa e interessante.

Enfim, essa poderosa presença da TV em nossas vidas é assustadora, pra mim. Um veículo cheio de méritos não pode, também, ser onipresente desse jeito; penso eu. A distribuição de informação da rede, mesmo filtrada pela rede social, não ampliou o acesso das pessoas. Quase ninguém foi mais ao teatro porque o amigo postou (e/ou gostou). Quase ninguém ampliou sua visão política porque diversas opiniões contrárias serviram de base para uma visão crítica dos fatos. Quase ninguém deixou de acreditar numa única fonte de informação, nem tampouco deixou de ser alarmista, superficial e precipitado. Quase ninguém aproveita, de fato, uma ferramenta que poderia mudar o padrão hegemônico de gostos e fazeres.

A esperança que tive, ao entrar nas redes sociais, de que meus textos e de meus amigos, meus espetáculos e de meus amigos, meus compartilhamentos e os de meus amigos, fossem difundidos de forma ampliada, fraquejou.

A TV, nesta partida, está ganhando de lavada. É, ainda e sempre, a vitória da televisão. Brian Dawkins Authentic Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Gil Vicente Tavares
Bianca, como te disse, eu e os colunistas daqui vimos discutindo diversas paisagens desse cenário desolador. Mas entendo sua observação perfeitamente ao se deparar com o texto isoladamente. Espero que tenhamos conquistado uma leitora de qualidade, e, aí, quem sabe, você poderá ver nossas várias paisagens, janelas e basculantes no site. feliz 2014!
 Bianca
Muito bom, Gil. Alunos que são obrigatoriamente avaliados por sua rotina cultural, criamos plateia do inicio ao fim da idade escolar - 5 aos 16 anos- faculdades que explorem a mesma didática_ 16 aos 20 anos_ temos ou não mais possibilidades de um país que divide suas atenções com outras áreas culturais? Empresas e mídia investindo em cultura e em quem não está na vitrine da Globo, criamos ou não outras possibilidades? O governo pode exercer seu poder para isso, e nós temos que dizer bem claramente o que queremos, precisamos saber antes disso. Eu acho seu texto de ótima qualidade, mas equivocado porque não critica a paisagem ( o que acabei de falar) só a janela( as redes sociais e internet ,que só espelham a nossa situação cultural) No demais, acho muito bom que você também faça esses questionamentos no seu espaço em outros textos, é por aí mesmo, mas acho que temos que ir mais longe, aglutinar pessoas e cobrar projetos de leis de alguns representantes políticos influentes. Não vai adiante sem isso, não. Caso conheça algum movimento nesse sentido, creio que será o primeiro a postar aqui, para conhecermos todos, para que se possa participar... Abraço!
 Gil Vicente Tavares
Bianca, fazemos isso desde 2006, quando lançamos o teatronu.blogspot.com. Portanto, sete anos, já, questionando de diversas formas as políticas para a cultura e a educação.

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