Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

BahIbsen, o Deus da carnificina e o Diabo do teatro

Assisti, recentemente, ao filme Deus da carnificina, peça de sucesso de Yasmina Reza, que foi levada ao cinema por Roman Polanski. Fui embalado por uma proposta, ainda embrionária, e por saber, entusiasmado, que o filme estava mobilizando o público soteropolitano no Circuito Sala de Arte.

Prometi-me não falar sobre o filme, mas a situação toda me inspirou a escrever um texto que, há tempos, venho ruminando entre debates e palestras, e que me faz retornar à velha questão de se pensar o teatro profissional em Salvador.Por diversas vezes, fiz a provocação: imaginemos que, numa situação hipotética (e, obviamente, absurda e ditatorial e tudo de óbvio que se possa pensar sobre ela) todos os ditos profissionais do teatro em Salvador fossem obrigados – sim, é uma provocação, não uma realidade, aviso repetido – a montar somente as peças de Henrik Ibsen a partir de Casa de bonecas, de 1879, em diante.

Nessa situação hipotética, os artistas criadores da cidade seriam limitados a montar textos como O pato selvagemHedda GablerUm inimigo do povoQuando despertarmos de entre os mortos e por aí vai.

Ibsen é considerado um dos maiores dramaturgos da humanidade. Foi um revolucionário a seu tempo e há radicais como George Steiner que chegam a dizer que a revolução feita por ele, juntamente com Anton Tchekhov e August Strindberg, é ainda mais importante e significativa que todo o rebuliço das vanguardas e modismos que rechearam o século XX.

Não vou entrar nessa polêmica e me restrinjo, apenas, a pontuar sua qualidade dramática e sua estrutura sólida de personagens, situações, conflitos e ações. Tudo é muito bem desenhado, a despeito do caráter épico que Rosenfeld e Szondi apontam, por exemplo, na remissão constante ao passado como detonador e mote dos seus conflitos. Para além disso, ou daquilo, sua construção do diálogo e da cena é primoroso e discute, ainda atualíssimos – quanto mais numa província careta e atrasada como a nossa – problemas sociais da grande burguesia e classe média, esse imenso número que vem crescendo a passos largos com as atuais e desastrosas linhas de crédito, as bolsas isso e aquilo, mas também um desenvolvimento econômico e social, por outro lado, inegável.

Contudo, em terras tupiniquins à margem da Baía de Todos os Santos, Ibsen é considerado um conservador, um realista, um anátema para os gênios criativos que entopem a cidade: Ildásio Tavares já dizia que na Bahia há muito gênio para pouca lâmpada… O mesmo Ildásio, num poema seminal seu, Madrigal do século XX, falava das “vanguardas que, uma a uma, terminaram mostrando que eram retaguardas disfarçadas – queriam mudar a linguagem, mas não o ser humano”.

Deus da carnificina está tendo uma boa carreira nas telas por quê? Antes de tudo, ela é uma peça filmada. O diretor, tirando as desnecessárias cenas final e inicial, concentrou toda a peça no apartamento e hall do elevador, câmera próxima e diálogo, muito diálogo, situações expostas através do diálogo e conflitos, humores, dramas e sofrimentos a partir da contracena, de uma situação resumida a um apartamento. Se o filme é bom, ou ruim, não vem ao caso. O que importa, disso tudo, é que – não bastasse tudo que o cinema pode proporcionar com sua poderosa estrutura e dinheiro – o teatro está perdendo para o teatro. Como?

Antes de tudo, precisamos saber o que queremos, e dizer para que e para quem queremos dizer isso. Para que o teatro aconteça só precisa que tenhamos um ator e um espectador. Portanto, esquecer um dos dois é não concretizar em sua essência a necessidade primordial do teatro. O público quer ver uma boa história e bem contada. Esse é o puro e simples segredo do bom teatro. Como ela vai ser contada, de trás pra frente, em pedaços, gritada ou muda, nua ou luxuosamente vestida, se rasgando ou se contorcendo, não importa: contanto que ela seja uma boa história e bem contada.

O artista de teatro, desde a faculdade, é estimulado a experimentar e ser criativo. Eu mesmo e vários colegas passamos por isso; viajamos, experimentamos, e sempre há aquele momento onde, repetindo coisas ultrapassadíssimas e obsoletas, pensamos estar renovando e revolucionando  a cena teatral da  cidade, até que – passado esse momento necessário, produtivo e ingênuo – nos apercebemos, ou deveríamos nos aperceber, que somos profissionais como qualquer um, e que devemos nos preocupar com o que dizer e como dizer, além de, necessariamente, para quem dizer.

Premiações, imprensa e editais costumam, seguidamente, coroar “novidades” e “inovações” da cena local, mas, ao fazermos um retrospecto, e buscarmos onde estão diversos laureados, incentivados, patrocinados e incensados, não sobra muita gente. Há um processo autofágico na produção teatral soteropolitana que inviabiliza, seguidamente, a possibilidade de um teatro profissional, de uma formação de plateia, de uma realidade de sobrevivência digna e honesta, sem subempregos e bicos por fora, para o artista cênico.

Quando faço a provocação de uma obrigatoriedade de se montar Ibsen, o Ibsen mais realista e o já com traços simbolistas do fim da vida, é justamente para que voltemos a treinar e experimentar não maluquices, invencionices e pirotecnias, mas, sim, que voltemos a treinar e experimentar contar bem uma boa história.

A experiência de se montar um Ibsen, com tudo que ela exige de técnica teatral, de um se debruçar sobre o texto, sobre a concepção do cenário, sobre a criação da luz, dos adereços, sobre os conflitos, complexidades, reviravoltas e profundidade dos personagens, tudo isso, além de ser um treino e um desafio aos criativos e revolucionários gênios de plantão, seria, acima de tudo, a possibilidade de dar ao público o que ele quer ver: uma boa história. Se seria bem contada? Aí está o desafio, aí está, também, a possibilidade de se revelar mais claramente as deficiências, fraquezas e superficialidade de muitos que se escondem atrás de uma confortável marginalidade e experimentalismo onde tudo é perdoado, onde tudo está em processo, é pesquisa, é uma proposta nova que os idiotas – sim, os artistas acabam chamando o público comum de idiota nessas horas – não têm profundidade para compreender e absorver.

Paremos de achar que fazemos algo que o público comum não tem capacidade, pobre tolo, de compreender. Uma grande obra de arte pode sensibilizar um camponês e um bancário, um sapateiro e um industrial. Claro que do outro lado vivemos uma barbárie onde a estupidez vem tomando conta, mas não sejamos, do lado de cá, culpados pela outra metade da falha na comunicação que o teatro precisa com o público que o alimenta.

Deus da carnificina encheu salas de cinema porque as pessoas estão atrás de boas histórias bem contadas. No cinema, elas se sentem seguras de ter isso em alguma medida, ao menos arriscam pagar seu ingresso para assistir a uma obra artística e ver se gostam ou não.

E nós, do teatro, podemos assegurar que nos preocupamos em contar bem uma boa história para o público que vai nos ver? Por que será que o público tem sumido das salas de teatro? Falta de política cultural? Sim. Falta de educação e cultura da população? Sim. Contudo, nossa parcela de culpa é imensa nisso tudo. Nós também afastamos o público. O engenheiro químico que chama sua esposa, diretora executiva de um banco, para ir ao “teatro baiano” e se depara com algo tosco, amador, com uma história ruim e mal contada, não volta mais aos nossos espetáculos, não dará outro voto de confiança. A gente afasta nosso público, também, e prejudica uma ideia de profissionalismo que é o que, no fundo, todos deveríamos pensar numa carreira artística.

Montar diversas peças de Ibsen durante um ano, se esforçando por bem contá-las, seria um bom exercício inicial para a gente de teatro. Um ano sem fazer teatro pra si mesmo e para seus pares e cúmplices, álibis e clã, pensando, de forma mais profissional, no público – sem chama-lo de burro e sem fazer o fácil e raso que eles já têm na TV e nos cinemas de entretenimento – não faria nada mal ao depauperado “teatro baiano”.

 

(artigo originalmente publicado em julho de 2012)

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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