Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Carta aberta à Secult-BA e à Funceb

Caros,

Venho, através deste email, oficializar algumas críticas que, sistematicamente, venho fazendo à atual gestão, seus caminhos e escolhas.

Recentemente, pude, de maneira informal, ter um almoço com Nehle Franke e outro com Maria Marighella, onde repeti as críticas que expus nos sites para os quais eu escrevo, e onde pude ouvir o outro lado da história.

No primeiro almoço, com Nehle, soube da criação do setorial de teatro e, da forma como ela me apresentou, pareceu-me uma boa solução ao pretenso engessamento dos editais da gestão passada. No entanto, após ver os critérios de avaliação dos projetos e o decorrente resultado, fiquei bastante assustado com o panorama do teatro para Salvador.

Continuo a acreditar no poder da Arte. Insisto que a Arte transforma. Quando uso a letra maiúscula, é para distingui-la do que muitos fazem sem ter em vista a Arte como excelência, propósito, realização e transformação através da subjetividade, da poesia, do sonho. É-nos tolhido, cada vez mais, o poder de sonhar. Tudo já vem pronto e tabelado, até o alternativo assumiu ares de indústria, foi padronizado, e a única saída para a arte é tentar ser um nicho de excelência, um escape da realidade, um alívio no concreto armado da vida e um sossego à brutalidade. Acredito, ademais, que a Arte não pode levantar bandeiras, defender ideologias nem dar respostas: para isso já existem os meios de comunicação, as redes sociais, as mesas de bar e as tribunas. A arte é justamente o lugar onde, como diz Tom Zé, confunde-se para esclarecer, onde pergunta-se para confundir, onde contestam-se valores sem que, preferivelmente, outro sejam fundamentados.Cada vez mais acredito no poder dessa Arte. Quando se faz Arte, naturalmente o HUMANO está presente, e as profundezas do mundo exterior e interior estão sendo expostas, reviradas, questionadas, abaladas, reforçadas, destruídas ou solidificadas. A verdadeira Arte, seja comédia, drama, contemporânea ou tradicional, seja em que redoma ou grade queiram aprisioná-la – pois questiono, em pleno século XXI, que haja distinções entre as diversas formas de manifestação teatral; ainda acho que existe a boa e a ruim, somente –, enfim, penso que a verdadeira Arte, quando bem pensada, criada e realizada, é um ato político, social e filosófico inigualável de transformação.

Tudo isso para repetir algo que disse no segundo dos almoços informais, dessa vez com Maria Marighella, e que se relaciona diretamente com as escolhas do setorial de teatro e os critérios de avaliação.

Se, por um lado, os editais da gestão passada engessavam a criação em moldes de montagem, circulação, manutenção, etc, por outro, sabíamos que haveria X espetáculos que estreariam, X que circulariam, X grupos que seriam mantidos parcialmente em suas atividades.

Com esse setorial de teatro, atividades formativas, festivais, várias ações significativas, relevantes e fundamentais foram contempladas, mas a produção artística, destinada a fazer Arte, simples e complexamente, foi preterida e excluída de forma significativa, chegando ao ponto de praticamente nenhuma montagem de artistas relevantes e com história na cidade (me excluindo, inclusive, dessa lista) ter sido aprovada.

A tendência do PT em fazer assistencialismo através da arte, mesmo que de forma disfarçada, impele comissões, junto aos critérios, a aprovar projetos que estimulem a diversidade cultural, que estejam em consonância com as políticas estaduais de cultura, que tenham relevância no contexto sociocultural de sua realização (não sei que diabos, realmente, é isso), enfim, há uma forma disfarçadamente tendenciosa de excluir o artista que quer simples e complexamente montar um Tchekhov, por exemplo. E aí, volto ao que falei acima, insistindo num autor que é inquestionável aos que eu respeito e seguidamente cito como exemplo, justamente pelo seu valor maior. Uma grande montagem de Tchekhov, com grandes atores, grande cenário, figurino, direção, pode ter um impacto social e cultural, simbólico e subjetivo, formativo e estimulante, transformador e revolucionário, muito maiores que diversos projetos de oficina, debate, montagens de cunho educativo e projetos de inclusão, democratização e resgate, etc., questões que geralmente funcionam mais no papel – guardada as devidas e honrosas exceções – do que na prática; com resultados pífios, frouxos, de pouco alcance e significância.

Contudo, não fosse tudo que já disse, o artista, a arte pela arte – que julgo, assim, muito mais Arte e muito mais por e para todos em sua função poética no mundo – sempre obteve e obtém suporte do estado, em todas as culturas e tempos, a despeito dos mecenas que, com a estupidez atual, se escondem, os poucos, em leis de incentivo e/ou ações muito mais de “responsabilidade social” ou mero entretenimento.

Sei, mais do que ninguém, da ausência da prefeitura, da inoperância do Minc, sei que tudo não pode recair nas costas do Estado – aqui enquanto Bahia e seu governo -, sei dos compromissos assumidos com sindicatos, movimentos, ideologias, etc., que para mim soam abjetos; visto que se é um governo para todos, não deveria haver tendências ou direcionamentos, e sim um pensamento macro de sociedade onde todos fossem tidos como iguais e em igualdade de condições, oportunidades e significância. A política assistencialista pressupõe uma diferença entre minorias (que são muitas vezes maiorias) e as maiorias (que são, na verdade, um só: e assim deveria ser, sem distinção de cor, credo, orientação sexual e afins).

Contudo, sabendo disso tudo, acho que a Secretaria de Cultura e a Fundação Cultural do Estado da Bahia deviam reservar um espaço para que a Arte respire e viva. Não há ninguém estúpido suficiente, espero eu, para ler nas linhas e entrelinhas do que escrevo aqui algum elitismo de minha parte. Se há algum pensamento elitista, há no sentido de se fortalecer e reconhecer uma elite meritocrática. Como diria Ariane Mnouchkine, ”a arte não é democrática. A trupe deve ser democrática, mas a arte é injusta. Um ator é melhor do que outro. Dizer o contrário seria mentir”.

Por tudo isso, peço para que minhas questões sejam consideradas à luz de uma reflexão e esclarecimento no que tange às políticas culturais recentemente implementadas pela Secult. Não advogo em causa própria. Considero, inclusive, que se fossem destinados a mim um milhão de reais por ano para minhas produções, manutenção e circulação, o problema do teatro em Salvador não seria resolvido, o que é óbvio, mas é bom reforçar aqui por conta do provincianismo de alguns que podem ler nas minhas palavras o chororô do que não foi contemplado, e só por isso reclama. Uma andorinha só não faz verão. É preciso uma efervescência teatral, com grandes espetáculos acontecendo na cidade, de forma continuada, diversidade de estilos, estéticas e propostas, muitas vezes até melhores do que as minhas; ciente que sou da possibilidade sempre recorrente de propostas mais interessantes me deixarem, momentaneamente, de fora do jogo.

Mas não é isso que acontece. Enquanto artistas ficam sem possibilidade de produção, uma seca acontece nos palcos soteropolitanos. Esporadicamente vemos algo, de relativa significância, colorir o cinza criativo de propostas cênicas que estimulem o público a ir ao teatro ver um mínimo de qualidade, consistência, significância e contundência, enfim, ver Arte.

Esse email-carta não é nada mais do que o pedido de um artista para que possamos fazer arte sem que dirigismos, assistencialismos, proselitismos e quaisquer ismos que aprisionem a arte sejam determinantes na possibilidade de criação teatral. Os meios para isso, com certeza, não são os atuais com seus critérios: e isso me deixa deveras preocupado.

sem mais,

Gil Vicente Tavares
Diretor artístico do Teatro NU, artista e doutor em artes cênicas.

(artigo originalmente publicado em outubro de 2012)

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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