Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Carta aberta de um buraco

Nosso site não costuma publicar texto de terceiros, mas resolvi abrir uma exceção pelo caráter inusitado dessa carta que estava hoje na minha caixa de correio, e que agora copio para vocês:

“Salvador, 19 de novembro de 2013

Olá. Eu sou um buraco. Resido na Rua Padre Domingos de Brito, mas é algo temporário. Daqui a um tempo, e isso pode durar semanas, meses ou anos, irei para outra rua, mas sempre estarei por aí. Há uma noção de preservação de nossa espécie que é muito bonita, ecológica. Os sucessivos governantes ficarão eternamente fazendo arremedos no asfalto para que não sejamos extintos.

Assim será sempre a política em nossa cidade. Jamais haverá uma verdadeira ação que, a médio e longo prazo, possa ser eficiente e efetiva. Seja na educação, na saúde, na cultura, ficaremos sempre tapando buracos. Toma-se medidas emergenciais, a população anima-se com esse tapa-buraco e assim seguem eleições e reeleições.

Numa cidade que elegeu um prefeito porque este proibiu cobrança de estacionamento em xópim e horário de verão, e depois o reelegeu porque este reformou a Avenida Centenário, tudo é possível.

A cultura está com problema? Faz-se um festival aqui, outro acolá, colocamos apresentações de graça pra população, todos adoram porque baiano gosta de se dar bem, quebra-se a possibilidade de um mercado local, gasta-se os tubos com a contratação de gente de fora e os artistas? Ficam calados pra ver se mamam, também. Mais um buraco que se tapa pra ser aberto mais ali na frente.

Dá-se um trocado pra uns artistas aqui, um agrado pra outros ali adiante, cria-se grandes eventos, acaricia-se o ego de alguns formadores de opinião, e não discute-se uma real política para as artes na cidade. E vamos tapando buracos.

Coloca-se cones para andarmos de bicicleta no centro da cidade, mas gastam-se milhões para fazer corredores exclusivos para ônibus.

Não temos praças de convivência, diversos xópins são construídos por aí sem sequer um teatro, que poderia ser obrigatório por lei, mas inaugura-se um espaço cultural qualquer e todos festejam, tecem loas nas redes sociais. Não temos iluminação e calçadas devidas, mas aplaudimos o meio-fio pintado.

Enfim, eu sou um buraco e queria muito agradecer aos sucessivos prefeitos e vereadores dessa cidade, mas, acima de tudo, agradecer à população da cidade.

Você é um povo que ama ver um buraco sendo tapado. Se seu clube perde dez partidas, mas depois goleia algum time do sul, todos vestem sua camisa, buzinam pelas ruas e batem no peito com orgulho, gritando o nome de seu clube. Se não há segurança e transporte para gozar das programações da cidade ao longo do ano, mas vê um carnaval com milhões de policiais e linhas especiais de ônibus, você aplaude. Se os músicos da cidade não têm onde tocar o ano inteiro, mas acontece um xou a céu aberto, todos se sentem valorizados.

Sou um buraco, aqui na Rua Padre Domingos de Brito, e estou distribuindo essa carta para todos os moradores da região. Infelizmente, não sei por quanto tempo serei o responsável pelos inúmeros carros que são estragados ao passar por mim, nem tampouco pelos estrondos no meio da madrugada quando algum ônibus ou caminhão encontra-se com minha estrutura invisível. Resolvi vir para um bairro como o Garcia por ser um bairro onde um buraco pode residir com mais tranquilidade, mas, se algum dia, resolverem me tapar, não se preocupem, facilmente vocês me acharão por aí, logo depois de algum elogio sobre a cidade, e antes da próxima crítica inútil que farão sobre tudo aqui.

O que importa, somente, é tapar buracos. Para os políticos e para vocês. E, enquanto assim for, não me preocuparei jamais com a extinção da minha espécie.”

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Gabi
Perfeito!

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