Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Carta aberta sobre cultura ao governador eleito Rui Costa

Caro Rui Costa,

Parabéns pela sua eleição. Não votei no senhor por divergências que agora devem tornar-se convergências. Qualquer que fosse o resultado da eleição, meu interesse é o bem da Bahia, então iria dialogar, torcer o propor o melhor ao candidato eleito.

Estamos a pouco mais de um mês do seu mandato e é hora de começar a pensar na Secretaria de Cultura pelos próximos quatro anos. Em tempos de exaltação do ódio, onde vejo pessoas torcendo pelo pior do país, do estado ou da cidade por discordar do grupo político eleito, algo abjeto e vergonhoso, pra mim, prefiro o diálogo e essa foi uma das tônicas do seu discurso na Academia de Letras da Bahia. Será a partir desse seu discurso, então, que construirei algumas réplicas para a área da cultura, a que mais diretamente me interessa e me atinge.

O senhor falou da cultura como elemento estruturante, como gerador de empregos e citou a tão afamada e relegada expressão economia da cultura.

Ao afirmar que podemos ser um estado cultural, e que a cultura gera empregos e renda, o senhor acerta em cheio. Mas para isso é preciso recursos na cultura, que o senhor garante que vai expandir, para a pasta. O senhor também cita a diversidade cultural de nosso povo e acho que no seu discurso, quando há a afirmativa de que  virão recursos de outras pastas para a cultura, há uma esperança de que a grande confusão entre assistencialismo, inclusão e arte não aconteça.

O senhor afirma que no contraturno de seu projeto de escola em tempo integral haverá um foco na formação cultural do cidadão. Com investimentos da pasta da educação. Se essa proposta for levada a sério, seria um grande avanço. Mas levada a sério. Digo isso porque botar os meninos pra ficar se melando de tinta, cantando canções e batendo palmas, e vestindo-se de florzinha pra nascer no palco e dizer que fez uma coreografia não deveria ser o foco, penso eu. A formação artística tem que ser levada a sério, mesmo com sua ludicidade, liberdade e improviso. Não vejo porque uma criança não possa saber tocar um instrumento lendo partitura, fazer um soneto ou interpretar Shakespeare como quem estuda e faz uma equação matemática ou uma ligação química.

Falando em partitura e instrumento, duas afirmações suas me enchem de entusiasmo, seguidas de uma violenta descrença. Vamos à primeira, relacionada à formação musical. O senhor AFIRMA que haverá um núcleo do NEOJIBA em cada território da Bahia. Seja qual divisão territorial o senhor esteja pensando, geográfica ou de identidade, essa iniciativa seria uma grande revolução cultural no interior do estado. Sua afirmativa quanto à implementação de tal projeto de tamanha envergadura tem, como reação, a minha afirmação de que sua reputação será a pior possível se isso não for cumprido; o brasileiro está cansado de promessas de campanha e sua afirmativa deve vir acompanhada da palavra de um homem, da dignidade e seriedade de um ser público, um político, ademais porque essa ideia é estruturante e pode transformar a vida de crianças e adolescentes, e, por conseguinte, o futuro da Bahia.

Outra afirmativa sua que me enche de entusiasmo e muita, demasiada desconfiança e descrédito, é quanto à TOTAL recuperação dos centros de cultura da Bahia. É uma vergonha que uma gestão que ficou oito anos no bolodório de interiorização da cultura tenha deixado diversos centros sucateados. Estive algumas vezes em Itabuna e é um crime hediondo que uma cidade com seu histórico artístico e cultural esteja com seu centro de cultura fechado e deteriorado. Itabuna é um exemplo da decadência baiana: cidade sem teatro, sem cinema, sem museu, sem qualquer tipo de atividade artística e cultural decente em espaços decentes, apesar de todo movimento forte de artistas locais, de empreendedores e produtores que driblam adversidades patéticas na cidade.

Senhor governador, além disso, houve o comprometimento de construir centros de cultura, em parceria com prefeituras e iniciativa privada, nos territórios onde ainda não houvesse tal estrutura. Outra coisa pra se ficar de olho. A gestão de Wagner, em 8 anos, não fez por merecer em nada, nesse aspecto, e o senhor terá 4 anos para realizar isso tudo (sim, não deve-se prometer nada pensando em reeleição, as propostas são para 4 anos). Vale ressaltar que o foco na formação, que o senhor frisou, é fundamental, também. Não adianta liberar verbas, construir centros, e não dar uma formação sólida na área das artes. O senhor citou universidades, mas os próprios centros de cultura podem ser polos formadores, capacitadores e recicladores para os artistas em formação e atuantes na sua região. Aqui, vão dois pontos positivos da atual Secult, a Escola de Dança da Funceb e o Centro de Formação em Artes como possibilidades transformadoras e qualificadoras para a cultura baiana.

Falando em centros de cultura, sua proposta de circuitos culturais, um projeto de circulação que rapidamente remeteu-me ao Palco Giratório, Projeto Pixinguinha e ao Mambembão, seria excelente. Os editais de circulação pecam por serem desconexos, desarticulados e soltos. Um circuito com suporte do Governo Estadual teria mais força, criaria uma regularidade e foco.

Falando em circulação, há o problema grave dos editais setoriais. Ao concentrar para cada linguagem um único edital anual, a Secult piorou sensivelmente o repasse de recursos para produções e iniciativas artísticas e culturais. Argumenta-se, nos bastidores, que foi uma alternativa para não lançar editais minguados, por conta do baixo orçamento da cultura na Bahia. De todo modo, é uma loucura termos só uma porta de acesso anual, concorrendo em diversos níveis, instâncias, estilos, formações e estéticas, para obter recursos públicos. Uma montagem profissional não pode concorrer com um festival de teatro de bonecos. Um projeto de oficina de máscaras não pode concorrer com a circulação de um espetáculo. A manutenção de um grupo não pode concorrer com um evento de dramaturgia. Isso é óbvio, mas na prática os editais setoriais são um balaio de gato e têm sido prejudiciais como ferramenta de subvenção; não à toa fizeram um arremedo criando o edital para manutenção de grupos – iniciativa muito boa, por sinal, mas ainda pouco estruturada – para sanar minimamente esse equívoco da Secult (e note-se que no projeto de manutenção concorrem grupos de diversas linguagens, caracterizando mais um balaio de gato, algo que quase tornou-se marca da gestão atual).

Governador, o senhor disse que será um gestor do diálogo. Há certas pessoas que vêm pensando as políticas culturais, com severas críticas, com tópicos claramente objetivos, e que não são ouvidas. Pessoas propositivas, como Ordep Serra e Claudio Marques, que escrevem para esse site, e Gordo Neto, que já foi coordenador de teatro da Funceb. Como eles, há tantos outros que poderiam mostrar alguns caminhos das pedras para que não houvesse tantas pedras em seu sapato e nas mãos de artistas, insatisfeitos, seguidamente, com a surdez e ineficiência do Estado em suprir demandas.

Nesse aspecto, fortalecer o Fundo de Cultura, como o senhor propôs, é o marco zero disso tudo. Garantir o repasse imediato, injetar mais recursos e proibir o contingenciamento são atos primordiais para se começar a discutir políticas públicas. Muitas vezes, os próprios gestores públicos até têm boas ideias, mas faltam-lhes recursos, ou acesso a eles, ou celeridade nos processos para que tudo corra dentro do possível.

Historicamente, a pasta da cultura sempre cuidou da arte. Acho inteligente de sua parte – se é que assim será – aportar recursos de outras pastas na cultura, dentre outras coisas, para que ações muitos mais assistencialistas, inclusivas, estruturantes e sociais (e fundamentais) – mesmo que através da cultura – não tirem o foco na Arte. A arte pode transformar, senhor governador, bem como a formação sólida em arte. Assim, formam-se artistas, plateias, seres humanos mais sensíveis e menos violentos, brutos, barulhentos, machistas, racistas, sexistas, intolerantes, preconceituosos. A arte está aí para modificar o homem em sua alma e em sua sensibilidade e é preciso foco nela. Então, fica feio ver no âmago da Secult, por exemplo, uma Orquestra Sinfônica da Bahia sem músicos suficientes, suando pra se manter; e a mudança da OSBA para OS é um passo importante dado nessa gestão.

Caro senhor governador Rui Costa, esse talvez seja o primeiro de uma série de textos que pretendo fazer para dialogar com seu governo na área da cultura. Nós, artistas, estamos muito curiosos em saber quem será o secretário de cultura e esperamos que seja alguém que nos ouça e não queira inventar a pólvora ou chegar cheio de ideias malucas. Os caminhos já estão iluminados por ideias e mais ideias, resta saber se o governo quer seguir por essas estradas. Para tal, é preciso MUITO mais recursos para a área da cultura. Somos, sim, um estado que tem na cultura e na arte sua força – como o senhor mesmo afirmou em seu discurso – e podemos movimentar muito nossa economia se tivermos uma cultura forte e pulsante. Vale chamar a atenção para um diálogo, também, com a iniciativa privada e com as grandes empresas e instituições que, historicamente, vêm fortalecendo nossa cultura. Além de trazer empresas para mais perto, através do Fazcultura (que foi sucateado e demonizado e é uma ferramenta importante, paralela à ação da Secult), já passou da hora de termos centros culturais do Banco do Brasil, da OI, Santander, etc. Diversas empresas vêm sendo importantes para o financiamento e dinamização da arte e da cultura noutros estados, e a Bahia, notadamente Salvador – a capital – são esquecidas e negligenciadas. Faz-se necessário que haja força e vontade política para estruturar esse segmento importante e tirar um pouco mais das costas do Estado a responsabilidade com a cultura.

Prezado Rui, essa eleição deixou claro, pra mim, que preciso agir. Havia cansado de falar ao vento, mas decidi que não vou ficar quieto. Quero outra Bahia a partir de 2015. Suas afirmações/promessas estão registradas, aqui, e espero que o senhor tenha a honestidade e competência para cumpri-las.

Vamos mudar? Vamos melhorar? Vamos dialogar?

Estamos à sua disposição para o melhor, acredite. Bilal Powell Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

Todos os Artigos

Comentários

 Chico Oliveira.
Faço eco as suas mais que oportunas palavras Gil, bem como, por mais insignificante que seja a minha representatividade, estarei vigilante para proposições e/ou oposições. Chico Oliveira (Músico)

Deixe o seu comentário


código captcha

Voltar

Cultura e Cidade

A Cidade do Futuro, o filme

Márcio C. Campos 24/04/2018

Várias cidades do futuro foram erguidas no mundo desde que a sensibilidade moderna se estabeleceu: da italiana e renascentista Palmanova, com sua complexa combinação matemática originando uma...

Odoyá, receba o nosso lixo!

Cláudio Marques 08/02/2018

  Por décadas, eu frequentei a festa dedicada à Iemanjá no Rio Vermelho. Desde 1986, acho, de forma ininterrupta. Eu sou diurno e sempre cheguei cedo, por volta das cinco horas da manhã. Sol...

Assine nossa newsletter