Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Chico e o Zé-ninguém

Chico no comício da Candelária

Em dezembro de 1984, num xou que reunia grandes artistas no estádio do Vélez Sarsfield, há um momento que me emociona bastante, sempre, na gravação que tenho em vinil. Mercedes Sosa chama Milton Nascimento ao palco. Ele entra, e é recebido pela multidão argentina que lotava o estádio ao som de Maria, Maria.

A América Latina passava por uma sucessão de ditaduras e os artistas eram ícones dessa luta. Eram exilados, torturados e censurados. Havia uma união entre os povos contra um inimigo em comum.

Aos poucos, quase todos os países voltaram a ser democracias. Infelizmente, Cuba se estabeleceu como uma ditadura e todas suas conquistas se enfraqueceram pelo seu regime autoritário e vexatório. Em pleno século XXI, ainda termos presos políticos é ridículo, e a Venezuela repetiu o erro.

Em meio a todo esse contexto, uma figura se agigantou. Chico Buarque rodou a América Latina, lutou através de sua arma, sua arte, contra a ditadura, e, como ele mesmo diz, encheu muito o saco da ditadura tanto quanto ela encheu o seu. Pela qualidade de sua música e pela forma como conseguiu falar de amor e política e não ser panfletário (ao contrário, de uma ironia fina) – mal que acomete boa parte de nossa superficial arte ainda hoje – Chico tornou-se o maior compositor popular da história da humanidade (Caymmi é hors concours e nem sei se tão humano assim).

Um Buarque de Holanda, filho de Sérgio, nascido em berço intelectual de ouro, e que teve acesso material, presencial, a diversos processos democráticos e antidemocráticos, conheceu países, acompanhou golpes e revoluções, e leu muito, viu muito, sofreu e gozou muito com isso tudo.

Chico, desde 1989, apoia o PT. Eu, não (até porque não tinha idade e não tenho entusiasmo, como ele). Acho que armações tiraram do Brasil a chance de um segundo turno entre Brizola e Collor e era o momento do primeiro, junto a Darcy, Furtado e tantos outros, de carimbarmos nosso acesso real a uma possibilidade de Brasil. Chico vem apoiando o PT como outros artistas vêm apoiando outros partidos e candidatos, e todos os que criaram uma história robusta de luta e arte merecem ser respeitados, pois não chegaram a essa robustez à toa.

Tenho um amigo cubano que odeia Fidel, diz que ele é um filho da puta, mas louva diversas conquistas do sistema cubano. O mesmo ocorre com a Venezuela, de onde sempre ouço elogios em meio a protestos veementes quanto a esse pastiche de ditador que é Maduro. Não imagino um Chico aplaudindo fuzilamentos, prisões políticas, cerceamento de liberdade, pois ele lutou contra tudo isso. O que não lhe tira o direito de elogiar o que ele acha que é bom, contraditoriamente, ou não (somos todos feitos de contradições e conflitos, ou não?).

Nunca fui a Cuba. Nem à Venezuela. Não conheço, para minha vergonha, a América Latina. Li, até a metade, De Martí a Fidel, e pude ter um panorama, juntamente a alguns livros sobre o Brasil, onde, em meio às trapalhadas e ditaduras continente afora, um país, “esquecido” pelos que criticam Cuba, Venezuela, PT e afins, sempre foi protagonista das maiores sacanagens americanas.

Já ouviram falar da política do big stick? Já estudaram nossa história para perceber o quanto os EUA foram nocivos para os países da América Latina? Da frota que pretendia invadir o Brasil em 1 de maio de 1964 até o Consenso de Washington, que prejudicou nossa economia em prol de vantagens dominantes do Império Americano, os EUA não se contentaram em escrotidões intrafronteiras, e talvez seu projeto dominador tenha precipitado o melhor e o pior em diversas nações.

Mas ninguém ofende o outro com “vá pros EUA”. Até porque, entupir um avião de comunistas, pobres, pretos, viados, artistas, não seria nada agradável à elite que reclama do aumento do dólar por conta de suas viagens a Miami. E falar mal dos EUA virou papo de esquerda latino-americana tola, para essa elite que se beneficiou, e muito, de tenebrosas transações que ainda passeiam por Brasília (e, felizmente, vêm sendo investigadas e punidas).

Chico sabe disso tudo e muito mais. Por isso chegou onde chegou com o respaldo e a legitimação de intelectuais e pensadores notáveis, sendo uma unanimidade entre os que eu respeito. No entanto, é criticado por pessoas que sabem, de política e de América Latina, o que programas de TV e revistas semanais dizem sobre tudo isso (sim, livros e documentários sérios são ferramentas importantes e podem suprir conhecimentos presenciais).

Acho deplorável que uma esquerda imbecil agrida a blogueira cubana tanto quanto que uns reaças imbecis agridam quem vê pontos positivos em Cuba. Yoani Sánchez e Chico Buarque conhecem Cuba. Eu, não. Por isso, preciso ler, conhecer, ouvir. Chico viveu e conheceu muita coisa e é agredido por gente ignorante e arrogante; geralmente essas duas palavras andam juntas.

As pessoas vêm perdendo ótimas oportunidades de ficar caladas. Agredir Chico Buarque, Fernando Henrique Cardoso, Lula ou qualquer um que tenha vivido intimamente as mazelas de nosso país e lutado por isso, é deselegante e vergonhoso. Se qualquer um desses errou, que pague pelos seus erros. Mas que haja provas. A justiça, a democracia e o governo existem para que não existam justiceiros, milícias e patrulhas.

Por enquanto, as pessoas estão sendo massacradas por seus posicionamentos políticos. Isso não pode continuar, e pode dar em merda muito pior. É absurdamente antidemocrático, incivilizado e estúpido. Um homem que viveu e viu tudo que Chico viu e viveu, um homem que lutou por ideais inegavelmente legítimos e importantes, lutou pelo direito de qualquer um ter a liberdade de defender seus valores, suas ideias e seus ideais, sem que isso fira ou interfira no processo democrático; toda sua luta anula-se num episódio que contradiz tudo isso. E ainda vindo dessa elite que reclama de bolso cheio, enchido muitas vezes da forma ilícita que eles tanto condenam nas práticas do atual governo.

Deixe em paz nosso Chico. Ou olhe a veia que salta e vá pra Havana, Londres ou Miami.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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