Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Composições e momentos: Ronaldo Bastos e o Encontro de Compositores

A sala, em momento algum, ficou linda e preta. As luzes, nem cor de céu, nem cor das águas. Praticáveis com refletores sem filtro, colocados apenas para iluminar o ambiente informal, com as mesmas mesas e cadeiras do público.

Encontro de Compositores, no Teatro Vila Velha. Reunião de diferentes estilos, qualidades, saberes e competências. Eles chegam, vão posicionando-se, alguns sem instrumento, um atrasado, vão trocando violões, vão contando histórias de suas músicas, e uma primeira rodada de canções, uma de cada, são tocadas.

Eu já sabia. Provavelmente, todos ali já sabiam. Mas Jarbas Bittencourt, espécie de animador/incentivador do encontro, ao fim da rodada de composições, fala sobre as canções que marcaram nossa vida. Maria Bethânia disse que música é perfume. “Há canções e há momentos, e eu não sei como explicar” que o autor dessa canção, Milton Nascimento, e um de seus melhores parceiros, Ronaldo Bastos, fazem parte da nossa história, da nossa vida, das nossas sensações, sentimentos e sonhos.

Ronaldo é chamado ao palco. Ele não canta, apenas conta. Eu, compositor menor, já por descuido tendo participado desse mesmo encontro uma vez, identifico-me perfeitamente com tudo que ele diz. Ele faz canção por inveja de outras canções. Lindo e sincero. E tenta dar continuidade aos seus mestres, Caymmi o maior deles, que melhor que o mar cantou a Bahia que Ronaldo adotou como inspiração, passeio constante, repouso e veraneio.

Os compositores ali presentes, também cantores, resolvem recompor canções da forma mais simples do mundo. Um a um, vão cantando músicas do repertório de Ronaldo Bastos, escolhidas, disputadas, selecionadas com carinho, admiração, dedicação e simplicidade.

Vez por outra, o letrista daquelas canções que já são parte desse mar de caymmis e jobins, conta alguma história, comenta uma curiosidade. Durante as canções, não. Num momento, ele é aquele nosso tio que curte balbuciar canções enquanto ouve algo que admira. Noutro, ele apenas deixa um sorriso largo, como se dissesse: nossa, que bela canção, que voz, que interpretação singela, que saudade de ouvir isso, de saber que isso existe e é admirado. Há também os momentos onde Ronaldo Bastos abaixa a cabeça, e parece estar concentrado; em estado de vigília, meditação ou placidez.

Eu, sentadinho ali na plateia, me perdi várias vezes olhando o semblante do compositor, ao invés de curtir um dos compositores que estavam e são intérpretes. Jarbas termina cantando “Um certo alguém” que estava ali, que cruzou nosso caminho e mudou a nossa direção, como toda grande arte faz; e sei que falar em grande arte, em Salvador, é um anátema, pois falar em qualidade e excelência, aqui, dizem ser relativo.

Eu não acho. A prova disso é que Ronaldo Bastos é o letrista de “Chuva de prata”, canção gravada por Gal Costa e que provocou reações, à época – contadas, ali, ao vivo, pelo próprio autor – quanto à “breguice” da canção. Mas um verso desdiz isso e também a relativização do belo: “você deve acreditar no que é lindo, pode ir fundo, isso é que é viver”.

O encontro acabou subitamente, meio sem jeito, com Jarbas dizendo “acabou” e alguns agradecimentos tronchos. Tudo muito informal, simples. Uma noite memorável onde a única estrela era a canção, em sua forma mais elementar. Os compositores, ao seu instrumento, tocando-as. Logo depois o compositor, um certo alguém, ensimesmado, ouvindo suas canções através de seus colegas de ofício. Mais nada.

Cada um vai pra seu lado. A vida continua. Destinos se cruzam e se afastam. Ronaldo Bastos, talvez, volte a ser um certo ninguém para muitos. Mas Jarbas já havia dito, em determinado momento, que parece que o mais importante é a música, e que a vida está ali apenas para fazer a música existir. E é o próprio Ronaldo Bastos quem manda o recado através de um verso seu:

“Enquanto se esquece de mim, lembra da canção”.

 

(artigo originalmente  publicado em janeiro de 2013)

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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