Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Diálogos improváveis do Facebook

– Poxa, vi que você botou a bandeira da França como foto do perfil, né? Que absurdo, aquela chacina, num país responsável pela Declaração de Direitos do Homem, pelo mote Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
– Pois é, revoltante. O pior é que é uma dor imensa para alguém que ama a França, como eu, mas também a possibilidade de aumentar a islamofobia, ataques aéreos matando inocentes, a população do Irã pagando pelas merdas que separatistas e governantes, ao redor do mundo, fazem. Vi o link que você compartilhou. Absurdo.

– Que bonita sua campanha para doações pelo desastre da Vale! As fotos que você postou são revoltantes; mataram um rio! Você tem toda razão em rechear sua página com reportagens e mensagens de revolta. Mal consigo ver as fotos sem que me cause uma dor profunda.
– Seria um pouquinho menos pior se não fosse pelos atentados em Paris. A cada novo link que você compartilha, dói em mim a dor daquelas famílias e do atentado contra a liberdade.

– Seu time, heim? Os jogadores não fizeram nada, se deixaram levar. Era a chance de termos dois times baianos de novo na elite do futebol brasileiro. E seria bacana termos mais BAxVI como esse ano.
– Pelo menos seu time subiu. Não teremos BAxVI na primeira divisão, mas ao menos Salvador terá jogos com os melhores times do país. Parabéns.

– Que loucura essa opressão dos judeus em relação aos palestinos. Mesmo eu tendo sangue judeu, vejo que a forma como nos impomos é por vezes violenta e invasiva demais. Voltei de Israel e fiquei incomodado.
– Duvido que tão incomodado quanto eu, te garanto. Mesmo com sangue palestino correndo nas veias, me envergonho da onda terrorista, violenta e radical com quem muitos do meu povo tratam a questão. Não é matando inocentes em atentados que algo vai se resolver.

– Rapaz, está cada dia mais difícil defender o PT. Propostas de direita, esse aparelhamento e assalto ao erário, alianças espúrias, direitos dos trabalhadores, que deram nome ao partido, sendo destroçados… Mas vamos tentando…
– Boa sorte, porque do lado de cá está brabíssimo, também. Mesmo com todo apreço que tenho ao PSDB, mas ver meu partido barrando projetos no congresso que visam melhorar o país, somente pra enfraquecer o governo, ver policiais batendo em professores, a forma como a justiça partidariza e, consequentemente, vai deixando passar várias questões sérias envolvendo os tucanos… Complicado…

– Poxa, soube que o facebook já ia mudar seu nome para rede antissocial, de tanto que virou um espaço de ofensa, acusações e cobranças entre os pretensos amigos, cada um colocando sua visão e suas prioridades acima da dos outros, como se fossem todos donos da razão e soubessem o que é melhor não somente pra si, mas pra qualquer um por aqui.
– É, mas o projeto foi abortado devido a uma tomada de consciência das pessoas. O respeito às diferenças, às opiniões contrárias, tudo isso foi mudando. Agora, cada um cuida de seu mural da melhor forma e deixa o mural do outro em paz. Até porque, se cada um fizer sua parte, sua campanha, seu protesto, sua crítica, ao invés de reclamar do outro, serão milhões de vozes lutando por dezenas de causas, diferentes, necessárias, ao invés das pessoas perderem o tempo que perdiam reclamando mais do outro que lutando pelo que acreditam; enfraquecendo um espaço que seria social, e que estava virando uma guerra onde interessava mais atirar e atacar o outro que se preocupar com seus próprios problemas e questões.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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