Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

dificultando machado

Machado, facão, faca, canivete: cousas que podem ser descritas como uma lâmina metálica para corte com manuseio através de cabo. Tamanho, peso, material, relações de proporção e ângulo entre o cabo e a lâmina, objeto-fim do corte, entre outros vetores, individualizam os particulares nomes desta descrição tipológica. Como objetos aprimorados no tempo, como especializações derivadas de adaptações testadas e aprovadas por uso em larga escala, estas cousas adquirem o status de bem cultural: sua apreciação tipológica, a validade de sua expressão de maneira abstrata e abrangente é decorrente deste status.

Dentre as duras críticas que recebeu o projeto aprovado pelo ministério da cultura para que sejam utilizados recursos de impostos para a “simplificação” de texto de Machado de Assis, a mais contundente de que tomei conhecimento foi, sem dúvida alguma, o gráfico que sobre um fundo branco traz uma elipse extremamente alongada, com seu eixo maior na posição vertical, dois pontos a guisa de olhos e uma meia elipse fazendo as vezes de boca, acompanhado de texto que o descreve como a “representação simplificada da Mona Lisa.” Ainda que o fato de tal elipse não esteja no eixo de simetria do quadro configure um problema não desprezível para esta particular tipologia em sua relação com a pintura mais famosa do mundo, a crítica bem humorada à decisão governamental de simplificar a obra de Machado toca em dois pontos que valem uma rápida discussão.

O primeiro deles diz respeito à modalidade da simplificação: a ação a ser financiada não tem caráter tipológico. As mudanças na pontuação, nos vocábulos, na sintaxe estão mais próximas de alguém que alterasse tons das cores ou trocasse algum elemento da paisagem ao fundo, ou ainda, diante da comprovação da identidade da pessoa que serviu de modelo, e tomando como base uma reconstrução “científica” do corpo, tridimensional e virtual, fizesse alterações no nariz, dedos, olhos ou bochechas da Mona Lisa para trazê-la a uma expressão “mais próxima” ao real. Ou mesmo sem esta cousa-referência, alterá-la para torná-la bela de acordo com os cânones atuais, acrescentando um cílio a mais ou um pouco mais de decote, ou modificando a curvatura dos lábios que exprimem o seu sorriso (fazê-la rir às gargalhadas, para que ninguém tenha dúvida de que rindo ela está), sem atenção alguma ao que era considerado belo à época de Leonardo, mas tentando “melhorá-la para facilitar” a compreensão a partir dos códigos populares contemporâneos.

E chega-se ao segundo ponto, o do limite de tipologias em artes: enquanto as cousas culturais de cortar têm um caráter mais ou menos anônimo garantido pelo aperfeiçoamento através do uso no tempo, a obra de arte permanece única, por mais que tipologias sejam elaboradas. A Mona Lisa aponta para a questão a partir desta situação extrema, afinal é a obra mais famosa de alguém considerado gênio: Leonardo é o grande exemplo de artista cuja produção é reconhecida de tal maneira como grandiosa, que chega a incorporar uma certa noção pela qual a instauração da aura da obra de arte adquire contornos quase mediúnicos. Senhor do belo e da ciência, realizador de perfeições, como poderiam as cousas por ele criadas serem comparadas a outras, quanto mais simplificadas, alteradas ou “facilitadas”?

E se o mito do artista genial é um tema renascentista, o Romantismo que antecede a produção de Machado de Assis tornará profundamente arraigada a noção de que a obra de um artista está em relação direta com a sua vida pessoal. Sua produção, para além do caráter único das suas habilidades “artesanais” em fazer a cousa se transformar em arte, seria fruto direto da sua biografia, expressão do íntimo pessoal e irreprodutível. Por esta noção, forte o suficiente para ser persistente até os dias atuais, alterar a obra de um artista seria o equivalente a alterar o registro de sua vida, seria falsear a sua biografia, seria impedir o acesso a esta decisão única por uma forma que é a chave para a compreensão da sua visão particular de mundo. Alterar a cousa, menos do que perder as suas qualidades formais, seria o mesmo que turvar o retrato a ser decifrado do próprio artista.

Sem aprofundar a discussão da validade do Eu romântico nos dias atuais, o que fugiria ao propósito deste texto, a cousa realmente espantosa é o fato de tal ação de facilitação, cujo objetivo seria atrair mais leitores para a obra do mais famoso escritor brasileiro, ainda cause alguma comoção ou insurreição. Não é de agora que a ideologia da facilitação vem servindo de norte para as mudanças mais significativas no sistema de educação do país. Quando os índices de reprovação na 5ª série retratavam uma péssima escola fundamental, a solução foi a de abolir a reprovação, facilitando a continuidade do estudante na escola. Para facilitar a geração de números de alfabetizados em idade adulta, em vez de explicar a razão da construção do plural, normatizou-se “os livro” (ainda que o corretor do programa em que escrevo este texto resista e me informe que há alguma coisa errada nesta flexão). Diante da desqualificação do ensino público durante algumas décadas, impedindo os estudantes egressos da escola pública de concorrerem a uma vaga no vestibular, a solução encontrada foi facilitar-lhes o acesso à universidade. Uma vez na universidade, os estudantes tiveram sua permanência facilitada através de redução substancial da nota mínima para aprovação. Diante de ações tão profundas como amplamente aceitas, preocupar-se com a facilitação de Machado de Assis é como se queixar que uma cereja do bolo esteja um pouco sem brilho. Apenas uma das cerejas, um pouco de brilho a menos.

A construção da democracia moderna, da maneira como ela passou a ser compreendida após a virada para o século XIX, tem na universalização do acesso à escola um dos seus pilares: a garantia através do Estado desta universalização, para além do estabelecimento de um instrumento de democratização das decisões, é constituinte de autonomia individual. O acesso à condição de cidadão é estabelecido com a instrumentalização básica para a decifração dos códigos do conhecimento.  É assim que, se o primeiro momento desta tarefa da história recente foi estabelecer um patamar social onde não existam analfabetos – e com isso a garantia do acesso mais elementar à informação através de seu código básico –, sua projeção ideal e otimista de sociedade é cousa que conta com indivíduos atuantes, críticos, capazes de agir em prol de uma transformação individual e coletiva a partir do acesso ao conhecimento acumulado.

A complexidade do conhecimento e das relações desde então foram ampliadas em grau exponencial. Os códigos de acesso a esta complexidade tornaram-se igualmente difíceis. Não há cousa que tenha sido facilitada. A revolução digital transformou o cidadão letrado ideal oriundo do século XX em um semianalfabeto: não é por outra razão que os hackers assumem o caráter de vanguarda política da contemporaneidade e Snowden tem o destaque que tem. Eles dominam os novos códigos e agem de maneira transgressora diante de uma grande massa incapaz. Neste sentido, é muito tênue a eficácia do apelo ao acesso universal à internet como garantia de cidadania. Na projeção social ideal, transposto para a atualidade, a sociedade democrática precisaria ser composta de programadores e técnicos em eletrônica, senhores de um campo do conhecimento onde a relação entre conhecimentos de linguagem e de matemática adquire uma dimensão fundamental: sintaxe, limites e derivadas, estatísticas, algoritmos e tratamento de dados são suas ferramentas elementares. A campanha pelo software livre, definido entre outras coisas pelo acesso livre ao código fonte, seria, portanto, um equivalente contemporâneo, ainda que em outro plano, da batalha pela alfabetização universal.

Recentemente, em um programa de TV sobre a dinâmica nas salas de aula, um especialista afirmou que seria papel do educador criar um ambiente para que os estudantes se sintam bem e que, para que isso aconteça, é necessário que o estudante reconheça o valor pragmático do que está sendo ensinado. Quando estudante de primeiro grau, o logaritmo era a cousa com que os mais velhos aterrorizavam os jovens: saber matemática para valer só sabia quem entendesse logaritmo. Os livros adotados no segundo grau pareciam todos lotados de problemas insolúveis, caso a chave-mestra do logaritmo não fosse compreendida. Enfim, ao chegar o dia de aprender o tal do logaritmo, tive uma grande surpresa ao perceber que, em parte, estava diante de um recurso formal, de uma por assim dizer figura de linguagem matemática, que tornava mais eficiente a operação com a potência, conteúdo aprendido anos antes. Anos antes, entretanto, na aula de comunicação e expressão havíamos estudado as diferenças entre cultismo e conceptismo, lemos, ainda que não extensamente, Góngora e Quevedo. Nenhum professor seria capaz de indicar qualquer sentido pragmático nisso, sequer adiantaria ele dizer que mais tarde viríamos a compreender melhor o logaritmo graças à poesia de Góngora. Ah, e é claro que ter estudado as referências do barroco nos deixou bastante mais à vontade também para compreender Machado. Como a Mona Lisa, os livros de Machado de Assis, os poemas de Góngora ou os complexos processos de interação com e entre as máquinas, todos eles são resistentes à facilitação. Quem pretende facilitá-los consegue, entretanto, fazer com que o público-alvo da facilitação esteja deles alijados. É cousa que fecha mundo em vez de abrir.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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