Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

É o fim do verão

O vento frio, apesar do sol quente e céu claro, não deixa dúvidas sobre o fim da estação. O número de cadeiras e mesas vazias, dispostas na praia para os poucos clientes das barracas alinhadas em pouco mais de um quilômetro de costa, também evidencia que as férias da maioria dos italianos já terminaram. Entre os poucos banhistas nestes primeiros dias de setembro, um casal de italianos típicos aposentados, sexagenários, chega todos os dias por volta do meio dia acompanhados de dois filhos adotivos, negros: dois meninos, por volta de 5 ou 6 anos de idade, com a energia normal desta idade, jogando bola na areia, divertindo-se com o chuveiro da barraca, já que as ondas fortes e altas causadas pelo vento frio os impedem de entrar no mar.

Outros casais, como o casal e seus filhos, frequentadores da praia durante toda temporada, também brincam e conversam com os meninos, e, se fosse possível ter a cena encerrada nesta moldura fechada, alguém poderia interpretá-la de acordo com o gênero textual que explica há décadas as adoções de crianças pobres, muitas vezes negras, brasileiras por casais europeus: eles terão boa escola, futuro com reduzidos riscos de sobrevivência, longe das periferias sociais de situações muito mais pobres.

Mas não há moldura capaz de encerrar esta cena apenas nestes atores: pela praia do norte da Itália, mesmo esvaziada de banhistas, passam dezenas de vendedores ambulantes, todos negros, homens, com idade entre 20 e 40 anos. O ritmo com que se repete “não, obrigado” é semelhante àquele de uma praia em Salvador. O que se oferta é um tanto diferente: além de óculos de sol, são anunciados principalmente guarda-chuvas, sombrinhas, casacos e pulôveres, carregados pela areia em grandes quantidades, uma oferta um tanto surreal para o ambiente praieiro. Carregar sacos enormes pela areia da praia não é nenhuma atividade fácil ou recompensadora. Outros homens negros, à porta das grandes atrações para o turismo de massas em cidades como Milão ou Parma, vendem bolsas falsificadas, em quantidades proporcionais às hordas de turistas.

O pior, entretanto, parece estar reservado às mulheres negras: à beira das estradas municipais, onde não há muito tráfego de veículos, dezenas e dezenas de mulheres, todas negras, se prostituem no meio do nada: sozinhas, espalhadas a distâncias de pelo menos duzentos metros entre elas, sentadas em uma cadeira dobrável, raramente sob um guarda-sol e de posse de uma garrafa de água. Longe do ambiente urbano, impossível de gritar por algum socorro imediato.

No mundo onde apenas o mercado de trabalho não foi globalizado, os imigrantes recém-chegados à Itália encontram na União Europeia uma legislação onde a questão da migração é um dos raros temas políticos em que a autonomia de cada país foi mantida intacta. Em uma combinação de regras pelas quais o solicitante de asilo político não tem permissão de trabalho (que depois de conseguida vale apenas para o país que concedeu o asilo) e não é possível pedir asilo em outro país que não àquele ao qual se chega, restam poucas perspectivas aos imigrantes que arriscam a vida em barcos improvisados no Mediterrâneo, especialmente no momento atual de crise no sul da Europa.

Todos conhecemos as imagens trágicas dos barcos cheios de refugiados chegando a Lampedusa, no sul da Itália ou na costa da Espanha, e todos sabemos o número elevado de pessoas que morrem neste trajeto. Diante da absurda condição de vida que espera os que conseguem chegar, é difícil descrever o que se pensa e sente sobre quem lucra com as economias desta gente lançando-as ao mar em direção à Europa.

Mas também se torna inevitável refletir sobre que assustadoras condições em seus países de origem levam pessoas a se arriscarem em tal travessia. Vagando pelos espaços neutralizados e excluídos da vida social pelo turismo de massa, ambulantes à beira da praia ou prostitutas à beira da estrada, a situação espacial destes imigrantes africanos não é uma simples metáfora da sua condição social. Ela dá continuidade a Lampedusa, a estende.

Conversando com médicos que trabalham em hospitais públicos no sul da Espanha – e as pessoas que solicitam asilo têm ao menos acesso às instituições de saúde – ouvi que a mais importante razão para o risco de tal travessia estaria no futuro dos filhos, que a perspectiva pessoal é quase que exclusivamente centrada em garantir para a próxima geração melhores condições de vida. Enquanto isso, espanhóis jovens deixam o país por falta de perspectiva de trabalho. Difícil imaginar diante deste quadro o tempo da integração dos filhos dos imigrantes chegados através Lampedusa. Muitos finais de verão ainda estão por vir.

PS. Exatamente uma semana após este texto ter sido publicado aconteceu em Lampedusa a maior tragédia envolvendo imigrantes ilegais a caminho da União Europeia. Após um incêncio em um barco com cerca de 500 pessoas que havia saído da costa norte da África, somente cerca de 150 pessoas foram resgatadas com vida. No meio do grande debate que se seguiu ao desastre no mar, ficou claro que inclusive a ajuda humanitária não consegue trabalhar em virtude da rígida legislação europeia de imigração. Na prática, é impossível pedir asilo político de maneira legal, uma vez que este só pode ser pedido dentro do territorio europeu. Esta situação acaba por fomentar o “mercado de coiotes do mediterrâneo”. Hoje, no dia 8 de outubro de 2013, ministros de todos os países da União Europeia se reuniram em Bruxelas, mas sem chegar a alguma decisão que demonstre vontade política para uma efetiva mudança da situação atual.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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