Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

Encosta sumida

Virou notícia nacional, a Bahia entregue às baratas: o ato final de depredação da obra de Siron Franco, que cobria a contenção de uma encosta próxima ao Dique já foi comparado à interminável obra do ferrorama e ligado ao clima de horror, medo e insegurança que domina as ruas de Salvador. Mais uma faceta da decadência total da cidade sem lei de uso do solo, sem plano diretor, sem calçadas, sem jardins, sem praças e, de acordo com o último movimento, sem ciclovias.

Nunca compreendi a festa feita à época da inauguração do painel de peças metálicas do famoso artista, por isso não posso dividir agora o sentimento de indignação ou indiferença final que acompanha o noticiário sobre este ato. O painel foi instalado ali, sobre os “cabeçotes” de proteção da ancoragem da contenção, composto de figuras metálicas planas que, por estarem fixadas sobre estes “cabeçotes”, produziam sombra sobre a contenção propriamente dita, parecendo flutuar sobre o plano da encosta.

Aparentemente este painel poderia ser relacionado ao trabalho da arte de rua de grafiteiros e artistas plásticos em vários lugares da cidade, mas apenas aparentemente. As razões de ser, e todo o processo de estabelecimento do painel, são bem distintos. Seu desaparecimento, na condição de único objeto desta natureza, não revela nem mais nem menos do quê de urbanidade que existe nesta aglomeração de pessoas e construções, mas pode ser usado para uma pequena reflexão.

O lugar, ou melhor, as transformações no lugar onde o painel fora instalado, é condição importante para entendê-lo em sua especificidade: como parte de mais um alargamento de vias para veículos – e a correspondente construção de viaduto no final da Avenida Vasco da Gama – a encosta foi mais uma vez cortada e a “solução técnica” adotada é a recorrente superfície concretada, refletora de calor e impermeabilizada, onde nunca deveria ter deixado de existir vegetação.

Mas se a solução é recorrente, como qualquer trajetória de alguns minutos irá revelar em qualquer trecho da cidade cortado pelos vales, porque este lugar exatamente recebeu a obra do renomado artista? Razões diversas podem vir a ser investigadas, mas o tênue reconhecimento de que a região do Dique constitui algo de valor paisagístico, a proximidade do centro e de bairros de renda elevada e o enorme público-eleitor representado pelos usuários da estação da Lapa estarão com certeza entre os condicionantes que, para esta decisão, tornaram diferente esta encosta das outras, igualmente feias.

É possível que a camada de arte sobre a encosta cinza tenha mais semelhanças com a decisão de rebocar e pintar as casas da encosta do Pernambués que de um dia para o outro passaram a “compor uma paisagem urbana” para os veículos que trafegam pela Avenida Luís Eduardo Magalhães. Ainda que o reboco e a pintura possam vir a colaborar minimamente para o conforto ambiental no interior das casas (realmente minimamente onde, por exemplo, muitas vezes não há chance de se abrir uma janela), é notório que o grande efeito de tal intervenção não diz respeito à qualidade de vida dos moradores.

Com o paliativo desmontado, teríamos revelada a estupidez com que o espaço urbano é tratado, mas em vez disso a contenção de concreto tem a chance de se tornar mais uma entre centenas pela cidade. Por enquanto nota-se a ausência do painel; talvez a feiúra da cidade já tenha cegado tanto os seus moradores ao ponto de ela não ser percebida nem quando descortinada de seu paliativo. A pobreza urbana, revelada sempre na escassez de infra-estrutura (aquela da decisão de alargar a rua e criar um viaduto em vez de pensar no transporte de massas – e aqui o painel volta  a se conectar com o metrô inacabado, mas de outra maneira), corre o risco alucinado de se contentar com uma fonte luminosa, sempre.

Talvez não seja a hora de chamar artista algum, nem Siron Franco, nem qualquer outro. Talvez seja (sempre) a hora de ver o que foi e vem sendo feito das encostas, dos vales, da vegetação, das águas, dos caminhos e ruas. Há muito e coisa de grande vulto sobre o que pensar: por exemplo, avenida mais feia que o Bonocô, depois das obras do metrô, não deve haver no mundo. E não vai ter alumínio reciclado nem reboco que dê jeito.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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