Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

entre altos e baixos na arquitetura

Citei a revolucionária guinada em direção ao popular levada a cabo no campo da arquitetura por Robert Venturi e Denise Scott Brown em uma postagem nas redes sociais onde anunciava o mais recente artigo de Gil Vicente Tavares, A arrogânsia da ignorânsia. Neste artigo, ele trata de tensões advindas da noção geral que estabelece uma divisão entre alta e baixa cultura, especial- e até mesmo paradoxalmente, ampliada pela mediana capaz de ser traduzida em termos de mediocridade.

Citei arquitetura não somente por razões pessoais óbvias, mas também porque no ensaio de Benjamin sobre a obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, citado por Gil Vicente em seu artigo, o filósofo defende que as outras artes deveriam aprender da arquitetura e sua relação com as massas, uma vez que aquela sempre foi concebida para o uso e para a percepção destas; daí que, segundo Benjamim, a arquitetura pode ensinar em sua constante histórica uma recepção que se dá por repetição e costume mais que por contemplação atenta. A observação casual é o modo de relação entre público distraído e obra de arte em tempos modernos, sugere seu texto.

Naquele momento, Benjamin via no cinema a expressão de arte que, por ser própria da época, guardava a tensão deste desafio de recepção pelas massas. Hoje, olhando o percurso histórico do século XX, dificilmente alguém discordaria que a música foi a expressão que mais se transformou e foi transformada pelas condições de recepção impostas pelo consumo de massas e pela reprodutibilidade técnica: o ponto de síntese é o motorista de automóvel ouvindo os sucessos da parada no rádio de seu carro.

O produto pop ali desfrutado distraidamente – e por isso ele pode continuar a dirigir – percorreu todas as transformações anunciadas por Benjamin, do formato adaptado aos meios de reprodução (o tamanho do disco e sua rotação determinando o tempo de uma canção), da inclusão do gosto local para a construção do popular de massas, à recepção fácil e leve por repetição e descarte.

Quando nos anos 60 a cultura arquitetônica norte-americana abraça o gosto popular, toda a aproximação às massas contra a estética hermética, monótona, repetitiva, abstrata e elitista em que havia se transformado o modernismo dos arranha-céus de fachada de alumínio e vidro era uma de caráter comunicacional: o barroco e suas contradições, o restaurante em forma de pato, os letreiros de Las Vegas e a teoria do abrigo decorado marcaram uma renovação pautada pela relação da arquitetura como objeto cultural a ser percebido e usufruído pelas massas distraídas e motorizadas do século XX. O usuário do espaço urbano poderia assim desfrutar da arquitetura da mesma maneira que da música no rádio.

Acontece que a revolução digital veio a partir de finais dos anos 80 para mudar completamente o fazer arquitetônico na sua elaboração, retirando completamente o foco antes voltado para a recepção. Se a ideia de reprodutibilidade técnica esteve associada à produção em massa da arquitetura modernista, e sua dimensão social, a guinada do fim do século XX estabelece uma redefinição da elaboração arquitetônica em um patamar mais complexo e que atingiu a profissão com uma velocidade inesperada.

Esta vasta mudança na profissão causada pela disseminação dos computadores pessoais de alta capacidade de processamento faz com que hoje a discussão de 25 anos atrás sobre a sobrevida do desenho a mão como representação de projeto pareça absurdamente limitada. Se usarmos uma comparação com os softwares de tratamento de imagens, hoje em dia em arquitetura, fazer “uso adequado” de softwares de CAD para representação equivale a um ilustrador que somente trabalha com o Paintbrush.

Os desafios postos à disciplina ao redor daquilo que se pode entender em linhas bem gerais como a parametrização dos seus elementos constitutivos, além de exigir um renovado domínio da matemática, geometria e programação, reconectou a engenharia no lado criativo do processo e deu outro peso aos elementos não-visuais à própria experiência espacial: o pavilhão projetado por Diler Scofidio + Renfo em 2002 para a Expo Suíça talvez seja o exemplo mais famoso desta arquitetura multissensual que não se deixa fotografar ou filmar.

Dentro do quadro da cultura da disciplina, a revolução trazida pela digitalização do processo de elaboração da arquitetura (da ideia original ao edifício construído) pode ser comparada (e aqui é apenas uma comparação, não se trata de uma equivalência ou igualdade!) à grande mudança vivida com o advento do Renascimento. Por esta comparação, a realização do Museu Guggenheim em Bilbao, de Gehry, é o equivalente da execução da cúpula da Catedral de Florença, feito de Brunelleschi: em ambos os casos, é materializado um edifício a partir de uma abstração geométrica indiscutivelmente ligada à superação de um desafio tecnológico e construtivo considerado inexecutável, que estabelece dentro da própria cultura arquitetônica uma guinada radical em relação àquilo reconhecido como estabelecido em um momento anterior, transformando assim uma série de exemplos heterodoxos anteriores a ele em uma linhagem de seus precursores.

Por esta perspectiva, os espaços arquitetônicos dos edifícios de Pampulha e de Brasília, de Oscar Niemeyer, a obra de Eero Saarinen nos EUA (em especial o Terminal de passageiros TWA no aeroporto JFK em Nova Iorque), e boa parte do que foi apresentado na exposição Arquitetura Deconstrutivista no MoMA-NY em 1988, poderiam ser compreendidos a partir da leitura histórica que posiciona a basílica de San Miniato al Monte, também em Florença, em relação ao desenvolvimento da famosa cúpula de Brunelleschi na Catedral e, especialmente, em relação à completude estética do espaço da igreja de São Lourenço, do mesmo arquiteto, na mesma cidade.

A complexidade das variáveis e das interações entre dados e funções e o alto grau de abstração do que também é conhecido por arquitetura generativa (ou de projeto generativo) não é definitivamente algo que se tenha domínio apenas no plano do usuário, da contemplação formal ou de simples operações de representação, especialmente se esta for empregada como ferramenta de reprodução. Os livros de arquitetos como Greg Lynn, a exemplo de Composites, Surfaces and Softwares: High Performance Architecture, não deixam de exprimir a pretensão de serem comparados àqueles dos tratadistas renascentistas. Há possivelmente dentro da disciplina a constituição de uma nova “alta cultura”, um desafio tecnológico e cultural de dimensões consideráveis para grande parte dos profissionais da área, que correm o risco de estarem excluídos deste novo, complexo e abstrato. E é preciso notar que sequer se tocou aqui no recorrente debate da diferença entre arquitetura e construção.

Enquanto isso, as novas multidões, aquelas do turismo em massa, refuncionalizam a percepção distraída da arquitetura descrita por Benjamin, amplificando-a. Em Florença, é possível ver em duas situações distintas a comprovação do modo esportivo de percepção do patrimônio arquitetônico que verifiquei na capital da República Tcheca e descrevi no artigo Praga: Lições de um centro de cidade dedicado (exclusivamente) ao turismo.

A caminho do monte onde está a Basílica de San Miniato existe uma grande plataforma de onde se pode observar em grande panorama a cidade de Florença. Até aquele ponto, um grande estacionamento sem nenhuma atratividade além da vista de cartão postal, chegam, caminhando por escadas e rampas bastante inclinadas, 98% dos turistas, e somente 2% continuam o pequeno trecho já sem inclinação até a igreja que serviu de modelo para o Renascimento.

A segunda situação é definida pela própria Catedral: duas grandes filas se formam ao seu redor, a primeira delas, rápida, dá acesso gratuito ao interior da igreja. Ali dentro, as massas olham rapidamente para a cúpula, cuja dimensão dificilmente é compreendida deste ponto de observação, já que o vazio predominante no espaço não oferece escalas para comparações. Fotos são feitas e o interior da igreja é rapidamente abandonado. Já a segunda fila dá acesso à subida para a famosa cúpula, para o qual se paga caro ingresso, permitindo que o turista “escale” os seus 106 metros de altura em 463 degraus. Vencido o desafio esportivo, tendo a façanha registrada em fotografias, está então justificado pelo esforço da subida o que será comido no almoço ou no jantar.

Do alto da cúpula de Santa Maria del Fiore, parece que, neste momento, não poderia ser maior a distância entre a recepção das massas e a produção da arquitetura em termos de alta cultura. Do distraído ao distraidíssimo, marcado pela concentração de atenção cada vez maior às pequenas telas de smartphones, capazes de substituir uma série de planos informacionais antes cunhados no espaço físico, o modo da quase-não-recepção da arquitetura a desafia de uma maneira radical na época da reprodução em massa de turistas. Mas, diferente dos anos 60 do século passado, quando Venturi e Scott Brown fizeram com que a revolução da pop art chegasse à arquitetura, a bola da vez da disciplina parece mesmo estar na alta cultura.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Alexandre San Goes
o artigo habilmente passeia pelas vias da revolução pop art, suas repercussões e consequências involuntárias. estive recentemente em Valparaíso no Chile, junto a um amigo. fizemos caminhos de encontros com arquitetura, música e gastronomia. quase que intuitivamente íamos nos localizando tendo por referências os valores tidos como «baixa» e «alta» cultura. Valparaiso tem dessas misturas. e a condição de ser ou não «massa» como uma hesitação inerente à apreciação da rua. formas de apreciação que sugerem a distinção tanto de produtos «massa» quanto homens «massa». curioso, o homem «massa» sequer é capaz de escolher tal condição. o privilégio da escolha parece ser sempre daquele que escolhe ser da «alta cultura». e invariavelmente ele seguirá a segunda fila. ele ama estar no 2%. «falsa escolha» portanto. mas nem por isso menos cool.
 Cione Fona Garcia
Vc continua um ótimo escritor e um excelente pesquisador. Sinto muito sua falta e seu retorno às salas de aula serão por demais bemvindas. Os alunos agradecem mesmo sem saber porque, na frente descobrirão. Sinto falta de nossos tão simples e saborosos almoços, sinto falta de tudo e principalmente de sua companhia e bom humor. beijão saudoso e parabéns pelo artigo acima. Cione

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