Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Estacionamento pago em xópim e a cidade no olho da rua

Um xópim é um centro comercial privado. As pessoas vão a ele pela comodidade, conforto, segurança, opções. Em Salvador, mais ainda: porque o soteropolitano médio tem um vida cultural ridícula, e resta-lhe como opção passear nessas caixas de concreto, num ambiente de exaltação do consumo, sem identidade, protegido do mundo real, lá fora.

Uma opção ao xópim é a praia. Opção oposta, tradicional, parte da nossa cultura. Outra opção é sair para beber e comer. Gasta-se muito com bebidas alcoólicas – e qualquer classe social gasta parte significativa de sua renda se embriagando e comendo alimentos, em sua maioria, que não trazem, diríamos, benefícios imediatos à saúde.

Voltemos aos xópins e à polêmica cobrança de estacionamento, que começou essa semana. Como disse acima, são ambientes privados, e basta lembrarmos que não só temos as zonas azuis, onde são cobradas as horas estacionadas, como a figura do guardador de carro, que sempre aparece em inseguras e constrangedoras horas para nos cobrar, praticamente, um pedágio pela sua não violência e pelas vagas que lhe “pertencem”.

Paga-se para estacionar no Pelourinho, nos centros médicos e empresariais. Por que não em xópins?

Meu real incômodo com a questão é que esses centros de consumo irão arrecadar tubos de dinheiro por dia. Isso me incomoda realmente. Pagar R$5,00 ou R$6,00 para frequentar esses espaços, nem tanto. Talvez, isso possa se refletir no condomínio cobrado das lojas, numa melhora de serviços, pode se refletir em promoções para atrair clientes e, é digno de nota, sabemos que quando as lojas colocam seus produtos com 70% de desconto, é quando seus preços chegam, geralmente, perto do real e justo a ser cobrado do cliente. É recorrente a crítica da necessidade abusiva, absurda e vampiresca com que empresários querem acumular capital, e vivemos uma desigualdade no país absurda. Ainda acho que ninguém precisa ganhar mais de R$50.000 por mês, ainda mais quando há centenas de milhares que não ganham nem R$500; cem vezes menos que isso. Pode soar utópico, mas bom seria que o lucro obtido com o estacionamento impactasse para menos os preços dentro desses blocos de concreto.

Já vi gente revoltada. Gente fazendo campanha de boicote. Gente preocupada(?) com as pobres lojas que perderão clientes. Essas gentes talvez não conheçam uma Salvador que pulsa na Avenida Sete, na Baixa dos Sapateiros, em lojas de bairro. Lojas de bairro: quanto mais lojas, estabelecimentos comerciais, restaurantes, botecos, galerias de serviço, mais vida, mais segurança, mais movimento, mais pessoas em seus próprios bairros usando menos transportes, desengarrafando as ruas, poupando seu tempo, sua saúde.

Os bairros de Salvador são zumbis, em sua esmagadora maioria. Andar, à noite, pelas ruas desertas, traz uma insegurança imensa. Contudo, se nos bairros houvesse restaurantes, lanchonetes, lojas que ficassem abertas até tarde, teatros, cinemas, galerias, com certeza esses bairros seriam mais seguros, mais vivos, mais interessantes.

Em cerca de apenas 3km, um pouco mais que a Avenida Paulista, temos algumas “retas” que vão da Praça Castro Alves, com o Cine Glauber Rocha, o Teatro Gregório de Matos e o Espaço Cultural da Barroquinha, até a Caixa Cultural, e segue pelo Teatro Xisto Bahia, Sala Walter da Silveira, Teatro Vila Velha, Teatro Castro Alves, Sala do Coro, Concha Acústica, Teatro Gamboa Nova, Teatro do ICBA, Teatro Martim Gonçalves, Museu de Arte Sacra, Museu Carlos Costa Pinto, Museu de Arte da Bahia, Palacete das Artes, Teatro ACBEU, Cinema do Museu, Instituto Cervantes (que eu tenha lembrado de pronto).

Se esses espaços funcionassem a pleno vapor, com programações e casas cheias todos os dias, haveria um fluxo de gente pelas ruas que incitaria a abertura de bares, restaurantes, de lojas ficando abertas até mais tarde. Para esses espaços seriam necessários mais transportes públicos, bicicletário, estacionamentos – pagos, ou não – e segurança, claro. Mas um fluxo maior de pessoas, com ruas movimentadas e iluminadas, gera mais segurança e vida. Digo isso em lugares que tenham realmente vida, não como aquela imensa pista de concreto que tornou-se a Barra, onde vejo gente perambulando como se estivesse numa cidade do interior sem opções de cultura que não fosse a ida à praça da cidade.

Experimentem ficar um mês sem ir ao xópim. Experimentem ficar um mês sem netflix, SKY, NET, qualquer que seja a TV por assinatura. Experimentem centrar o foco da noite no programa cultural que será feito, sendo o jantar, a cerveja, o tira-gosto, uma extensão do que foi visto, para se conversar sobre o que viu, sobre o que se sentiu, sobre o que lhes tocou.

Ao invés de se fechar em blocos de concreto, vão às ruas. Ao invés de comentar o que se viu na TV em redes sociais, vão ao cinema, ao teatro, e comentem, depois, nos bares e restaurantes, suas experiências. Vão a museus.

O impulso da prefeitura em transformar nossas ruas em alamedas de xópim, de construir mais um na Lapa, a reforma que o governo estadual fez na Ceasa, gourmetizando-a com cara de xópim, tudo isso responde a uma demanda evidente de uma população cuja cultura é ir ao xópim, e prefere fortalecer a ideia de vivermos gradeados e murados para nos protegermos da nossa própria cidade (que, sei bem, está violenta e perigosa em excesso, não posso ser irresponsável com isso).

Contudo, garanto que um mês de pessoas enchendo as ruas, consumindo arte e cultura, seria marcante para a cidade. Talvez, percebêssemos que podemos ocupar nossas ruas, que podemos fazer programas culturais mais interessantes que ficar em praças de alimentação e em frente à TV vendo seriados. O poder público perceberia, nessa vontade, a necessidade de respeitar a arte e a cultura que vem sendo feita aqui e para a qual nunca se tem um mínimo orçamento digno e políticas continuadas. Se vocês quiserem mais dança, mais teatro, mais concerto, os gestores públicos vão ter que correr atrás. Se vocês não dão a mínima, facilita a estupidez e obtusidade deles.

Enquanto nos deixarmos mediocrizar pelas mais cômodas opções, nada vai mudar. Venho, seguidamente, tentando mostrar que tudo que está errado é culpa nossa, e não “deles”. Eles, queiram vocês, ou não, nos representam, estão lá por causa da gente e (em tese) pela gente (na verdade, pela bala, bíblia e pelo boi, na maioria das vezes).

Ocupemos as ruas, os cinemas, os teatros. Estimulemos estabelecimentos comerciais em nossos bairros, passemos a consumi-los mais, passemos a valorizar quem está na rua, fazendo a cidade pulsar. O problema não é pagar R$6,00 num estacionamento, é o desespero de quem vê no xópim uma extensão da sua vida cultural, obstruída por um valor que paga-se em qualquer centro médico sem pestanejar, qualquer estacionamento privativo em prédios comerciais e ruas cheias. Não é pelos R$5,00 ou R$6,00 que discuto, é pela vida de nossa cidade.

De outro modo, Salvador vai continuar sendo demolida em sua verdade, sua essência, sua história, enquanto campos de concentração de consumo são erguidos negando o que mais nos fortalece: nossa arte, nossa arquitetura, nossa cultura e nossa alegria de viver isso tudo.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Allan Lacerda
A cada dia, percebe-se que a tendência será pelo confinamento do cidadão dentre de casa. A violência urbana nos aprisiona, a falta de segurança nas vias públicas nos amedronta, a liberdade para ir e vir tem sido cada vez mais relativa, pois a dificuldade que se tem de estacionar um carro virou um negócio lucrativo para donos de estacionamento privado e, também, para o poder público nos rotativos. Agora, os shoppings centers exploram o segmento oneroso de se cobrar pelo estacionamento, impondo ao consumidor o pagamento obrigatório pelo uso dos estacionamentos. Apostam que inicialmente haverá uma queda no fluxo de veículos, que depois a situação se normalizará, que o movimento de consumidores retornará ao que era antes, que os mesmos se acostumarão a pagar pelo uso da vaga, que etc, etc, etc! É evidente que o que se busca é o lucro em cima da necessidade dos clientes, pois já que num shopping center os riscos são minimizados, essa tranquilidade tem que ter um preço. Aproveitemos! Pois não demorará muito para se cobrar ingressos para as pessoas que chegam a pé.
 Newton Silva
Concordo Gil Vicente, o medo extrapola a vontade pública, num xópim a pseudo segurança acaba em deixar de lado os atrativos dos bairros, ainda há redutos de resistência (botecos) e casas de apresentações culturais já enraizadas no coletivo, mas é pouco, se conta nos dedos. Não é fácil mudar esta realidade, apoio seu pensamento. forte abraço.
 Emanuela Lopes
Caro Gil Vicente Tavares, Suuuuper PARABÉNS pela bela reflexão. As suas palavras refletem o desejo da alma de nossa família. Somos um quarteto em busca desse jeito de viver. Outro dia estivemos no Rio com as crianças e ficamos verdadeiramente apaixonados pela oportunidade de andar nas ruas, de encontrar as pessoas nas ruas, nos bares, pra lá e pra cá... Um abraço e conte conosco pra colocar a "cadeira pra fora de casa". Emanuela Lopes

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