Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Estrela azul: Mãe Stella

Em 1936, Eugênia Anna dos Santos instituía um novo cargo litúrgico no Ilê Axé Opô Afonjá, candomblé que ela fundara vinte e seis anos antes. Os Obás de Xangô surgiam no mesmo ano da Sociedade Cruz Santa e um ano antes dessa poderosa mulher, filha de Xangô, ser decisiva na lei que proibia o embargo sobre o culto aos orixás no Brasil, além de ter Participado do II Congresso Afro-Brasileiro, em Salvador, e ter marcado a história da cultura e da religião na cidade.

Mãe Senhora, depois da breve passagem de Mãe Bada, fortaleceu o terreiro com a confirmação de uma plêiade de intelectuais, artistas e escritores como obás da casa, e assim continuou sendo: Jorge Amado, Carybé, Caymmi , e assim sucessivamente… Mãe Senhora trazia pra dentro do Afonjá a nata da cultura baiana que, de lá de dentro do Axé, trouxe a nata da cultura afro-baiana para as palavras, canções e melodias que iriam formar nossa identidade tão especial e particular, tão única e rica. Mãe Senhora trazia prestígio e proteção ao terreiro concedendo prestígio e proteção a grandes homens da Bahia.

O cargo de Obá, no Opô Afonjá, teve, ao longo do tempo, uma simbologia muito mais honorífica, como amigos e protetores da casa, trazendo para dentro do terreiro grandes nomes brasileiros para além dos citados acima. De Antônio Olinto a Gilberto Gil, de Vivaldo da Costa Lima a Ildásio Tavares, de Mario Cravo a Muniz Sodré, os ministros de Xangô, como são chamados, foram iniciados não por méritos propriamente litúrgicos. Não eram, com certeza, os de maior axé, no sentido de devoção, ligação/religação, magia, mas, sim, eram, com certeza, os de maior axé, no sentido da magia, devoção, ligação e religação do homem com o divino.

Arte e religião. De qual para qual emana a mágica, o símbolo, o divino?

Maria Stella de Azevedo Santos, ou Mãe Stella de Oxóssi, foi eleita – no último dia 12 de setembro – para a cadeira número 33 da Academia de Letras da Bahia, cujo patrono foi Castro Alves. Ela não era, com certeza, a escritora de maior valor literário da Bahia. Muitos, antes dela, poderiam ter ocupado uma cadeira na casa, e não foram. Muitos, ainda vivos, mereceriam ocupar a cadeira 33 antes dela, por seu maior valor para as letras.

Arte e religião. De qual para qual emana a mágica, o símbolo, o divino?

Tudo se desfaz no retorno devido. A importância de suas palavras, escritos, pensamentos, é, com certeza, do maior valor, literário e cultural, para a Bahia. Na dívida que a cultura, a arte e a literatura baianas devem ao povo de candomblé, notadamente às mulheres que foram inspiração e força, referência e sossego das nossas raízes tão fundamentais quanto essenciais, reside a essência de tão importante acontecimento.

Mãe Stella virar uma imortal da ALB é o caminho inverso, que é um e o mesmo que foi o dos primeiros grandes homens da cultura baiana a bater cabeça para as mães-de-santo dos terreiros de Salvador. Sua posse é também o tomar posse do lugar devido que nossa tradição merece e que as letras e as artes, como sempre, são vanguardas em realizar. Além disso, é uma resposta aos tempos sombrios em que vivemos, tempos de intolerância, radicalismo e burrice.

A atitude da ALB antecipa o que os poderes públicos deveriam fazer de forma mais efetiva e contundente: legitimar, fortalecer nossa identidade cultural sem dar margem a qualquer preconceito ou intolerância. Não se deve ter melindres com quem não respeita o diferente; quem não respeita não merece respeito. Certas religiões mais recentes – e, por serem novas, petulantes e “donas da verdade” – vêm ganhando força no Brasil inteiro através da mediocridade e opressão intelectual. O candomblé sempre esteve associado à riqueza cultural, à liberdade sexual, à criatividade, festa, beleza, alegria, exuberância, palavras que, bem dosadas, definem e colorem o Brasil de forma distinta a de muitos países.

Se formos listar os artistas, escritores, intelectuais que eram, são de candomblé, e tantos mais outros que admiraram e admiram essa religião – buscando em seus símbolos e imagens a força de sua criação –, vemos uma constelação que ilumina o céu do país do brilho mais intenso que pode existir; motivo de orgulho e prestígio ao redor do mundo.

Contrárias a isso, certas religiões mais novas, obtusas e radicais, são compostas por uma extensa gama de medíocres que conseguem ou conseguiram seu prestígio somente pela grana conquistada ou devoção cega e inocente, ou indecente; a depender do caso.

Não é o dinheiro e a fé cega que dignificam o homem; mal sabe Cristo o quanto seus pensamentos foram traídos pelas religiões que fingiram basearem-se nele. O que dignifica o homem é o que ele deixa como herança simbólica e semente frutífera para o futuro. As canções de Caymmi, as ações de Mãe Aninha, as histórias de Jorge e as palavras de Mãe Senhora fizeram florescer jardins de beleza, força e riqueza. Todos eles pregaram a liberdade, a igualdade e fraternidade entre os homens, em seus gestos e ideias: a tolerância, o verdadeiro amor ao homem e ao belo, o mais profundo respeito ao diferente e ao mistério; sem ele, não há clareza.

O gesto da ABL é uma resposta à estupidez, mesquinhez e pequenez dos obtusos. É a confirmação da diferença como força geradora de luz. Não são as Letras que foram as agraciadas com a posse de Maria Stella Azevedo dos Santos. Foram os conselhos e sabedorias populares, as melodias do mar, os ritmos da nossa música, os orikis, as canções, os ilás, as rezas e os silêncios: os silêncios que são tão belos a quem os conhece, e os silêncios tão significantemente impostos àqueles que não entendem a verdadeira beleza do mundo.

Xangô sabe o que faz. Meu pai dizia isso, obá e poeta, mais orgulhoso do obá que do poeta. Ele, que viu Mãe Stella botar a mão na barriga de minha mãe e dizer “se nascer homem já nasce Obá de Xangô”, não viu, que era tão seu desejo, eu me confirmar obá da casa; brigava sempre comigo por isso. Ele, que foi obá feito por Stella, não viu sua “mãe” virar imortal; mãe pela qual ele “brigou” diversas vezes, assim como foi contínua a luta dele pelo Opô Afonjá.

Contudo, ele já havia vaticinado a força dessa mulher, nos versos de uma canção, que ofusca com esplendor a intolerância, burrice e estupidez dos obtusos:

“Estrela azul, Mãe Stella, brilha no céu da Bahia”.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 jose emmanoel
Parabens Gil por ter nascido Oba' e por ter escrito o real!! Saudades de Ildazio!!! Repito o que Geraldo Cohen escreveu --- Viva a baiana ABL que vem escolhendo critérios de imortalidade mais realísticos que os rapapés, bajulações e serventias da ABL brasileira.
 Geraldo Cohen
A história que essa Sacerdotisa tem escrito, preenche quaisquer requisitos formais e regimentais acadêmicos ou doutrinais. A sua fala contundente e reta, seu Patronato das causas étnicas, de gênero e sociais são o lastro de qualquer discurso de imortalidade, de perenidade, de celebridade. O título é meramente um reconhecimento simbólico do que essa SENHORA representa existencial e materialmente nas comunidades nas quais ela transita. O contraponto nefasto vem das nádegas flamejantes e bajuladoras de algum eventual marimbondo republicano ou algum obscuro sociólogo que nega publicamente os escritos que consignou em alguma tese inconclusiva, aprovada por convenção protocolar maior que algum mérito. Viva a baiana ABL que vem escolhendo critérios de imortalidade mais realísticos que os rapapés, bajulações e serventias da ABL brasileira.

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