Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Ettore Scola, eu que te amava tanto…

Paro e penso num filme sobre a história da França no século XX; eu penso em O baile. Paro e penso num filme sobre a decadência de um libertino; penso em Casanova e a Revolução. Paro e penso num filme sobre a amarga e difícil vida de um homossexual num mundo de Feios, sujos e malvados; penso em Um dia muito especial. Paro e penso num filme sobre a história do teatro; eu penso em A viagem do Capitão Tornado. Paro e penso no cineasta que melhor falou da amizade, das pequenas relações cotidianas, o cineasta que mais delicadamente retratou o “humano” (assim, entre aspas, naquele sentido do profundamente humano, sensível da gente).

Paro e penso em Ettore Scola e penso em escrever e paro. Não imaginava ter a crise de choro que tive agora. Mas precisava me recompor e prontamente prestar uma homenagem a um dos meus ídolos daquela geração que pra mim foi a melhor de todos os tempos. Com pouca diferença de idade, Scola, Fellini, De Sica, Visconti, Antonioni, Pasolini, Monicelli e Rossellini formaram um time pra mim imbatível, e que, cada um a seu estilo, marcou definitivamente o cinema mundial.

Scola não tinha roteiros mirabolantes. Sua câmera parecia não existir. Mesmo na primeira e última cena de Um dia muito especial, a câmera somos nós a invadir a intimidade devastada daquele deslocado casal.

Seus diálogos pareciam brotar de forma espontânea, seu cinema era aquela relva bonita que ninguém plantou, mas embelezou o lugar e muitos não se deram conta. Sua arte estava em ser tão delicadamente e sutilmente humana, que até parecia que não era um mestre da sétima arte.

Somos muito afeitos a efeitos (como essa frase, que criei agora). Rapidamente, aplaudimos as pirotecnias de diversos cineastas que construíram sua carreira de forma feérica, histérica, psicodélica, ou mesmo com uma assinatura tão pessoal que, já num segundo filme, se torna maneirista; mas conquista ainda mais seguidores que, captando a superficialidade dos artifícios, sentem-se inteligentes, cúmplices e entendedores.

As cores de fulano! As lutas de Beltrano! As edições de Ciclano! Rapidamente, diversos cineastas entram no panteão dos filmes assinados a ferro e fogo como obras originais, marcantes, exclusivas.

Scola, ao contrário, fazia um filme que qualquer um podia fazer. Um roteiro que qualquer um teria escrito. Tudo simples, direto, sem malabarismos, piruetas, fogos de artifício ou globos da morte. Contudo, é muito fácil você ser diferente. O qualquer um de Scola era tão especial que tornou-se único.

Sensacionalistas que somos, provavelmente poucos colocariam Scola nalguma daquelas tolas listas que se multiplicam mais que muriçoca. Parece que ele nunca quis fazer um grande filme, nunca quis ser um grande cineasta. Parece? Parece, somente. Ao assistir boa parte de seus filmes, como os que citei acima, e mais Nós que nos amávamos tanto, O jantar e alguns outros, a grandeza de Scola fica evidente e torna-se uma grande lição.

Talvez como um Caymmi, um João Gilberto do cinema, um pouco como a simplicidade das últimas obras dos grandes gênios da humanindade, Ettore Scola deixa uma lição, ao menos pra mim.

O efeito pode tornar-se defeito. Fazer o simples, o delicado, o silencioso, o pausado, despir-se daquela vaidade de mostrar a cada minuto sua esperteza e criatividade, é extremamente difícil.

É extremamente difícil porque, despido dos adornos, firulas, surpresas e artifícios, o artista se defronta com o homem, o homem se defronta com o artista.

A obra de Scola era arte pura, mas profundamente humana. Em sua simplicidade, ele tocava de leve nossos sentimentos, ele pisava delicadamente nossas sensações, ele discretamente acessava nossos sentidos.

Não havia, em seus filmes, aquele impacto que impressiona, aquelas estripulias que te tiram da poltrona, aqueles golpes que te entusiasmam e aceleram o coração. Mas, talvez por isso, de forma leve, delicada e discreta, ele tocava nalguma parte da gente que, na crise de choro que acabei de ter, se revela e se explica.

Scola, eu que te amava tanto te desejo um bom baile nalguma dimensão que talvez exista, tão bela quanto seu cinema.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Dagmar de Abreu
Olá Gil, tive a honra de conhecê-lo em Salvador. Sempre que vejo algo publicado seu bebo até a última gôta do seu saber que vc tão mencionou de Scola..........simplicidade.........humano.........demaziadamente humano.......QUE DEUS O ILUMINE SEMPRE PARA CONTINUAR NOS BRINDANDO COM SEUS ESCRITOS! ABRAÇOS E CARINHOS SEM TER FIMMMMMMMMMMMMMMM DAG
 LUIZ AUGUSTO FEITOZA FERRAZ
Esse menino Gil Vicente Tavares​ é o que eu chamo de um "azougue". Vejam que texto bonito, sensível, inteligente e pleno! Um ídolo homenageando outro ídolo. A mim me dá uma sensação indescritível. Não tenho como não compartilhar. Meus amigos verdadeiramente inteligentes vão adorar. E eu vou amar saber quem gostou. Vou prestar atenção MESMO!
 samantha
Eu, que amo tanto o Cinema, fiquei comovida com a Beleza nessa homenagem.

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