Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Furdunço, Baiana System e a vitória do carnaval em Salvador

Saí no carnaval de Salvador, de fato, aos 11 anos de idade. Meu primeiro ano no Filhos de Gandhi, tocando agogô, e minha primeira relação com a rua, a muvuca, a galera. São 25 anos de folia momesca.

Nessas minhas bodas de prata, com muita alegria e felicidade, vi de tudo. Vi a Barra virar uma realidade como novo circuito, vi o “Vai quem vem” de Brown, que fazia sua concentração em minha rua, antes de virar Timbalada. Vi o projeto Expresso 2222, que compreendia camarote e trio sem cordas, me propiciar alguns dos momentos mais emocionantes e felizes da minha vida festiva, com encontros antológicos de Gil, Caetano, Gal, Milton, Baby, Lulu Santos, dentre tantos outros. Vi a ascensão e queda de várias modas, a consolidação do pagode como uma realidade pulsante do carnaval, cantores e bandas irem do céu ao inferno, e vice-e-versa, novas sonoridades surgindo e composições excelentes. Saí no Olodum alguns anos, no Cortejo Afro alguns outros – participei de sua invenção! –, onze anos no Filhos de Gandhi, mas descobri que o que mais gostava era a liberdade sem cordas dos trios de Armandinho, Gerônimo, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Daniela Mercury, e tantos outros. Descobri a irreverência, contestação e apelo popular da Mudança do Garcia, as saídas belíssimas do Olodum e Filhos de Gandhi no Pelourinho e do Ilê Aiyê no Curuzu, e o Microtrio com seu som macrotanto. Nesses 25 anos, vi o carnaval do Pelourinho crescer como um circuito de xous sempre com boas e até mesmo ótimas programações, as bandinhas de sopro pra lá a pra cá. Vi encontros de trio, na Praça Castro Alves, antológicos: inclusive, participei ativamente de um, num ano em que Gerônimo havia sido posto de escanteio pelos organizadores mafiosos do carnaval daquele verão. Meu pai me largou com ele e a banda no Teatro Gregório de Matos e dormimos em meio às decorações do Baile das Atrizes, balões amarelos imensos, esperando o trio do Gera Samba, que iria chegar à Praça Castro Alves pro encontro de trios. Chegando lá, saímos nós e Gerônimo, com uma imensa bandeira pirata, subimos no trio, e a banda tocou no encontro, raiando o dia entre grandes atrações num daqueles momentos que guardo com maior carinho e agradecimento.

Quando digo que vivi isso tudo aí em 25 anos, foi porque vivi em 25 anos, não há anos atrás, não com tom nostálgico ou saudoso. O carnaval de Salvador é, ainda, isso tudo, com suas modificações, transformações e reinvenções.

*             *             *

Meu último artigo, em relação à maioria que escrevo, teve uma boa repercussão na rede. O título Moraes Moreira e o fracasso do carnaval em Salvador pode ter chamado a atenção de todos, tratei de uma personalidade e bati de forma dura na estrutura de nossa folia, um pouco ligando a metralhadora giratória.

Contudo, abri espaço para que muitos detonassem o carnaval de minha cidade, o meu carnaval, de forma intransigente, radical e, a meu ver, equivocada. Além disso, não queria que ficasse apenas a imagem negativa de nosso carnaval, bem como soasse como uma tábula rasa minha opinião sobre as ações dos governos estadual e municipal.

A programação de xous no Pelourinho, esse ano, está muito boa. Diversa, tem de Caymmi a roquenrou, de Carlinhos Brown a Hip Hop; iniciativa da Secretaria de Cultura da Bahia.

Ontem, foi o lançamento do projeto Furdunço, da Secretaria de Desenvolvimento, Turismo e Cultura de Salvador. Numa sequencia de atrações, a prefeitura botou uma diversidade de estilos e sons, de nomes e famas, para, sem corda, desfilar pelo centro da cidade.

Acompanhei o início e depois voltei para pegar o Baiana System. O início de tudo foi meio sem graça, desorganizado, e, numa tentativa que me lembrou muito a Caminhada Axé, houve desfile do Zambiapunga, palhaços, grupos de cultura popular, em meio a minitrios e o Microtrio.

Acho que poderiam fazer um desfile especial com manifestações populares e focar nisso como um movimento de visibilidade e valorização de tradições da Bahia, e fazer, separado, um circuito com bandas e cantores para realmente se dançar e pular.

O Microtrio, como sempre, foi um diferencial. Vi outras pessoas e bandas puxando gente, alguns trios tocando pra ninguém e, realmente, acho que tudo isso poderia ser repensado para o ano que vem; e acho que a prefeitura é ambiciosa e esperta o suficiente para fazer isso, pois foi primeiro ano, teste, e o Furdunço tem tudo pra vir melhor ano que vem.

No cômputo geral, o projeto Furdunço compensou um edital da Secult-BA, o Carnaval Pipoca, que propiciava excelentes nomes e encontros em cima de trios com péssimos sons e horários ainda piores, e que, mesmo com seus defeitos, foi uma lástima ter acabado.

Neste ponto, o Furdunço deu mais destaque, botou em horário mais feliz um desfile de várias sonoridades em sequência – só ouvi elogios ao projeto – e pude ver o quanto o Baiana System pode ser um símbolo do sucesso do nosso carnaval; como a não saída de Moraes Moreira pra mim foi um símbolo de seu fracasso.

Uma amiga minha, em meio ao furdunço do Campo Grande, me disse algo muito sensato. Os que reclamam do carnaval, de sua elitização, pouca acessibilidade, etc., querem, no fundo, assistir aos grandes nomes de sucesso do carnaval sem ladrão, empurrão, confusão e aperto. Mas as estrelas saem em blocos, com corda, espremem o cidadão ao lado e ali é comércio, é xou pra quem está dentro da corda, pagou pra isso. Querem ver? Comprem bloco, camarote e parem de reclamar.

Aos leitores superficiais, pode até parecer que sou bipolar em minhas opiniões, mas são abordagens diferentes e digo, aqui: o carnaval de Salvador é democrático, há ações nas esferas municipal e estadual que são louváveis, tem-se como pular em nossa folia sem violência, atrás do que temos de melhor, e há muitas alternativas, diferentes sons e cores, diferentes ritmos e vozes gratuitamente, livremente, para desfrutarmos o maravilhoso carnaval que há na cidade.

Ainda há muito o que se fazer. Continuarei criticando, sem saber se estou sendo um Quixote que é aplaudido por alguns poucos que concordam e apenas ignorado e/ou incluído em listas negras para aqueles que são atingidos pelo que escrevi, como um chatinho reclamão.

Falta ainda muito para que grandes artistas tenham a devida projeção e espaço, mas os passos estão sendo dados e na queda de braço entre a ditadura das cervejas e a liberdade do folião, o Furdunço é um ponto positivo.

A única coisa evidente, pra mim, do patrocínio das cervejarias, foi a imposição da venda única; não vi vantagem alguma que fosse evidente. Ontem, na Barra, o transporte estava caótico, não vi mais banheiros que o usual e continuarei minha utopia em ver um carnaval mais organizado, pensado, com canaletas para se jogar lixo – porque temos que ser porcos e selvagens jogando latinhas e garrafas no chão? Mesmo em meio ao lixo, não consigo simplesmente jogar um objeto no meio da rua, mas aqui em Salvador faz-se isso o ano inteiro. Há muito ainda o que se conquistar.

Entretanto, o carnaval venceu. Uma pipoca animada do Baiana System – num trio de qualidade, diga-se de passagem, e num bom horário de saída – traduz bem o carnaval plural, libertário, feliz e tranquilo que sempre existiu em Salvador.

Em 25 anos de folia, quase não vi brigas, o máximo que recebi foi chega pra lá de policial militar, bebi o que eu queria – esse ano, infelizmente, não foi assim –, pulei atrás de trios sem cordas com gente de todas as cores e classes. O carnaval da Bahia é democrático e maravilhoso, sim, basta procurar, desviar do mais vendável, basta procurar tudo que Salvador tem a oferecer.

E um último recado. O chamado Axé, surgido como um termo até pejorativo, com a ascensão de Luiz Caldas, Sarajane, Gerônimo, dentre outros, vai muito bem, obrigado. Como disse Gilberto Gil, numa entrevista ao Portal UOL, o Axé é pai de muita coisa de sucesso que tem aí. Ele defende, também, as transformações, e não a crise. Seu formato, sonoridade, indústria e diversidade potencializaram diversas novas modas musicais. Ivete Sangalo, Saulo, Claudia Leite, Carlinhos Brown, ainda há muitos que mantêm o sucesso e estão muito bem, obrigado; gostem, ou não, critiquem, ou não. E por que não chamar o Baiana System de Axé? Eles são filhos de Luiz Caldas, Armandinho, Lazzo, Gerônimo, Brown, e mesmo do reggae que, em Salvador, flertou com o Axé até virar samba-reggae, por exemplo. Eu, se fosse eles, me denominaria assim. Uma atitude como essa calaria a boca dos preconceituosos, dos sectários, dos apocalípticos, e mostraria “que loucura essa mistura”.

Axé é força, energia, vitalidade. Tudo isso que caracteriza nosso carnaval. Com suas mudanças, reinvenções, transformações e sonoridades. Não percebemos o quanto existe uma campanha de difamação do carnaval de Salvador, um folclore negativo que nos põe como uma festa mercadológica, de um capitalismo selvagem, de uma pasteurização e ganância sem fim, comparando-nos com a democracia de Recife e Olinda, com o ressurgimento do carnaval de rua do Rio.

Ao ver as reações ao meu artigo anterior, percebi que podia, facilmente, cair nessa rede. Ser mais um que só fala mal dos governos, do Axé, da cidade.

Geralmente, a emenda não repercute como o soneto. Mas fica, aqui, meu recado. Amo o carnaval de Salvador e existe muita coisa boa, por aqui, sempre. Excelentes músicas, grandes cantores e bandas, bons projetos da iniciativa pública, apesar de tantas outras ações lastimáveis e prejudiciais, tendenciosas, politiqueiras e mancomunadas com a iniciativa privada e interesses escusos. Mas sobre tudo isso já falei no artigo anterior, agora é hora de ver o outro lado da moeda que, muitas vezes, cintila e vale mais.

Se duvidam, convido quem quiser a me acompanhar durante os sete dias de folia e desafio, quem gosta de carnaval, a não gostar da magia do nosso.

 

Axé. Billy Turner Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Gomes
Rapaz. é aquilo né. não sou artista, intelectual ou semelhante, sou apenas um cidadão comum fã de música e carnaval que se interessa pelas coisas da minha cidade/estado. Li os 2 textos complementares ou, talvez, antagônicos do mesmo autor, e juntando com o que ouço de meus amigos, que tb não são artistas,são pessoas comuns, digo que é muito complicado para quem não aparece na mídia ter mais destaque no carnaval. A verdade, infelizmente, é que a classe média, maior consumidora do carnaval tá pouco ligando para bloco afro,afoxé, Moraes, Armandinho e etc. Baiana System? nego responde "ah,já ouvi falar". E o porque disso? porque nao toca na Piatã e não aparece na TV Bahia daquele jeito pomposo e bajulador como só eles sabem fazer. Enfim, a mídia local naturalizou na cabeça da maioria dessas pessoas que carnaval é sinônimo de ivete,chiclete,asa, e seus assemelhados e só. A saída é usar a internet o máximo possível para contra-atacar(B.System tem feito bem esse trabalho). E outra, na Bahia tem muito crítico que se diz fã de 'veveta' e etc. Não acredito que se possa mudar as coisas dessa forma.
 Flávia
Apesar de algumas ressalvas, excelente texto. Sou tua fã! Mas vale lembrar que ontem, no meio da folia baianasystemica, houve repressão policial regada a gás lacrimogênio ou spray de pimenta. Claro que me entristece saber que os policiais são tão oprimidos quanto vários outros trabalhadores, obrigados a trabalhar enquanto nós curtimos; e alienados justamente pra reprimir seus iguais, sem reconhecê-los como tais. Enfim, só me impressionou porque foi algo relativamente grande, que parou o trio de Baiana System por alguns minutos e não foi noticiado em absolutamente nenhum lugar. Só queria deixar registrado..
 Cadu
Rapeize, bruto arrependimento né... o q foi? te ameaçaram com passar os próximos 25 anos de cordeiro? Mas o q achei mais chato e senso comum, e que demonstra um provincianismo q teima em emergir por trás dessa patina de discurso pos moderno e sofisticado, foi a paranoia / corporativa!!! "Existe uma campanha contra nosso carnaval... os concorrentes de Recife e Rio estão nos difamando...." Pelo amor de Deus... vc bebeu mta itaipava esse dias... axé!!!!!!

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