Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

Ganhar agora para perder muito mais, depois!

As horrendas barracas de cerveja do carnaval da Bahia. Foto de Dimitri Ganzelevitch.

Como todos sabem, a prefeitura de Salvador vendeu o patrocínio do carnaval para as cervejas Schin e Itaipava. Na sequência do grande negócio, o direito de compra dos foliões foi cerceado e o Centro Histórico foi emporcalhado com as barracas laranjas da Schin, entre outras coisas. A prefeitura, com essa ação, lucrou cerca R$ 14 milhões, se é que eu não estou equivocado. Foi o primeiro carnaval sem prejuízo, garantem as autoridades.

A associação do poder público com uma marca de cerveja não é novidade. O Governo do Estado da Bahia vendeu o patrocínio da Fonte Nova. O nosso estádio passou a se chamar Arena Itaipava por R$ 10 milhões anuais.

Um bom negócio?

Para quem?

O custo social do álcool no Brasil, segundo os estudos mais otimistas ligados ao Ministério da Saúde, está na casa dos R$ 800 milhões por ano. É dinheiro gasto pelo contribuinte com internações nos hospitais públicos e a medicação aplicada aos doentes.

Outros estudos levam em consideração, ainda, a repressão promovida pelo estado e a perda de produtividade do trabalhador. Assim, o custo social do álcool ultrapassa os R$ 60 bilhões anuais.

O alcoolismo está em 4º lugar na lista de doenças que mais incapacitam os trabalhadores, segundo a Previdência Social. A cirrose hepática vem crescendo de forma assustadora no país. A ligação com a violência doméstica e nas ruas também é evidente. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o álcool é a droga que mais mata no mundo.

Basta entrar no site do Ministério da saúde para ler que “A dependência de álcool, droga mais popular, atinge 12% dos adultos brasileiros. O álcool mata muito mais do que as drogas ilícitas.”

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o consumo de álcool mata 320 mil jovens e adolescentes por ano. No total, 2,5 milhões de pessoas perdem a vida por questões diretamente ligadas ao álcool. O número de mortes é maior do que o registrado para a Aids ou a tuberculose, por exemplo.

Os números e dados sobre o assunto são intermináveis. Tais números, relatórios e estudos não estão escondidos, muito pelo contrário. Estão à disposição de todos.

Mas, a prefeitura e o governo do estado parecem não saber nada sobre isso e buscam as cervejas para que patrocinem suas festas e eventos. As cervejarias lucram muito e necessitam dessa parceria com o poder público em constante busca de legitimação perante a sociedade.

Essa mesma lógica funcionava com o cigarro. Vale lembrar que até o início dos anos 2000, a indústria tabagista tinha liberdade para se promover e patrocinar o que bem entendesse. O cigarro era associado, livremente, às celebridades, atores, esportistas, artistas e até governantes. As restrições à propaganda de cigarro se tornaram, aos poucos, rigorosas em todo mundo. Hoje, parece ser inconcebível ver o cigarro sendo promovido abertamente na TV ou em campeonatos esportivos.

No Brasil, o patrocínio de atividades esportivas e culturais por empresas ligadas ao tabaco foi proibido pela Lei Federal 10.702, em 2003. Eventos de grande repercussão como Free Jazz Festival, Hollywood Rock e Carlton Dance perderam seus principais aliados.

Por trás desse movimento de cerceamento ao cigarro, está a crescente consciência de que o tabaco não faz “apenas” mal ao indivíduo em seu livre arbítrio, mas faz sangrar os cofres públicos que arca com o tratamento da população. São milhões em gastos com internações hospitalares.

Que fique claro, aqui, que eu não sou a favor da proibição da comercialização do álcool ou qualquer outra droga. Eu sou a favor da liberação da venda controlada da maconha, por exemplo, como vem acontecendo na Holanda há anos e, mais recentemente, no Uruguai e EUA. A questão não é proibir, mas de encontrar a medida correta para venda do álcool.

O que não pode ser aceito é que o poder público promova qualquer tipo de droga. A conta desse negócio já está sendo paga.

PS: Todas as cervejas mencionadas nesse texto são de péssima qualidade. Riley Dixon Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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