Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Homofobia e outros medos em tempos de Deus

Na posse do papa Francisco, uma notícia correu o mundo e disputou – em certos círculos – as atenções sobre a efeméride. O presidente do Uruguai, o novo super-herói do mundo, disse que não iria à posse porque não acreditava em Deus, nem ele, nem sua esposa, e porque o Uruguai é um Estado laico. Em seu lugar, foi o vice-presidente – este, sim, católico – representando seu país.

Outra notícia que foi manchete foram os gastos da comitiva de Dilma Roussef, que estava levando uma galera, cheia de regalias, numa verdadeira farra com o erário, para muitos. Entretanto, imaginemos o contrário. Dilma declara que não iria à posse por não acreditar em Deus e porque o Brasil é um Estado laico.

Não tenho o dom do Ifá, mas imagino que se nossa presidente tivesse tido o comportamento de Mujica, no outro dia ela seria alvejada de forma muito mais violenta, por todos os setores reacionários de nosso imenso país careta e atrasado. Da imprensa à CNBB, dos pastores evangélicos à população histericamente religiosa (seja qual for sua religião), todos ficariam indignados com tal postura.

Basta ver que a primeira coisa que qualquer político coloca em seu discurso é Deus. Toda cerimônia religiosa, eles estão lá. Aqui na Bahia, ai de algum governante se ele deixar de ir à Lavagem do Bonfim! Faz parte da cartilha, na “esquerda”, dizer que crê em Deus, porque ainda há a pecha do comunista ateu que come criancinha, e a “direita” ainda se aproveita do reacionário TFP que mantem-se vivo na cabeça de muitos.

Muito do que o Brasil precisava para avançar é emperrado pela influência nefasta das religiões, suas opiniões, influências e crenças. Crimes homofóbicos, aborto e intolerância religiosa, por exemplo, poderiam ser melhor tratados pelo Estado se não fossem obstruídos por bancadas religiosas, por uma opinião pública careta e reacionária, e pelos formadores de opinião que estão à frente de templos, igrejas, catedrais e palanques.

A não aprovação da PL122, que prevê a criminalização da homofobia, é um exemplo claro disso. Caetano Veloso fala, na letra de Haiti, do “silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina” de Carandiru. Essa frase sempre me vem à mente quanto imagino a reação de muitas pessoas em relação aos crimes homofóbicos.

“Ele procurou”. “Era uma pessoa doente”. “Está pagando pelo seu vício”. “São pessoas de comportamento duvidoso”. Ainda recaem, sobre o homossexual, rótulos dos mais diversos que amenizam para os rotuladores o peso do crime, da segregação, do preconceito e aceitação social.

No Velho Testamento, o Deus dos judeus convive com o Deus de outros povos. Moisés, Abraão, todos acreditam em seu Deus. Não há manifestação de intolerância religiosa. No Novo Testamento, Jesus Cristo sai fazendo milagres sem perguntar a crença de ninguém. Muito pelo contrário. No Evangelho de São João, capítulo 8, Cristo defende uma prostituta do apedrejamento. O que mais podemos ver, no Novo Testamento, é a busca por amar ao próximo e ao diferente: amar o semelhante é fácil. Portanto, mesmo aqueles que poderiam tentar seguir um livro antigo e repleto de preconceitos, metáforas e escrito numa outra civilização e cultura, deveriam olhar o diferente não como uma excrescência, mas alguém que ainda não foi tocado pela palavra do senhor: e por isso, merece mais amor, mais carinho e empenho na busca da iluminação.

No capítulo 23 do Evangelho segundo São Lucas, Cristo, já na cruz, totalmente esfacelado, diz, no versículo 34: “Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que fazem”. Jesus, depois de todas as provações, à beira da morte, completamente ensanguentado, ainda assim pede que Deus perdoe os que o massacraram. Ele, ali, demonstra uma imensa compreensão pelo diferente e se põe na posição de alguém que entende as fraquezas e vilezas do homem. Mais uma vez, mesmo que muitos ainda possam interpretar ao pé da letra a Bíblia, caberia a estes – por mais que a Bíblia condene alguns comportamentos humanos – uma tolerância, compreensão, amor e perdão maiores para com o diferente, o que não segue os princípios desse livro.

Apesar de diversas descobertas científicas serem rechaçadas por algumas religiões, que ainda creem nas fantasias de sua cosmogonia, usa-se o argumento, em relação aos homossexuais, que essa relação é contra a natureza, não é natural. É sabido pela ciência, entretanto, que o comportamento homossexual manifesta-se em diversos animais. Se formos pensar em algo que é contra a natureza, poderíamos, sim, pensar na religião. Nenhum animal, a não ser o humano, tem religião, no entanto vários mantêm relações homossexuais. Não é natural crer num Deus. Isso foi surgindo das necessidades de entender os fenômenos do mundo e da alma, e em cada civilização foram inventados deuses diferentes e religiões distintas; algumas poucas querendo ser, até hoje, donas da verdade e detentoras das verdades absolutas…

O Executivo, o Legislativo e o Judiciário estão repletos de caretas, reacionários e covardes. Alguns poucos debatem-se em busca de um país mais justo, mais afinado com as demandas da diversidade que compõe uma nação, mas acabam por não ter voz, não ter forças, não ter capacidade de mudar as coisas.

O recente assassinato de Kaíque Augusto é apenas mais um de uma imensa lista que vai nos entristecendo a cada dia (vale a pena ler o artigo A morte do baladeiro, de Marcio Correia Campos publicado aqui). De certa forma, somos todos responsáveis pela sua morte. Vivemos num país onde a religião ainda manda nas decisões que são urgências de uma nação.

Se você e sua religião são contra o aborto, então não faça. Contra a maconha? Não fume. Contra outra religião? Não pratique. Contra relacionamento com o mesmo sexo? Não tenha. Nossa opinião não deveria interessar ao Estado. O país não precisa saber se nós somos contra ou a favor de nada. O Brasil precisa tomar atitudes que diminuam o tráfico de drogas, as mortes e sequelas por conta de abortos clandestinos, a intolerância às religiões e seus cultos, o preconceito e violência contra os homossexuais. Como fazer isso? Através de leis. Através de ações dos governos municipais, estaduais e federal. Basta ver o exemplo aqui ao lado, no Uruguai de Mujica, e vemos a possibilidade concreta de ações propositivas em relação a assuntos urgentes como alguns citados acima.

Mas como tomar as devidas ações, se as bancadas e líderes religiosos, a grande maioria de caretas e reacionários é formadora de opinião essencial nas votações, nos meios de comunicação e nos alinhamentos políticos?

Um dos grandes nós desse país é que boa parte do que precisa ser feito não tem como ser feito por causa desse país. É a cobra mordendo o rabo.

O Brasil seria um país laico? Ai, como eu queria… Jason Kelce Authentic Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Gil Vicente Tavares
Aproveito para pedir desculpas antecipadas, pois já expus minhas ideias e não terei tempo de entrar em debates através de comentários. Aproveitem para dar uma passeada pelo site, se não conhecem, há outros articulistas e artigos bem interessantes, aqui.
 Gil Vicente Tavares
Perigosa é sua leitura equivocada, Rosangela, com todo respeito, também. Eu apenas rebato o argumento de muitos, quando rejeitam a homoafetividade dizendo ser algo contra a natureza, que foge ao natural que é o relacionamento entre sexos distintos para a reprodução. Eu digo: "Se formos pensar em algo que é contra a natureza, poderíamos, sim, pensar na religião", como poderíamos pensar na arte, na indústria, no direito, na medicina. Quanto a Vitor, algo ser moralmente válido está diretamente relacionado à moral que cada um acredita. Portanto, é decisão e escolha sua seguir certos princípios morais. O problema de algumas religiões (ou, talvez mais, de certos religiosos) é a arrogância em achar que o mundo deve ser regido por seus princípios. Ninguém tem que aceitar o que está na Bíblia, no Alcorão, nos Livros Sagrados dos Vedas ou no Mahabharata. São diversos princípios morais e sociais distintos. Segue quem quer. Quem não quiser seguir nenhum deles e nem acreditar em nada, que também o faça. Viva a liberdade, o livre arbítrio e a diversidade. abraço em todos
 Rosangela Castro
Oi Gil Vicente, vc usa argumentos perigosos, quando procura 'provar' uma naturalidade dos comportamentos homossexuais, ou lembra que os outros animais não têm religião. Com esses argumentos vc entra na esfera lógica do que vc se opõe e cai numa cilada naturalista, nós humanos somos 'pervertidos por natureza', dito de forma mais séria, somos seres de cultura e quase tudo em nós é atravessado pela cultura e desse modo dificilmente pode ser comparado aos demais animais, assim é um erro lógico comparar nosso comportamento sexual, alimentar ou qualquer que seja ao dos animais, inclua aí a religião. Se os animais produzissem cultura teriam religião. Se quiser se aprofundar um pouco mais nessa contra argumentação lhe recomendo uma leitura rápida e prazeirosa do texto a inocencia e o vício do professor Jurandir Freire Costa, segue um link de um artigo que sintetisa as ideias, mas há um livro com o mesmo nome. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73311992000100002&lng=pt&nrm=iso Respeitosamente.

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