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Jean Wyllys escreve sobre “Os pássaros de Copacabana”

foto de Fábio Abu

Quando convidado pela filósofa Márcia Tiburi para escrever o prefácio de seu Como conversar com um fascista, livro de leitura imprescindível a quem se depara com expressões do mal em seus círculos sociais, eu recorri a Hamlet, de Shakespeare, para dizer que o retorno de fantasmas e assombrações – na forma de idéias, discursos e atitudes – que fazem sofrer indivíduos e/ou coletivos exige, das pessoas comprometidas com a liberdade, a justiça, a diversidade cultural e o bem-estar social de todas e todos, o despertar e a evocação de poderosos espectros que possam combater esses fantasmas. Em outro momento, ao escrever sobre a MPBTrans, o movimento musical tocado por novos artistas que pulverizam as fronteiras de gênero em visual e performances, afirmei que este se contrapõe, em termos musicais, ao retorno dos discursos conservadores, reacionários e fundamentalistas religiosos à hegemonia política no país. Mas, em nenhuma dos dois textos, referi-me ao que motiva esses fantasmas a voltarem a nos assombrar. Só assistindo a’Os pássaros de Copacabana, de Gil Vicente Tavares, é que me dei conta de que é preciso deixar clara essa motivação. São as formas de resistência e as conquistas político-culturais de indivíduos e coletivos alijados de direitos e destituídos de dignidade humana que levam os privilegiados que gostariam de mantê-los na subalternidade a libertarem seus fantasmas medonhos. As conquistas do feminismo intensificaram discursos e atitudes machistas e misóginas; as políticas afirmativas para – e a decorrente mobilidade social de – pretos e quase-pretos multiplicaram as reações racistas por parte dos brancos ou quase-brancos; assim como a visibilidade e as conquistas culturais de LGBTs levaram a um recrudescimento da homofobia e a transfobia.

Ou seja, os fantasmas retornam com o objetivo de impedir a transformação do mundo para melhor; de manter o status quo. Mas, contra eles, os poderosos espectros sempre se levantaram, e não está sendo diferente dessa vez. Os pássaros de Copacabana é um desses espectros. Já chamaram esse tipo teatro de “político”, mas qual teatro de verdade não é político? Comprometido com esse teatro, Gil Vicente Tavares não pode silenciar nem deixar de tomar partido em defesa da liberdade e da justiça, contentando-se apenas em entreter a corte em troca de esmolas (sim, esmolas!).

Os pássaros de Copacabana põe, em cena, uma travesti suburbana, alienada e ainda em conflito com sua identidade de gênero, mas ciente de sua orientação sexual, a narrar, de maneira emocionante, suas dores e delícias; tudo isso às vésperas do Golpe Militar de 1964,  ano em que morreu Ary Barroso, de cujas canções ela é fã em função das divas que as gravaram e nas quais se espelha. Os pássaros a que o título da peça se refere são a metáfora que ela, a travesti, evoca para apontar os agentes da homofobia e da transfobia que lhes abatem, a ela e suas companheiras de infortúnio, na orla do bairro mais famoso do Rio de Janeiro: são os fantasmas que agora retornam em bando e violentos como os medonhos pássaros de Hitchcock.

Convidado a assistir a um ensaio aberto da peça, despido dos elementos que ajudam a compor a cena teatral (figurino, cenário, maquiagem, luz e trilha sonora), com apenas o ator Marcelo Praddo no palco iluminado pela luz do dia que entrava pelas janelas do abandonado Teatro XVIII (o que mostra que, ao teatro, bastam o ator e o texto – e, nesse caso, o ator e o texto são excepcionais!), chorei copiosamente. Chorei porque, mais do que tratar de uma questão histórico-social por meio do testemunho de uma travesti, Os pássaros de Copacabana trata de algo que sobreviverá enquanto houver opressores e oprimidos no mundo: a dor do oprimido não em apenas ser alijado em direitos e despido de humanidade, mas, sobretudo, em não ser amado e ser impedido de amar a si mesmo como é pelos que lhe odeiam e oprimem; e trata também de algo que igualmente terá a duração da existência de exploradores e explorados ou enganadores e enganados ou escravizadores e escravizados: a resistência à opressão, à exploração, à enganação e à escravidão – e essa resistência se expressa de diversas formas e mesmo em circunstâncias adversas e ainda que, a princípio, não seja percebida como tal. Chorei, portanto, porque a peça trata de mim, de nós, as assim chamadas “minorias”; porque a peça, antes de chegar às questões coletivas, interpela as individuais; expõe os tijolos de que são feitos nossos edifícios; mostra como fomos ensinados a odiar a nós mesmos e, ao mesmo tempo, implorar pelo amor dos que nos odeiam e nos ensinaram a nos odiar; mas, em contrapartida, Os pássaros de Copacabana deixa claro que a resistência a esse estratagema do macho-adulto-branco-sempre-no-comando é a reconstrução desse edifício, ainda que com o mesmo material, mas, doravante, com a planta e a fachada que queremos e nos deixam mais felizes. Ainda que essa reconstrução dure a vida de cada ou mesmo que  não se conclua antes da morte, iniciá-la é o único caminho para a liberdade, a felicidade e o amor, mesmo que a felicidade seja cara e a liberdade pequena, pois, o amor sempre vale a pena.

Os pássaros de Copacabana apenas aparentemente aborda o passado. Texto e encenação interpelam o que, do passado, está presente entre e pode comprometer negativamente nosso futuro. Trata-se de uma advertência e um ato de resistência!

 

O espetáculo está em cartaz aos sábados e domingos, sempre às 20h, no Teatro Molière da Aliança Francesa – Ladeira da Barra.

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