Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Leviatã, crime e castigo e a mulher

Costumo dizer que, pra mim, Crime e castigo é o maior romance da história com o pior final de todos os tempos. Fiquei fascinado com a escrita de Dostoiévski, a forma como ele empurra a história com tensão, suspense e dando rasteira o tempo todo na gente. Mas uma rasteira que não são aquelas surpresas e reviravoltas mirabolantes de roteiros roliudianos que impressionam a todos com acontecimentos, descobertas surpreendentes. É justamente o contrário. O gênio russo sugere, a todo momento, que haverá o castigo para o crime, e ele nunca acontece.

Subitamente, no entanto, quando achamos que Raskólnikov será inocentado do crime que deveras cometeu, numa cena genial, ele se entrega. Nesse momento, tive vontade de queimar o livro, chutar a porta do armário, quase ligo a TV. Li o epílogo com raiva. A misteriosa alma russa denunciava-se na culpa católica e, mais que a punição pelas mãos do outro – como nas heroicas ações estadunidenses – havia a autopunição.

Depois de assistir a um filme sessão da tarde/comédia da vida privada/jogando pra torcida indicado ao Oscar de filme estrangeiro (não direi qual é nem sob tortura, pois o anátema da contemporaneidade é ir contra o lugar comum), resolvi assistir aos outros indicados. Ainda submeto-me a essa sessão por esta reservar, ao meu ver, filmes bons e até ótimos em suas listas.

Definitivamente, a estética do leste europeu combina mais comigo. Ida, filme polonês de Pawe? Pawlikowski, provocou em mim o que mais acho especial na arte. Saí achando o filme legal, mas ao começar a falar sobre o filme, foram desvelando-se ideias, interpretações, o filme não acabou nos créditos finais, ao contrário da grande maioria da produção mundial que, ao levantar da poltrona, no máximo incita-nos a discutir um gostei ou não gostei, papo geralmente chato e improdutivo, pois não desenvolve a conversa em termos estéticos e éticos que, penso eu, são princípio e finalidade da arte (qualidade e técnica, pra mim, são obrigações primevas na criação).

No entanto, Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, provocou efeito durante o próprio filme, de forma muito parecida com Crime e castigo. Naquele tempo russo, com atores russos, diálogos russos e cenas russas, mistura que nos legou boa parte das grandes obras de arte da literatura, do teatro e do cinema, o filme nos surpreende e nos deixa em estado de suspensão o tempo todo. Deixa-me, ao menos (o “nos” é modo de falar). Ficamos (fico) esperando, supondo o que vai acontecer; as cenas, imagens, ações nos levam a isso, e nada acontece, ou o que acontece nos dá uma rasteira. Numa das sequências, que me tiraram um riso maléfico do rosto e um filadaputa da mente, uma personagem, depois de todo um conflito, acorda, de madrugada, tira discretamente o braço do marido, se arruma e sai. Prontamente, somos (sou) incitados a achar que ela vai embora de casa, vai dar uma norahelmada: e nada. Ela foi trabalhar, apenas. Tudo no filme é um pouco como a fotografia do filme, que traduz a atmosfera tanto climática quanto sentimental. Tudo é penumbra, suspense, tensão. É o lusco-fusco do fim de tarde, hora indefinida, onde nem a luz do sol e nem a de casa satisfazem, nem o natural e nem o artificial resolvem a atmosfera; clima e sentimento (bem, elogiar atores russos me parece chover no molhado, e está, implícito, o tempo todo, os elogios à direção e roteiro do filme, aqui).

O filme foi criando, em mim, a expectativa de que tudo fosse por caminhos inesperados porque não surpreendentes e, paradoxalmente, tão óbvios, e isso foi me dando um entusiasmo, uma euforia que sempre sinto com boa arte. Mas esse outro russo me veio com o momento crimecastiguiano.

Lembro que A vida dos outros foi um filme que me marcou muito. Por um lado, porque é um filmaço, sem dúvida, mas com uma mácula imperdoável, pra mim, e que poderia ser substituída por outra solução no roteiro.

Numa das canções que fiz para o espetáculo Destinatário desconhecido, em parceria com Jarbas Bittencourt, há uma chamada Canção de Grisella, onde numa das estrofes ela diz: “Uma mulher só tem culpa, não é personagem / De uma tragédia de amor, ela trai e é algoz / Vocês, os homens nunca fazem a sacanagem / Desde a origem a culpa recai sobre nós”.

Em A vida dos outros, a grande culpada é a fraca, frágil mulher, que desencadeia a desgraça e se autopune, funcionando quase que como um deus-ex-machina. Em Leviatã, acontece o mesmo. Enquanto Raskólnikov, até se autopunir, filosofa sobre o assassinato, buscando em grandes homens o crime como algo digno, provocando até no leitor uma dúvida sobre a expiação, tanto em A vida dos outros, quanto Leviatã e tantas outras obras (Ida também merece créditos quanto a isso), a mulher não filosofa sobre seu ato de traição, ligado, claro, ao sexo. Parece que nós, frágeis e fracos homens, queremos sempre botar um enorme peso na consciência feminina, ancorados na lei romana de que mater semper certa est (e pater semper incertus est), ancorados na tradição mitológica e religiosa da maldição feminina. Um cheiro de machismo, misoginia e tradição religiosa de preconceito contra a mulher paira no ar.

Apesar de detestar o final do romance de Dostoiévski, meu encanto por Crime e castigo ainda me faz elegê-lo uma das grandes obras da humanidade. Grandes obras não se fazem todo dia. No cinema, igualmente. Mesmo assim, A vida dos outros e Leviatã são dois filmes muito bons, cheios de méritos. Não posso prever, obviamente, se virarão clássicos da década, daqui a tempos (talvez o primeiro tenha mais chance que o segundo, que vai depender da mídia da conquista de um Oscar, que, não tem jeito, catapulta o filme significativamente).

No entanto, as três obras decepcionam-me em sua culpa e autopunição; os dois filmes por trazerem, ainda, um peso de culpa e fragilidade sobre a mulher. Isso me incomoda muito.

Faltam apenas dois filmes pra ver a lista dos estrangeiros desse ano. Mas se eu não conseguir vê-los, não vou me autopunir; minha atitude não irá prejudicar ninguém. Mesmo porque não sou mulher, esse maldito ser que desde o paraíso faz besteira com a serpente. Tommy McDonald Authentic Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Ricardo
Se gosta de crime e castigo devia assistir o filme "Norte, o fim da história".

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