Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Longa jornada dia afora, ou: Harildo e seus símbolos

No final do século XIX, principalmente na França, um embate entre o Naturalismo e o Simbolismo inaugurou o teatro moderno na Europa. De um lado, alguns encenadores preparavam o terreno para Stanislavski e seu trabalho realista e quase ilusionista de teatro, que vai encontrar afinidades e material inspirador nas peças de Tchekhov. Do outro, o advento da iluminação elétrica, da busca de uma teatralidade e espetacularidade perdidas, a influência da pintura, da poesia e da música que abriam as portas para os precursores das vanguardas históricas.

O simbolismo pretendeu, com novos ares, buscar toda uma tradição teatral que o século XIX, com seu cientificismo, e sua busca de um psicologismo e uma causalidade para tudo, estava enterrando sob o manto da razão. Vários “ismos” vieram depois e o teatro nunca mais foi o mesmo. Contudo, a pesquisa de Stanislavski, principalmente com o trabalho do ator, marcou o século XX e tem sido referência recorrente entre os principais artistas que se dedicaram e se dedicam ao trabalho da interpretação para o teatro.

Na dramaturgia, Ibsen, Strindberg e Tchekhov, o trio de ouro do realismo, escapou para o simbolismo em suas obras; vale notar que mesmo as peças dirigidas de forma realista por Stanislavski foram interpretadas como poéticas, líricas, impressionistas, por Meyerhold e muitos encenadores desde então.

A explosão da cena e da dramaturgia venceu o Realismo e o Naturalismo no teatro. Diversas vertentes, linguagens, encenadores, estilos, escolas, “ismos” e experimentos transformaram o palco moderno num espaço de possibilidades e estéticas mis.

Entretanto, notadamente nos EUA, uma dramaturgia degenerada do Realismo e Naturalismo foi solidificada através de nomes como Eugene O’Neill e Tennessee Williams. Degenerou-se também a pesquisa de Stanislavski, e uma ideia de “método”, “fórmula”, regra de interpretação: havia um forte teor psicologizante e até mesmo psicanalítico. Há que se notar que o encenador e ator russo não tinha conhecimento profundo da psicologia e psicanálise ao pensar seus experimentos, e essa deturpação culminou em técnicas como a do Actor’s Studio. Os estadunidenses pareciam fazer com Stanislavski o mesmo desserviço que os franceses fizeram, séculos antes, com Aristóteles e sua poética; criando regras e a antipatia dos ignorantes que, assim como rechaçam hoje o encenador e ator russo, rechaçavam o tal drama aristotélico.

*             *             *

Assisti, semana passada, ao espetáculo Longa jornada noite adentro. O texto de O’Neill, como a maioria acachapante da dramaturgia estadunidense, era um convite à minha não ida. Dois dias no cotidiano de uma família de atores e alcoólatras frustrados, uma mãe viciada em morfina, numa pequena cidade dos EUA. Ela enlouquece, ao final da peça, enquanto veem-se os homens bêbados e arrasados pela notícia do diagnóstico de tuberculose do filho mais novo.

Tema chato, datado, ainda arraigado naquele drama burguês do século XIX, um teatro velho, desinteressante, ultrapassado, pra mim. Um pouco como aqueles filmes de apartamento, cinema que chamamos drama: caretão.

Contudo, havia três grandes motivos para eu vencer minha resistência com O’Neill: Harildo Déda, o diretor; Eduardo Tudella, o cenógrafo e iluminador; e Joana Schnitman, a atriz. Três grandes motivos que foram três grandes alegrias para mim.

O cenário de Tudella é impecável: respeita as regras e necessidades para a atuação nos moldes realistas, mas dá toques de requinte que ultrapassam o mero mobiliamento de uma residência. Há uma mesa, com um abajur desligado, e duas cadeiras diferentes. Uma delas combinando com outra encostada à parede, a outra igual à que fica na escrivaninha do canto.

Por que não colocar duas cadeiras combinando na mesa? Ou quatro cadeiras na mesa? As peças desse quebra-cabeça, os personagens, não se combinam. Estão sempre de dois em dois, em contraste e conflito. As janelas opacas mostram que o nevoeiro, lá fora, está, na verdade, isolando a casa. Não respiramos fora dela, estamos presos nela, também. Apenas uma sacada muda a cor da cena e fica sempre acesa à direita: e ela dá para o público, não há horizonte, é apertada e oprime o ator, é um palco de ilusões ou coxia de introspecção. A madeira das paredes e móveis da sala lembra que ali pode ser um navio encalhado: as turnês do patriarca, ator que fez sucesso anos antes; a vida própria abdicada pela esposa, para viver com ele; e os filhos, sem rumo, à deriva, enquanto ouve-se, lá fora, um som de um barco. Vários elementos simbolizando sentimentos e sensação, como a luz também fará. E note-se que mesmo O’Neill fugiu para o simbolismo evidente em peças como Onde há uma cruz, onde elementos que percebemos em Longa jornada… tornam-se mais evidentes.

A iluminação, que muitos apenas analisarão como realista, é de uma sensibilidade notável. Vai além do movimento de cores compondo dia, noite, entardecer… Quando o pai sai acendendo as luzes da casa, que ele tanto resistia a fazer por economia, rapidamente me veio o fim de Os espectros, de Ibsen, onde a luz artificial da cena final, enquanto nada é revelado, é substituída pela luz do sol que ofusca as vistas de um personagem, que definha pela revelação de sua sífilis herdada do pai, enquanto a mãe vê a luz da verdade como um incêndio em sua alma.

Em Longa jornada…, a luz faz o caminho inverso. Do crepúsculo do dia (que é também o dos personagens), as luzes são acesas e entram de forma amarelada, ao final, com uma alma de vermelho (como gosta de falar o iluminador), dando um tom romântico pra cena. Cheguei a pensar que Tudella havia se rendido ao sentimentalismo ou à lógica fácil de criação da luz: acende-se uma luz incandescente artificial, logo: põe-se uma luz âmbar. Entretanto, uma rasteira. Há um cinismo nessa luz, apenas a artificialidade da cena resiste enquanto todos se destroem. É uma luz “cênica” para uma família de teatro. Faz-se uma cena artificial, histriônica, para sua própria desgraça. Além dessa, há duas luzes especiais. Uma delas é a luz que parece vir de um barco, ao fim da peça, juntamente com o som que ouvimos como sinais para o começo e retorno do intervalo: “‘Stamos em pleno mar…”? Ou encalhados, como disse acima? Completa-se, com essa, a luz, agora teatral, que ilumina os atores, quando estes, em determinado momento, dizem um trecho de seu texto para a plateia.

Como? Para a plateia? Quebrando a quarta parede? Sim. É Harildo, é século XXI dialogando com o XX, o XIX, o V antes de Cristo. Acima de tudo, é Harildo trabalhando com os atores todo seu conhecimento e técnica, todo seu aprendizado e sua maestria no trato com o ator e sua relação com o texto e a cena.

O elenco da peça era: Antônio Fábio, Vinicius Martins, Patrícia Oliveira, Joana Schnitman e Wanderley Meira. A direção precisa, bem cuidada, tecnicamente refinada, aliada ao lado “mestre de atores” que notabilizou Harildo como referência da cidade, conseguiu equalizar a cena mesmo com a variação de talentos e experiências dos atores. Entrementes, todos estão de parabéns por estabelecer um conjunto e uma cena em sintonia e afinação. Sobre os dois últimos citados, entretanto, algo de especial pude ver em cena.

Joana eu já conhecia. De ver e dirigir. Na verdade, juntando ela, Harildo, Tudella, Luciano Bahia – que fez a trilha –, e Claudete Eloy, figurinos, estava ali minha equipe de Quartett, minha peça de formatura que acabou sendo minha primeira experiência profissional, também. Na época, o trabalho dela de atriz foi bastante comentado, rendeu-lhe indicação, mas ela está na longa lista noite adentro dos esquecidos das premiações baianas. A despeito disso tudo, vale ressaltar que a sensibilidade com que Harildo conduziu Joana, e a forma como ela captou a direção do mestre, a personagem, e a atmosfera da peça, são dignas de nota.

Digno de nota, também, é o trabalho de Wanderley. Conhecia-o de uma peça aqui, outra acolá, não lhe dava muito crédito e via-o em alguns espetáculos sem projeção. Era apenas mais um atuando pelos palcos da cidade. Tal não foi minha surpresa ao ver um ator inteiro, senhor de si, uma interpretação segura, texto bem-dito, sentimentos bem conduzidos, prontidão, instalação e segurança notáveis. Nuances, detalhes, filigranas que coroaram a atuação desse ator num trabalho difícil de se ver em palcos de Salvador.

Difícil de se ver em Salvador. Essa frase me suscita diversos pensamentos. Como boa província, nossa ignorância faz-nos perpetuar folclores como esse de “teatro velho”, “museu”, “peça realista” (que na Bahia é palavrão), e por aí vai. Acho, mesmo, que O’Neill não me interessa, bem como a estética que ele inspira. Acho, mesmo, que Harildo – a despeito de algumas “ousadias” –, opta por uma montagem tradicional, até mesmo antiga, anacrônica.

É muito comum vermos artistas falando em liberdade de criação. Contudo, pode-se voltar aos rituais primitivos, pode-se voltar ao teatro medieval, simbolista, pode-se apoiar, sem consistência, um trabalho em referências e técnicas de teatro e corpo do mundo inteiro e de todas as épocas; contanto que não seja realismo, anátema imperdoável nos palcos de Salvador. Falo de Salvador porque muitos lugares já amadureceram suficientemente pra não ficar numa patrulha estética. Essa ânsia baiana de querer fazer o novo e contestar o velho, sem fundamento e sem consistência, tem nos deixado na retaguarda do teatro, muitas vezes. Há espaço para tudo, no teatro: esse foi o legado do século XX.

O próprio Harildo diz que não acredita em iconoclasta que não foi santeiro, e todos os vanguardistas, todos os inventores, tiveram sua base sólida e fortificada pelos seus antecessores, pelos seus mestres, mesmo que para negá-los. Lembro sempre das audições de Pina Bausch, todo mundo na barra fazendo balé.

Longa jornada noite adentro é uma lição de teatro. Os artistas da cidade deveriam assistir como aula, adentrar esse universo como referência. Pintores contemporâneos continuam vendo exposições de mestres renascentistas, barrocos, impressionistas: sempre terão o que aprender daquelas técnicas, daqueles traços e estilos. Mesmo que para destruí-los violentamente, ou para se inspirar neles e criar.

Seria uma lição para Salvador se Harildo, Tudella, Joana, Wanderley e o espetáculo fossem premiados. Curiosamente, nenhum deles premiados até hoje. Harildo, na função de diretor, jamais ganhou; como ator, deixou de ganhar quando merecia e também ganhou sem merecer, o que não vem ao caso e é algo recorrente na cidade. Seriam 5 prêmios merecidos e simbólicos, não só naturais.

Seria mais do que recomendável a Escola de Teatro manter essa peça por seis meses em cartaz, dobrando temporada com peças de formatura, ou seja lá o quê. Falta-nos referência e para a Escola de Teatro seria uma boa ter essa peça em destaque. Já não basta as temporadas curtas e apressadas do teatro profissional? A peça poderia durar até a próxima montagem da Cia. De Teatro da UFBA.

Como disse e repeti, o texto de O’Neill não me interessa. Quem acompanha minimamente o que escrevo e dirijo, sabe que passo ao largo do autor e da estética que ele suscita[1]. Pelo contrário, recebo muitas críticas por não gostar da maioria absoluta do cinema e da dramaturgia estadunidense.

Contudo, lembro, nessas horas, do meu espanto ao ver a devoção de Glauber Rocha para com Luchino Visconti. Não é uma questão de estilo, estética, forma. “It’s all jazz”, diria Leonard Bernstein. É tudo arte: importa ser bem realizada, bem cuidada, bem feita. E isso, Harildo e a equipe de Longa jornada noite adentro souberam fazer muito bem.



[1] Há que se registrar o vexatório comentário que soube a respeito d’Os javalis que circulou por aí, de que eu era um diretor realista, provando nossa ignorância e despreparo na relação com a tradição e a contemporaneidade.

  John Tavares Womens Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Nós, os artistas invisíveis da Bahia | Teatro NU
[...] a última de Longa jornada noite adentro. O premiado espetáculo, sobre o qual escrevi, aqui no site, merecia ser um dos grandes acontecimentos do mês de julho, na cidade, e pouca gente tomou [...]
 dado ferreira
Muito bom o artigo sobre o espetáculo. Inclusive assisti no mesmo dia em que você, e pude ser agraciado com essa verdadeira aula que o mestre Harildo nos deu. O'Neill de fato, tem suas nuances enfadonhas porém considero este texto muito intenso e profundo...Montar O'Neill é para poucos e se não me engano o texto original, que por sinal é bastante montado nos EUA, tem aproximadamente 4 horas de duração. "Longa jornada noite adentro" foi o texto que O'Neill deixou em testamento para sua esposa, onde a personagem Edmund é o próprio O'Neill (Lembra da estória da malária? Da tuberculose? Do tratamento no sanatório? Pois bem, tudo isso aconteceu com o próprio autor.) Vale ressaltar que O'Neill foi o primeiro dramaturgo americano a receber o premio Nobel de literatura por sua obra, onde na maioria das vezes se vê um ideal de tragédia e profundidade muito próprios. Suas personagens sempre ébrias, em suspenção da realidade e vivendo de enganos, com seus "mundos" particulares despedaçados, serviram sem sombra de dúvidas como inspiração para outros grandes autores, a exemplo do nosso grande Nelson Rodrigues...claro que gosto é subjetivo, cada um tem o seu não é mesmo? rsrsrsr! Eu por exemplo não suporto Shakespeare, porém não posso deixa-lo de lado... Muito obrigado pela explanação muito bem alinhavada sobre o espetáculo. Escreva mais sobre nossas peças, a cena teatral baiana precisa disso. Abraços.
 Claudete Eloy de Souza
Querido Gil Adorei o seu artigo sobre o Espetáculo "Longa Jornada Noite Adentro". Quanto as cadeiras diferentes no cenário de Tudella eu tenho uma explicação que eu nem sei se foi a intenção dele mas é fruto da minha observação em anos de Bahia convivendo com pessoas de classe média ou de classe alta porém sovina que é a seguinte: - Quando um móvel ou uma toalha ou um lençol estão velhos levam para a casa da praia porque irão usar só durante um período e depois se invadirem a casa quando estiverem ausentes, tanto faz, era tudo velho mesmo. Mary diz que aquilo nunca pareceu um lar e em outros diálogos com um dos filhos Tyrone é acusado de ser sovina. Eu entendi assim. Beijo.

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