Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

Meu querido vizinho do Porto da Barra

 

Dedicado à Professora Odete Dourado

De navio, o famoso Ita, Caymmi deixou Salvador em 1938 em direção ao Rio de Janeiro. Durante os primeiros quatrocentos anos da cidade, quase todas as pessoas que nela chegavam e dela partiam, o faziam pelo porto. Até a Segunda Guerra Mundial, vindo do Oceano Atlântico ou dos rios do Recôncavo, as embarcações chegavam à Baía de Todos os Santos diante de uma paisagem: a cidade de Salvador, com edificações predominantemente brancas ou desbotadas de no máximo 5 pavimentos, definindo claramente a divisão entre Cidade Alta e Baixa, acompanhando a falha geológica, em um trecho mais ou menos limitado ao sul pelo Farol da Barra e ao Norte pela Igreja do Bomfim. Entre o céu e o mar, e mesmo na região mais central, mais densamente construída, entre o Carmo e a Praça Castro Alves, esta urbanização ainda fortemente linear, no sentido da falha, acontecia em contraste com uma vegetação exuberante e monotonamente verde.

Portanto, vista sob o ângulo da paisagem urbana, a representação que Walt Disney fez da cidade em Você já foi à Bahia? não parece pouco realista. E não é por acaso que ali por volta da Segunda Guerra Mundial, quando é traçado o primeiro plano moderno para a cidade, fica estabelecido o limite de verticalização na Cidade Baixa para que não ficasse comprometida esta visão do mar para a área do Centro Antigo, em especial exatamente aquela compreendida entre o Carmo e a Praça Castro Alves.

Nesta paisagem, o conjunto de edifícios ao sul formado pelos Fortes de Santo Antônio (Farol da Barra), Santa Maria e São Diogo, junto com as igrejas de Santo Antônio da Barra e da Vitória desempenhavam um importante papel de emolduramento da cidade, destacados contra o fundo já referido de vegetação exuberante e casario de poucos andares e esparso, o mesmo acontecendo ao norte com a Igreja do Bomfim, a Igreja da Boa Viagem e o conjunto de Igreja e Forte de Monte Serrat. Edifícios pontuais, perceptíveis do mar e que marcavam na paisagem os limites de área urbanizada na época colonial e século XIX.

Quem já teve a chance de ver uma foto da Pituba feita do mar – um grande paredão de edifícios habitacionais indistintos – pode perceber que o violento processo de expansão urbana, que reduziu a área ocupada pelo centro antigo no máximo a 5% do total da área urbanizada na cidade, fez com que nenhum dos valores da paisagem histórica que se pretendia preservar nos anos 40 do século passado tenha sobrevivido, à exceção do já aqui mencionado limite de verticalização na área mais restrita do Centro Antigo.

O tipo de relação espacial que o Edifício Oceania, mais um elemento da importante virada a partir dos anos 40 do século passado, estabelece com o Farol da Barra, é com o passar das décadas ampliado em uma cidade onde o desenvolvimento da ocupação do território desconhece a noção de desenho urbano: uma grande massa edificada, descontrolada, anulando inclusive toda a diferença topográfica entre morros e vales, formou um paredão maciço, para muito além dos limites que os emolduramentos históricos determinavam, sem intervalos para áreas verdes ou rios, sequer distinção de profundidade: Salvador, vista do mar, é uma grande parede sem relevo, em todos os sentidos, situação levada às últimas consequências no corredor da Vitória.

Dois exemplos notáveis: o primeiro deles, o da igreja da Vitória, onde em sua vizinhança imediata está sendo construído um espigão com dezenas de andares. Em implantação semelhante à antiga Sé, demolida em 1933, e sendo a segunda igreja mais antiga do país, é difícil imaginar outro objeto que tivesse que ser protegido de construção de dimensões colossais, como é a que agora lhe é vizinha, se o valor de paisagem como elemento estruturante da ambiência tivesse alguma relevância. O segundo, bem mais prosaico, é o Forte de São Pedro, onde uma linha de edifícios residenciais com mais de 15 andares, construídos nos anos 70 do século passado, não somente o retira da linha de paisagem para o mar, senão também o transforma em um curioso objeto do passado, completamente desfuncionalizado, no meio de vias de trânsito do centro da cidade. Para servir de contraponto ilustrativo, o Forte de Santo Antônio além do Carmo ainda guarda, no limite norte do Centro Antigo, a implantação que permite hoje a compreensão de seu uso na história da cidade.

No grande, maciço, caótico e indistinto paredão que se formou a partir dos primeiros quarteirões por trás de toda a área fora do limite do Centro Antigo, os fortes e igrejas, agora pequenos e desprovidos de contraste de cor ou textura com o fundo, não possuem mais nenhum destaque na paisagem. A verdade é que para poder perceber edifícios como o Farol da Barra ou o Forte de Monte Serrat como elementos destacados geograficamente, avançados sobre o mar, é preciso que o observador esteja já muito próximo à costa, olhando-os praticamente de maneira tangencial à linha do mar. Ao mínimo distanciamento da costa, os fortes e as igrejas somem completamente na imagem caótica e indiferenciada estabelecida por trás deles.

Mas nos últimos 70 anos, é mínimo o número de pessoas que tenha chegado ou deixado Salvador por mar. A imagem da cidade, a paisagem histórica a ser preservada, perdeu muito o seu sentido de uso. Rodovia e Aeroporto são os principais meios de conexão da cidade com outros lugares e ambos estão a ela articulados – até que um dia venha a ser construída a ponte para Itaparica – em situações muito distantes do centro histórico. Efetivamente, na cidade que passou a ser um dos pólos de atração do turismo no país, a percepção dos  três Fortes na Barra (Santo Antônio, Santa Maria e São Diogo), da Igreja de Santo Antônio no mesmo bairro e do Forte e Igreja de Monte Serrat na Península Itapagipana sofreu um radical giro de 180 graus: estas edificações, que compõem o obrigatório roteiro turístico na cidade, passaram a ser vistas essencialmente da cidade para o mar: em primeiro plano, as edificações, ao fundo o mar e o céu, uma descrição que deve corresponder a 98% das imagens feitas destes monumentos. Assim que, em termos paisagísticos, a ambiência mais importante a ser protegida é hoje a da área coberta pelo mar nas imediações dos referidos monumentos, protegendo o seu entorno tanto de construções como atracadouros ou píeres ou mesmo usos impróprios, como depósito de dejetos no subterrâneo.

Ainda assim, há que ser feita a pergunta sobre as razões pelas quais em uma cidade sem qualquer apreço à paisagem, ali naquela situação específica do Porto da Barra, na elevação que abriga a igreja de Santo Antônio e o Forte de São Diogo, restem qualidades suficientes para a justa disputa encabeçada pelo Instituto dos Arquitetos e que alcançou as manchetes dos jornais em todo o país. Se há ainda um sentido de paisagem nesta escala restrita do lugar, uma vez que no conjunto urbano já não existe, este se deve à insólita existência da residência da família Mariani. Situada na extensão geográfica do morro onde se encontra a igreja de Santo Antônio, separada dela e do vizinho Cemitério dos Ingleses pela Ladeira da Barra, esta casa representa hoje a maior área verde em toda a vizinhança e é sua específica inserção na topografia, isolada no centro de uma área de mata fechada em cota 8 metros superior à da implantação da igreja, que garante sua privacidade e exclusividade. Como parte da legislação que protege os monumentos históricos, a residência dos Mariani serve como mais um exemplo de como, sem o compromisso do desenho urbano, a lógica das poligonais de preservação a partir de monumentos como elemento central e seu entorno como secundário é extremamente frágil.

Dois edifícios na imediata vizinhança da residência dos Mariani, que está implantada na cota 45, aprovados nos últimos vinte anos, são a prova de que não tem havido um maior rigor quanto a preservação do valor espacial que faz com que esta residência ali permaneça, exatamente por já estarem afastados da igreja e do forte, entretanto imediatamente vizinhos da residência dos Mariani. O primeiro é uma torre com mais de 60 metros, situada na Ladeira da Barra esquina com a Presidente Kennedy, facilmente reconhecida pelas varandas em curva. Além de sua extrema proximidade com o Cemitério dos Ingleses, ela está implantada na cota 32, ou seja, seus andares superiores, ainda que com aberturas voltadas para a vista da Baía de Todos os Santos, estão muito acima da residência dos Mariani. O outro é o Residencial Paul Cezanne, na esquina das ruas João Pondé com Princesa Isabel, uma torre com mais de 75 metros de altura, implantada na cota 12, literalmente encostada na face oposta do morro, e cujos últimos andares podem ser vistos em destaque desde a Baía de Todos os Santos, ou seja, eles estão também muito acima da residência dos Mariani. Estes dois edifícios já eliminam hoje a privacidade que a casa tinha graças a sua situação topográfica, desenvolvendo-se ambos aproximadamente trinta metros acima dela, pondo em evidente risco o valor daí decorrente. Sem os valores garantidos pelo senso comum através do desenho urbano, está criada a situação paradoxal de que para defender a escala restrita da paisagem dos monumentos históricos no Porto da Barra, é necessário defender a exclusividade da mais valorizada residência na cidade.

Daí que, para a preservação da paisagem da igreja de Santo Antônio e do Forte de São Diogo hoje se tornou muito mais importante a preservação do entorno da residência dos Mariani, já fortemente ameaçado. Para além da poligonal de entorno imediato, um caso como este necessitaria de uma compreensão tridimensional semelhante à de um cone de aproximação aos aeroportos, que limita a altura das construções proporcionalmente à distância da pista de pouso, que viesse a estabelecer uma compreensão de paisagem e conjunto. É preciso retirar a atenção individualizada dada ao assim chamado monumento, mesmo que acompanhado de poligonal, e compreender a sensibilidade através de uma geometria muito mais complexa. E aqui se percebe finalmente – e mais uma vez – que desenho urbano é algo que nunca serviu de instrumento efetivo da ordenação espacial da cidade.

E é verdade também que a ambiência de um monumento histórico não se reduz à paisagem. Trânsito de veículos automotores, usos poluentes da atmosfera, como alguns tipos de fábricas, usos que determinem um grande fluxo de pessoas, eliminação do verde em áreas públicas, má iluminação, entre outros elementos, são componentes ambientais que podem muito bem levar a um processo de aceleração de deterioração e mesmo destruição total de monumentos. No caso da Barra, chama a atenção o fato de o bairro ter recebido uma grande intervenção que transformou em área para pedestres uma grande extensão de suas ruas antes destinadas ao tráfego de veículos automotores. O edifício de 100 metros de altura que ocupou as manchetes dos últimos dias oferece 4 vagas de garagem para cada unidade residencial, ali exatamente no início da nova área de pedestres.

Se em qualquer lugar da cidade, e provavelmente em qualquer lugar do mundo, oferecer tantas vagas de garagem seria a essência da contramão da história, na cidade que ainda está tapando rios aprova-se tal aberração na vizinhança imediata da sua maior área de pedestres como se normalidade fosse. O completo descompasso entre a obra feita no espaço das ruas e a falta de um projeto de desenho urbano para a Barra já demonstrei em outro artigo, A Barra Arquitetônica. Mas enquanto a cidade, com as suas limitações geográficas específicas e alta densidade, insistir esquizofrenicamente em incentivar o trânsito de veículos automotores individuais, tratar de ambiência a partir da proximidade física entre objetos de diferentes tamanhos, vista como um problema com base em um valor de paisagem, tende a ser debate inócuo, afinal o valor de paisagem, histórica ou não, entendido na escala da cidade, é há muito inexistente.

Se o que se pretende é discutir os padrões de qualidade para a já em curso verticalização da orla, é preciso ter claro que, em qualquer trecho da orla, edifício com quatro vagas de garagem por unidade habitacional será sempre motor de destruição ambiental. E é deste e de outros aspectos que também deveria tratar a noção de ambiência, especialmente no Porto da Barra. O atual debate evidencia a ausência de um projeto de bairro, onde, articulados, suas edificações e usos com os seus espaços públicos, seus monumentos históricos e seus espaços naturais e de lazer estabeleçam um contínuo sólido e agradável para as atividades de moradores e visitantes. Monumentos históricos e praias entretanto têm pouco a ganhar se a defesa de sua ambiência se apoia em valores meramente nostálgicos e arbitrários ou instrumentos de preservação sem articulação com o desenho urbano. Mas antes é preciso, claramente, que este exista.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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