Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Meu tio Louzeiro

Recentemente, a obra de José Louzeiro voltou à minha cabeceira. Dirigindo “Roberto Zucco” como formatura de alunos da Escola de Teatro da UFBA, revisitei “Lúcio Flávio, passageiro da agonia”. Lendo o prefácio, que me entusiasmava, vi ao final a assinatura de seu cunhado, Ildásio Tavares.

Sim, mesmo sendo o marido de minha tia, Louzeiro era muito meu tio. Amava sair da Senador Correia e ir ali pra perto, quase em frente ao Fluminense, visitar a casa de meu tio Louzeiro.

Como já havia escrito por aí, antes, minha tia Nana me seduzia com carrinhos, brinquedos, lanches, mas eu ia direto pro escritório de meu tio, ficar lá vendo ele escrever, e, nas pausas que por vezes demoravam uma eternidade, falar comigo com aquela voz fina e aquele olho apertado.

Os cartazes de “Pixote”, “Lúcio Flávio”, “O homem da capa preta”, livros seus que viraram filmes, inclusive com sua participação em roteiros, dividiam a casa – fartura de livros que me remetia imediatamente a meu pai, seu cunhado prefaciador – com a famosa bandeira de Henfil (que eu sempre encarava horas, quando ia lá), e havia a música clássica, a pastoral de Beethoven com Karajan, que ele me deu, e um disco do A-HA, que eu “precisava” ter, já pré-adolescente, e quase não tenho coragem de pedir na loja em que estava com ele.

Já pululam matérias sobre sua morte, com dados, memórias, créditos e méritos, e recebi a notícia de sua morte da forma mais plácida e iluminada possível, num whatsapp de minha tia Nana, já separada dele há alguns anos, mas sempre presente e às voltas com os últimos anos sofridos de meu tio lutando com sua doença.

Eu vinha falando muito dele, falando de outro livro que estava pensando em adaptar – só desejo e curiosidade, nem o li ainda – e pensando que talvez na minha próxima ida ao Rio ele ficasse feliz em saber de meus planos. Mas pensando também que não houvesse tempo de poder vê-lo e falar sobre tudo isso.

Sete anos depois de ter perdido meu pai, 2017 veio qual tsunami, levando minha mãe, minha vó, uma tia, um primo, meu cão, e agora meu tio Louzeiro. Espero que muito se diga sobre o escritor e jornalista que ele foi. Eu talvez possa dizer um pouco sobre o homem.

Ele nunca me parecia tomando a frente de nada, mas sempre presente. Não parecia ser carinhoso, mas me lembro do sorriso dele com uma força que carinho nenhum no mundo poderia compensar. Era um homem de comportamento simples, plácido, discreto, e assim ia me ensinando – não sei se intencionalmente – como ser na vida, sendo uma das poucas referências masculinas que eu tinha no Rio de Janeiro.

Acima de tudo, transmitia sabedoria. Em lidar com as intempéries, com as palavras, com as relações. Podia não ser tudo isso, não ser nada disso, mas eu sentia assim, e assim ele me transmitiu muito do que sou, me ensinou em silêncio, interrompido por sua máquina de escrever, sorrisos e palavras certas pra mim.

Só lembro dele sorrindo. Assim como minha mãe, que só consigo lembrar sorrindo, rindo, e só lembro chorando, e muito, nos momentos em que se deparava com o belo. Das coisas que mais sinto falta em minha mãe, uma é não ter mais alguém com a sensibilidade dela para que eu, propositalmente, mostrasse algo que eu sabia que ia emocioná-la, pra poder vê-la chorando, confirmando o belo da arte que deve sempre nos tocar e existir nesse mundo por vezes cinza.

Meu tio Louzeiro, como minha mãe, meu pai, todos com seus processos sábios de olhar a vida, mas também me mostrar a morte, criaram para mim um caminho de resignação e paz de entender que estamos aqui num ciclo de tempos distintos, e a roda vai sempre girar. Aprendi a me relacionar com as perdas, e me fortalecer, e compreender a fugacidade da vida, porque essas pessoas me ensinaram caminhos para ser assim.

Lamento não ter arrancado mais um sorriso de meu tio, falando de minha vontade em trabalhar alguma obra dele; mesmo sendo algo que possa nunca se concretizar. Ir ao Rio e não vê-lo poderia ser estranho, a partir de agora, como é estranho mostrar uma canção, ou poesia, ou peça, e saber que não terei minha mãe para mostrar e ver seu choro emocionado.

Mas todas essas pessoas estiveram tão dentro de mim, tão poderosas e profundas em mim, que de jeito algum vão se esvair.

Quando meu pai morreu, Tuzé de Abreu me disse algo assim: “engraçado, quando as pessoas que gostamos vão indo, parece que são partículas da gente que se vão, até que alguma hora nós vamos, também”.

A sensação que tenho é que o ciclo se reverte. As partículas não vão para o universo. Elas se dissipam para dentro da gente. E hoje, o sorriso de meu tio Louzeiro veio até mim, bem presente de tal forma que encerrei esse texto com uma lágrima. Porque, como minha mãe, prefiro chorar pelas coisas belas.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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