Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

Não é uma questão de preconceito, é uma questão de tradição

O governador do Rio de Janeiro afirmou que o assassinato de 5 jovens, na Zona Norte da cidade, foi um erro, e não racismo. Ele está correto. Um erro devido a uma tradição. Geralmente, por tradição, preto é ladrão. Então, a culpa é da tradição, e não do racismo.

Quando se humilha a bichinha que passa na rua, que divide a mesma sala de aula que os héteros, quando se faz piada com o viado, a pessoa não está sendo preconceituosa. Ela está apenas seguindo uma tradição de há décadas, em que o homossexual é tido como uma anomalia, um desviado (há quem defenda que viado nem daí, e não do animal, por isso grafado com “i”) que naturalmente gera repúdio.

Do mesmo modo, quando um homem subjuga, assedia covardemente, assovia na rua, tenta agarrar à força no carnaval uma gostosa, ele não está sendo machista, também. Há uma tradição, respeitada pela tradicional família brasileira, em que a mulher é um objeto a ser conquistado, um objeto que deve servir, aceitar, abrir as pernas. Como diria um personagem de Bernhard: “a mulher submete-se”.

Não quis citar exemplos mais pesados, visto que soaria agressivo aos olhos dos que matam negros, batem em homossexuais e estupram mulheres, coitados. Essas pobres criaturas apenas seguem uma tradição, e, como tal, não são preconceituosos, seguem o fluxo dos costumes.

Acontece que há tradições mais recentes, ao redor do mundo. Sabe aquele país com o qual sempre se compara o Brasil, pra mostrar como somos atrasados? Aquele país sem corrupção, de escolas exemplares? Pois é, sem perder tempo com a história do ovo ou da galinha, é um país onde os direitos das minorias (não numéricas, mas em acesso aos direitos básicos de cidadania) estão bem à frente dos nossos.

A Finlândia, por exemplo. Todo mundo compartilha notícias sobre o país com os melhores índices educacionais do mundo, mostrando o atraso do Brasil. Lá, onde existe uma educação exemplar, os gays se casam, as mulheres abortam e as pessoas consomem drogas. Não são proibidas nem incriminadas por isso. A acessibilidade de todos à educação e às oportunidades reduzem drasticamente a ideia de desigualdade; seja de gênero, de cor, de classe social.

Bem, meu amigo, tenho que lhe contar uma coisa. Se as antigas tradições podem legitimar seu comportamento, e você se esconde por trás de uma imenso monólito de discriminações, preconceitos, opressões e violências, ancorando-se numa sociedade atrasada, reacionário e conservadora, existem tradições recentes que vão, aos poucos, mudar as coisas, como mudaram nos ditos “países desenvolvidos” que você usa como referência apenas nos pontos que lhe convém.

As mulheres botaram a cara na rua. Radicais, ou não, chatas, ou não, as reações acabam sendo proporcionais a uma opressão de séculos. Há que se suportar os excessos, pois ninguém acerta o tempo todo, e elas hão de achar a medida certa, como todo movimento legítimo.

Os homossexuais já podem casar. Sabe aquelo tio viado rico, que a família toda fica de olho no patrimônio? O patrimônio vai para seu companheiro, sinto lhe dizer, e espera-se que muito em breve um gay ser ofendido ou agredido dê cadeia ao agressor, como já se prende quem ofende negros e mulheres (mesmo com várias escorregadas judiciais).

O tráfico de drogas, que ceifa a vida de jovens em sua grande maioria negros, seja por falta de oportunidades, seja por “erro” policial, precisa ser combatido não com bala, mas com a legalização, a descriminalização. Caso contrário, haverá uma eterna guerra que, assim como no Oriente Médio, é uma grande loteria: num dia, se explode uma base terrorista, no outro, um colégio com 200 crianças. Lutar contra células difusas e que se espalham e multiplicam sem controle e tutela do Estado é um exercício infindo, um suplício de Sísifo.

Ainda existe uma parcela imensa da população que esconde-se por trás das ditas tradições. Mas essa parcela que se prepare; os gays, os negros, as mulheres e, muito mais que isso, todos os que têm o mínimo de consciência social, humanitária e justa, esses que miram os exemplos de fora não quando lhe convêm, mas quando convêm a todos, independente de credo, crença, cor, gênero ou condição social, todos esses estão ganhando força.

A ascensão dos maus evangélicos, a máfia das drogas que vai chegar aos corredores e salas do Congresso Nacional, a violenta ocupação de cargos essenciais e fundamentais pelo “macho, adulto, branco, sempre no comando”, as tradicionais, mofadas e atrasadas famílias “tradicionais” brasileiras, dentre outros, ainda vão atrapalhar por um bom tempo esse abalo das antigas tradições.

Mas é preciso lutar, dia após dia, para que 5 jovens negros não sejam fuzilados por erro, e não por racismo, como disse o governador do Rio de Janeiro.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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