Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

no meio do caminho tinha um banco, uma estátua e um poeta

Foi-se o tempo em que os Cafés das grandes cidades da Europa e América Latina eram um ponto de encontro obrigatório para escritores, artistas e intelectuais. Sala de estar estendida, com aquecimento garantido nas cidades de clima frio, o que era um luxo para muitos em início de carreira, sala de reuniões e debates de ideias, lugar para contatos com editores, galeristas, jornalistas e uma parte interessante do público, o salão do Café funcionou para algumas gerações como um espaço frutífero que abrigava uma parte importante do processo criativo e de publicação (no sentido mais amplo da palavra) da produção literária.

No Rio de Janeiro de hoje sobram pouquíssimos endereços que servem de testemunho da época deste modo de fazer literatura, entre eles a Confeitaria Colombo e o Amarelinho. Em cidades cujos centros de alguma maneira guardam mais traços do passado que as brasileiras, tem-se a chance de conhecer mais destes lugares. Em Lisboa, o melhor dos exemplos é o Café A Brasileira, que, celebrando sua história de lugar literário, tem na calçada à frente do estabelecimento uma estátua de autoria do escultor Lagoa Henriques, representando Fernando Pessoa à mesa do café, de onde era frequentador assíduo.

Ainda que o espaço semi-público do Café tenha sido e talvez ainda seja importante para a produção literária, ele funciona no máximo como um espaço articulador, atribuído de funções bem precisas: o espaço da efetiva produção literária é, por excelência, a biblioteca particular, o escritório, o lugar privado e tranquilo da reflexão íntima com as palavras, separado do público e, no limite, separado de todo e qualquer contato com a humanidade: não são poucos os exemplos de escritores identificados com o eremita.

Entre a produção do escritor-eremita e a leitura do livro, há efetivamente pouco espaço para a presença física do autor neste mecanismo de recepção. Desta maneira, o processo tradicional de produção e recepção literária tende a ser o mais distante daquele marcado pela interação performativa entre artista e público, característico da música, por exemplo. Se estendermos à música popular e seu apelo de imagem e sex appeal, é possível compreender o quanto a música reafirma esta dimensão performativa, que lhe é intrínseca, na época das multidões e das mídias de reprodução: para o jovem Cauby Peixoto ou para Ney Matogrosso sequer a distinção espacial entre palco e plateia configura uma garantia de integridade física pessoal no espaço semi-público e fechado de auditórios e teatros. No auge de seus sucessos de público, para pessoas como os dois cantores, ou para os celebrados artistas do cinema, o espaço público e aberto da rua pode vir a constituir risco de vida.

No ato de leitura de um livro, ainda que seja de um escritor tão famoso como Carlos Drummond de Andrade, a mídia e o conteúdo posicionam o leitor em uma tradição histórica de distanciamento físico em relação ao autor. Do eremita, afinal de contas, não se espera que ele tenha passado horas no espelho cuidando da aparência ou da coreografia. A curiosidade legítima do leitor pela aparência física de um escritor definitivamente localiza-se em outro patamar que o do apelo sensual do contato físico. Diferente de Cauby ou Ney, um Drummond tinha muito mais tranquilidade ao circular pelas ruas e caso fosse reconhecido não precisava temer que muita gente quisesse lhe arrancar as roupas. O escritor, antes das revistas de fofocas de consultórios médicos, pôde desfrutar, na condição de quase anônimo, do espaço público muito mais do que o cantor popular.

A estátua de Drummond, que tantas manchetes vem ocupando pelo vandalismo que sofre desde a sua inauguração em 2001, é infeliz por estes e outros motivos. Ela tenta figurativamente tornar monumento público um momento essencialmente privado do escritor, um momento alheio ao modo da relação que ele tinha com o público através de sua obra; ali sentado, desfrutando da contemplação da paisagem e da movimentação urbana, Drummond era um cidadão qualquer. Esta é a maior diferença em relação à estátua de Fernando Pessoa em Lisboa, que guarda a memória da relação entre autor e público no lugar onde esta relação acontecia.

Mas dois outros aspectos da estátua do posto 6 do calçadão de Copacabana, frequentemente vandalizada, tampouco a fazem menos problemática. O primeiro deles é o apelo figurativo e, digamos assim, excessivamente realista, da escultura, que se distancia da tradição modernista e abstrata que parecia ter se tornado um elemento estético enfim capaz de fazer parte em escala e desenho adequados ao espaço modernizado e caótico das cidades brasileiras, no caso de haver ainda alguma justificativa de culto a personalidades. Então ali, diante do horizonte aberto da praia, no espaço dessacralizado das letras e destinado ao culto do corpo, a lembrança de Drummond através de uma estátua que o reproduz em bronze e em tamanho natural talvez não pudesse ser mais fora do lugar.

Do ponto de vista artístico, outras esculturas referentes a Fernando Pessoa em espaços públicos de Portugal, como a de autoria de José João Brito, trazem uma reflexão bem mais aprofundada sobre o autor e sua obra, do que aquela à porta do famoso Café, parada obrigatória para turistas repetirem a foto que todos os outros antes deles já fizeram. No caso de Copacabana, a repetição do ritual kitsch da foto do turista que talvez nunca tenha lido um verso sequer do poeta é somente a garantia de que este terá sido o último e derradeiro encontro entre os dois. Não há como argumentar qualquer efeito educativo da escultura, isso acabaria sendo ainda mais desmerecedor de sua pretensa dimensão artística. Daí que o segundo aspecto problemático diz respeito a esta disposição da representação da figura de Drummond no plano da calçada, destinado ao abraço, o beijinho ou o carinho na careca a ser repartido pelas redes sociais como um momento fofinho ou divertido da estadia no Rio de Janeiro.

No conto The Five-Swing Walk, Will Self observa a relação entre o design pesado, rígido e bruto (para usar a palavra) das peças em concreto armado do mobiliário urbano e a explosão demográfica das grandes cidades. As relações entre materialidade, funcionalidade, forma e espaço, e suas escalas de uso e fruição, são elementos determinantes para a definição do design de objetos. Não adianta os jornais noticiarem que a suspeita de coautoria do último ato de vandalismo contra a estátua de Drummond responde a um processo por homicídio. A estátua como ela foi concebida e executada funcionará sempre como vem funcionando desde sua instalação: como uma pegadinha de programa de TV instrumentalizado para averiguar a fúria das massas vândalas. É uma tristeza que Drummond esteja sendo usado para isso.

Entre a fragilidade dos óculos da estátua, já tantas vezes danificados, e o design do banco onde ela está instalada, a simplificação do corte da pedra de granito é uma lição sem palavras. Drummond, o poeta moderno, sabia apreciá-la.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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