Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

Notificados por Gilberto Gil

Gilberto Gil me escreveu. Ele mandou uma notificação (clique na imagem para ampliá-la), a mim e ao site Tetro Nu, na qual “pede” que eu esclareça o óbvio: o texto “Prefeito ACM Neto cancela shows do final do ano e anuncia R$ 6,5 milhões para a cultura de Salvador” não é verdadeiro. O Prefeito não destinou tal verba para os agentes culturais da cidade e os shows do final de ano aconteceram normalmente, todos sabem.

Dada a leitura dinâmica própria da internet, em um primeiro momento muitos que só leram o titulo acreditaram se tratar de notícia verdadeira. Aos poucos, porém, ficou clara a minha intenção de discutir a política cultural na cidade e no estado. Trata-se de um texto irônico, um conto com a estrutura de uma reportagem e que provocou reflexão não apenas em Salvador, mas em outras cidades do Brasil. Eu recebi mensagens vindas de João Pessoa, Manaus, São Paulo, Teresina, Rio de Janeiro, Porto Alegre e muitas outras localidades.

Incontáveis os posts críticos que vieram à tona após a publicação do texto, o que deixou claro que se trata de algo importante a ser discutido.

Na notificação, Gilberto Gil afirma que eu não tenho o direito de colocar entre aspas frase que ele nunca disse. Ou seja, que fique claro, mais uma vez, que Gilberto Gil nunca disse “O futuro está nos jovens!”.

Aliás, que fique claro que todo o texto é meu, toda e qualquer palavra foi criada por mim, que, sim, continuo a acreditar que um autor, desde que não ofenda, nem promova agressão e violência, tem o direito a fabular e defender o seu ponto de vista.

Essa estratégia já existe desde muito tempo. Aristófanes, maior representante da comédia grega, criou peças satíricas e deu falas, às vezes grosseiras, a políticos, poetas e filósofos. Sócrates foi seu alvo em “As Nuvens”. Teria sido Aristófanes notificado pelo filósofo?

No cinema, há a tradição do mockumentary, filmes que passam a sensação ao espectador de que o que ele está assistindo é real. “A Bruxa de Blair” popularizou os mockumentarys, que possuem uma veia mais ativa e poderosa no documentário. “Recife Frio”, curta de Kleber Mendonça Filho, filme recente e muito popular no Brasil fabula, com afeto e ironia, sob uma suposta reviravolta térmica no Recife e discute os caminhos adotados pela nossa sociedade.

Por fim, Gilberto Gil, na notificação, “pede” que o site Teatro Nu tire o meu texto do ar. Particularmente, eu custei a acreditar que essa seria uma atitude vinda dele, artista que quando ministro da cultura nos ajudou a redimensionar o nosso lugar como proponentes ativos das decisões relativas às verbas públicas. Vale lembrar que Gilberto Gil, com sua equipe, descentralizou os investimentos em cultura no país.

Sinceramente, como o envelope que continha a notificação não tinha endereço, eu logo pensei se tratar de uma “pegadinha”, uma “falsa notificação” e cheguei mesmo a dar risada.

E, aliás, que sentido tem retirar do ar um texto claramente fabular, que apela ao bom humor e à ironia para tratar de algo importante e que foi compartilhado milhares de vezes, publicado outras centenas em diferentes sites do Brasil todo?

Após alguns telefonemas, veio a confirmação de que a notificação é verdadeira.

Pensei em escrever para Gilberto Gil, tentar explicar a que se propõe o texto, mas, como eu disse, não há remetente no envelope. Então, escrevi esse texto e gostaria de propor publicamente a ele que releia o que eu escrevi e que deixemos o texto no ar, pois retirá-lo me parece ofensivo em demasia contra a liberdade de expressão, além de conferir ao texto uma agressividade que não existe.

Do meu lado, irei escrever, no pé da página do texto anterior, que tudo não passa de uma ficção, um conto escrito por mim. Espero, sinceramente, que assim fique bem para todo mundo.

Aproveito para desejar a todos um grande 2014!

Que tenhamos bom humor e inteligência, pois não vai ser um ano fácil, não.

Cláudio Marques Chuck Howley Jersey

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 André
Nestes dias de carnaval nebuloso em Salvador, ler o texto original de Cláudio Marques foi motivo de muitas risadas para mim. Não sei se ri muito porque li primeiro Notificados... e só depois li o original. Ops! Confesse, Cláudio, tudo isso foi combinado com Gil, no melhor estilo Faustão! Quando vocês descobriram que a ironia original estava produzindo IBOPE apenas em uma faixa do mercado, resolveram ampliar a farsa para expandir o alcance do produto! Para mim, a melhor piada foi aquela da invisibilidade... Aliás, outro dia estava caminhando pelo Farol e cruzei com um séquito. Parei, pensei, duvidei cartesianamente e conclui: foi mesmo o prefeito invisível que passou por mim. Mas, como isto é possível, o herdeiro de ACM visitando uma obra sem trio elétrico tocando!? De fato, como ele é mesmo difícil de ser visto, o que vemos mesmo é o séquito.
 Sergio Guedes
Aprendi com o meu pai a detestar Getúlio Vargas, mas reconheço que tive um momento de real admiração por ele quando soube que ia assistir aos espetáculos que o satirizavam, ia cumprimentar os atores, assim contribuindo para a promoção das peças!
 bruna
nao, nao ficou tao claro que se tratava de uma ironia e ainda bem q vc se retratou. achei irresponsavel, mas antes tarde que nunca. e a reacao de gil foi dentro dos oimites do direito dele, na hora que nosso legitimo exercicio de direito virar algo ridiculo, me mudo da terra.

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