Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

nove mil e quatrocentos mais um

“Esses tempos não tão pra ninharia

Não fosse a vez daquele, outro ia”

Onze Fitas, de Fátima Guedes, canção de 1978

Faz hoje dois meses que o corpo de Kaíque Augusto Batista dos Santos foi encontrado nas proximidades de um viaduto no centro de São Paulo. Possivelmente só tenhamos tomado conhecimento de sua morte porque o círculo de afeto entre jovens que o conheciam fez reverberar nas redes sociais as condições de extrema violência que levaram à morte deste rapaz jovem e gay. A comoção fez com que protestos fossem organizados e a imprensa de grande alcance registrou o clamor por justiça naquele primeiro momento.

Nos últimos dias procurei em vão na internet registros recentes sobre o caso de Kaíque e nada encontrei, em nenhum periódico de grande circulação ou no portal do governo do Estado de São Paulo. Segundo as notícias divulgadas em finais de janeiro, a perícia final do IML já deveria ter sido concluída há semanas, mas não há uma reportagem sequer sobre o assunto. A opinião pública, pelo visto, transformou Kaíque em mais um número de estatística.

Tudo leva a crer que de nada adiantou outros crimes de motivação homofóbica, incluindo o assassinato de Bruno Borges, terem acontecido depois da morte de Kaíque, na mesma região, contra outros jovens homossexuais, o que aponta assim para um padrão recorrente que implicaria, no mínimo, um acompanhamento mais apurado das condições em que Kaíque morreu. Mas, é provável que a ampla maioria tenha se contentado com a “confissão de suicídio” (como se isso pudesse existir) emitida pela mãe do rapaz no meio das pressões de toda ordem que se seguiram à identificação do corpo de Kaíque.

Depois de Kaíque ter sido encontrado morto, de acordo com as estatísticas amplamente conhecidas, aproximadamente 9400 pessoas foram vítimas de homicídio no Brasil, entre elas Bruno Borges. A vulgaridade imposta pela fartura de cadáveres vítimas de homicídios no país é sem dúvida um componente cruel que faz da violência cultura e pavimenta o esquecimento que transforma Kaíque e Bruno em meros dados estatísticos; cruel porque este esquecimento mantém funcionando a máquina de matar em uma sociedade ao atuar como parte da estratégia de anestesia geral que protege cada um individualmente da loucura, que, por sua vez, seria inevitável se coletivamente mantivéssemos acesa a memória do nosso genocídio particular.

No caso de Kaíque, outro componente que transformou a sua morte em mera estatística, provavelmente de maneira até mais rápida que a habitual, foi a ganância com que alguns agentes tentaram capitalizar o seu horror para o jogo de xadrez sórdido em curso. O rápido xeque mate que foi dado – a confissão de suicídio – não só transformou a morte de Kaíque em mais um número de estatística: ele ao mesmo tempo equipa com mais um projétil o tambor do revólver do jogo de roleta russa que se tornou fazer parte desta numerosa comunidade chamada sociedade brasileira. Um pouco mais e o tambor da roleta russa estará sempre cheio.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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