Cultura e Cidade

  • Gil Vicente Tavares

    Encenador, dramaturgo, compositor e articulista. Doutor em artes cênicas, professor da Escola de Teatro da UFBA e diretor artístico do Teatro NU.

O Castelo da UFBA e as escolas de Kafka

Há pouco mais de duas semanas, sintonizei na rádio Vida, 106.1, em busca de alguma música boa, e deparei-me com uma entrevista. Heinz Karl Schwebel, recentemente reeleito diretor da Escola de Música da UFBA, falava sobre seus projetos à frente da universidade e fiquei surpreso com a forma lúcida com que ele pensa a relação entre o ambiente acadêmico e o profissional.
Minha surpresa foi seguida de desconfiança. O Brasil e, principalmente, a Bahia são craques em produzir cidadãos de bom discurso que, na prática, são pulhas. Prontamente, empunhei meu telefone e saí em busca de referências sobre Schwebel e – segunda boa surpresa –, ele correspondia, de forma coerente, ao que eu pensava.

Na entrevista, o diretor da Escola de Música da UFBA falava sobre a criação do primeiro mestrado profissionalizante do país, em parceria com o Neojibá; projeto importante de formação e profissionalização de músicos baianos, capitaneado pelo grande pianista Ricardo Castro.
Numa terra de inveja e de puxadas de tapete, essa ação pareceu-me mais significativa, ainda, pois vinha de um músico que, para além das atividades acadêmicas, é trompetista da Orquestra Sinfônica do Estado da Bahia. Poder-se-ia considerar uma disputa pelos holofotes, recursos, entre OSBA e Neojibá, mas o discurso de Heinz era em prol da música, do músico e da universidade, e, notadamente, da profissionalização.

Sempre dando relevância à formação, a parte da entrevista que mais me pegou foi quando ele disse que a base tinha que ser fortalecida, mas sem perder de vista o topo dessa cadeia, que é justamente a profissão. Ele, lucidamente, dizia que não adiantava fazer um mestrado profissionalizante, formar músicos de excelência para exportar. O curso não é uma iniciativa de criar matéria prima para fora, como também não é a intenção do curso de música popular, recentemente criado na mesma escola.
Sabendo de certos assuntos, técnicas, teorias e disciplinas que poderiam desviar o foco do músico popular do que realmente lhe interessa, a Escola de Música da UFBA deu um salto visionário ao criar um curso voltado à música que se produz fora das salas de concerto e casas de ópera. Ressaltando, aqui, que essa visão do popular, nesse curso, passo ao largo do amadorismo, autodidatismo e falta de técnica. Muito pelo contrário…

Sempre achei que a EMUFBA era muito fechada em si, produzindo conhecimento autofágico e para as gavetas, sem dialogar com a sociedade. Aos poucos, com essas novidades, e, sobremaneira, com a entrevista de Schwebel, comecei a perceber não só a evolução de uma mentalidade, não só a lucidez e comprometimento do diretor da escola, a preocupação com o mercado, com a formação que possibilita um retorno, para a sociedade, dos dinheiros educacionais investidos por ela numa universidade pública e livre. Para minha tristeza, percebi o quanto as outras duas escolas de arte criadas por Edgar Santos andaram para trás e estão em franca crise e declínio.

Estive, por conta do mestrado, doutorado e amigos que por lá estão ou passaram, em contato com a Escola de Dança da UFBA de forma sistemática. Percebi, ali, uma produção de conhecimento imensa em torno de determinados assuntos como semiótica, novas tecnologias aplicadas ao movimento, experiências contemporâneas e etnocenológicas. Além disso, e de recursos federais para incentivar a pesquisa, a Escola de Dança da UFBA tem conseguido, de forma marcante, ser a principal vencedora em diversos editais públicos, através de seus alunos e professores.
Pergunto-me, contudo, quantos novos coreógrafos e bailarinos entraram no mercado profissional da dança em Salvador. E mais, que mercado? Há preocupação com isso? A Escola de Dança realmente assume-se como uma instituição pública formadora e pensadora da dança em sua relação com a sociedade?

O que mais tenho visto é que profissionais que mobilizavam a cena da dança em Salvador, com espetáculos, festivais, circulações, formando um público para a dança, tentando abrir esse mercado ainda tão insípido – que nos faz abrir jornais à procura de coreografias em cartaz pela cidade, sem achar nada substancial nos últimos anos – começaram a perder espaço, em comissões, editais e projetos, para um direcionamento acadêmico da dança que, de profissional, tem, principalmente, o fato de viver de recursos públicos através de bolsas e salários de professor, viagens e congressos, que vão perpassando graduações e pós-graduações. Ao final, vê-se que houve muita pesquisa, muita grana pública, e nada de efetivo foi produzido como retorno para sociedade. Talvez muito pouco bibliograficamente, mas artisticamente nada.
Como então explicar o acúmulo de recursos na Escola de Dança e a escassez de profissionais atuando no mercado?

Trabalhos experimentais, alternativos, pessoais e de pesquisa são fundamentais para a renovação das linguagens, para que novos caminhos, novos jeitos e maneiras de se fazer e pensar a arte surjam. Contudo, assim como na Escola de Dança, parte significativa do que disse acima serve para a Escola de Teatro da UFBA. Parece que esta tem, seguidamente, esquecido que seus cursos de direção e interpretação são para formar profissionais para a cena da cidade. Ou não? Um aluno forma-se em direção e interpretação para quê? Para depois viver da bolsa do mestrado, depois, do doutorado, e ficar fazendo peças que não interessam à sociedade, legitimadas pela academia como aquelas velhas novidades que surgem nas províncias ávidas pela vanguarda – como se ser vanguarda fosse uma opção, e não uma constatação a posteriori de algo que esteve à frente do seu tempo –, enquanto a cena soteropolitana vai empobrecendo-se e os recursos minguando para criar-se uma realidade teatral com plateias cheias, patrocinadores interessados, mídias e meios de comunicação atentos.

Um grande equívoco é pensar que as políticas públicas para a cultura têm como foco o artista. Não! O foco é o cidadão. O dinheiro do estado não é para sustentar pesquisador e artista. É um recurso que é investido no pesquisador e no artista para que esses realizem seus projetos para o público. Verba pública é para o público; se funciona como privada vai para a privada.
Imaginem um mestrado profissionalizante em teatro, ou dança? Profissionais pra que e de quê? De algo que não acontece na cidade, de um mercado e de uma realidade que não se cria?
Uma sombra de fracasso, oportunismo, carreirismo e arrivismo acadêmico parecem perturbar as escolas de arte que, ao surgirem, tinham, muito mais na Escola de Dança e na de Teatro, que na de música, uma produção efervescente, um diálogo com a sociedade. Eu cheguei a viver isso como aluno, ainda, e já sofri certo declínio disso ao me formar. Mas pude assistir grandes nomes da dança e do teatro baiano fazendo apresentações cheias de obras de qualidade sempre com um dedo da universidade por detrás. Assim eram as produções desde Martim Gonçalves, fundador da ETUFBA, que misturava profissionais com alunos em espetáculos e invadia espaços – tal qual o Teatro Castro Alves incendiado –, assim como vários trabalhos de dança que saíram pela cidade indo ao encontro do público, do espaço, da vida real.

Para os abutres de plantão, não deixarei muitas brechas. Não acho que a arte, dentro ou fora da academia, tenha que curvar-se ao gosto do público. Gilberto Gil já disse que “o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”, etc. Pelo contrário: acho que o ambiente acadêmico deveria ser um laboratório de experimentos, criações, reflexões e pesquisas que pudessem dar um retorno para a sociedade com bibliografias e obras de arte de excelência, que provocassem esteticamente e eticamente os padrões. Vale ressaltar, também, que acho notável, num país onde a câmara dos deputados tem mais projetos de lei para homenagens do que para a saúde e a educação, que haja um investimento no aperfeiçoamento, aprimoramento e pesquisa em nível de graduação e pós-graduação no país. Eu mesmo fui beneficiado com bolsas em meu mestrado e doutorado e é um incentivo, um recurso que possibilita o foco e dedicação na pesquisa.
O problema não são a estrutura e os recursos para as universidades, e sim em que eles são aplicados e que resultado eles alcançam. Além disso, faz-se importante notar que, a despeito da constante dissociação entre academia e sociedade, os cursos de pós-graduação tanto de artes cênicas quanto de dança têm produzido, em meio a farto material de pesquisa, escritos de relevância que vêm sendo publicados e usados como referência; há que se ser justo.
Contudo, questões políticas e disputas internas, que são assunto para outra hora, têm negligenciado excelentes trabalhos acadêmicos que são subaproveitados em todo seu potencial para serem, até mesmo, estopins para novas pesquisas, corroborando, acrescentando ou contestando assuntos importantes da teoria e prática das artes que têm e são reflexo da nossa sociedade, em seu funcionamento ético e estético.

Salvador tem uma enorme resistência a se pensar, a refletir seus males, seus nós, e tudo isso, provavelmente, deve-se muito ao fato de que no marasmo da mediocridade consegue-se o sustento e a tranquilidade para se locupletar das verbas públicas em benefício próprio, de uma escola ou pesquisa. Verbas que apenas beneficiam quem está envolvido com essas situações de forma direta e oportuna, sem gerar ramificações e frutificações que vão além de resultados autofágicos e endógenos.
Um termo como “profissional”, simples, que qualquer dicionário explica, é questionado por muitos sanguessugas da estrutura e do erário público, bem como muitos alternativos/marginais/frustrados, toda vez que eu cito. Obviamente, um artigo como esse meu gerará muito mais abjeções e objeções do que provocará reflexões dentro da universidade e entre alunos e ex-alunos de suas graduações, pós-graduações e bolsas sem fim; bolsas essas que enchem os olhos dos alunos, mais preocupados com dinheiro e diploma do que com conteúdo e profissão. No entanto, pensar sua profissão, conseguir o sustento através dela, realizar-se e conseguir projeção, mercado, consumo e retorno financeiro com sua profissão parece ser um anátema, algo que nem mesmo as direções das escolas de arte pensam em problematizar, sendo, estas, diretoras de instituições que, a priori, estão formando profissionais para um mercado de trabalho que a própria universidade dinamita em sua inércia.

Nem tudo devem ser flores na Escola de Música da UFBA. Sei que há um longo caminho a ser percorrido em busca de uma real relação entre a música pensada, produzida e criada no ambiente acadêmico, e oriunda dele. Porém, um excelente começo, ou meio para isso já se vê claramente no discurso de Heinz Karl Schwebel, no posicionamento dele como diretor de uma Escola de Música de uma universidade. Só no fato dele pensar e dizer, já demonstra uma postura diferente. E não fosse a relação musical entre a universidade e os profissionais de Salvador, não teríamos Neojibá, nem Orquestra Sinfônica da Bahia, que com Carlos Prazeres vem dando um salto importante na relação com o público comum da cidade, nem todas as decorrências desse imaginário. Basta citar Rumpilezz, Sambone Pagode Orquestra, Jam no MAM, e muitos outros grupos, manifestações musicais e criações que vêm dialogando com a universidade – em diversos níveis – e produzindo uma música de qualidade, de excelência, que vêm conquistando prêmios, ótimas críticas, reconhecimento e mostrando uma outra Bahia. Já me causam arrepios os que contestarão o que é música de qualidade, e eu respondo perguntando quantos trabalhos de dança e teatro têm surgido no mesmo porte desses que citei acima. Há uma revolução em processo na música de Salvador, uma visão mais ampla, diversificada, solidificando-se e possibilitando que profissionais capacitados exerçam sua profissão fazendo o que gostam e acreditam, sem precisar sair daqui para mostrar seu trabalho, como ocorre com a migração constante de bons artistas de teatro e dança daqui.

É um longo caminho, sim. Tortuoso, difícil. Mas um caminho que vai na direção contrária da dança e do teatro na universidade, em processos autofágicos e endógenos. Um grande muro tem afastado o pesquisador/artista de quem ele deve se aproximar, ao final de seu processo, seja ele qual for: o público. Não fosse isso, qual o interesse de financiar com dinheiro público artistas que produzem para si? Querem produzir e pesquisar para si, em benefício próprio, para conquistar mais bolsas, melhores salários, viagens e congressos, um carreirismo totalmente infértil para a sociedade que banca, através de seus impostos, estes nichos de pesquisa, reflexão e criação? Vão buscar recursos privados para seus interesses privados. As escolas de arte, ao invés de pontes, constroem muros. Mais do que proteção, talvez seja uma defesa, inabilidade, incompetência e covarde desprezo em relação à realidade que está lá fora. Enquanto isso, lá dentro da fortaleza, o incomunicável, inexplicável e intangível alimenta-se dos que estão do outro lado.

 

(artigo originalmente publicado em janeiro de 2013)

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Luis Alonso
Oi querido Gil. Fico muito empolgado a cada publicação sua que reflete a cidade-ética, a cidade-convívio, a cidade-arte, e assim sucessivamente até chegar naquilo que lhe move, aliás que nos move, o teatro. Você está escrevendo cada vez melhor, e isso é uma benção, pois ter de perto alguém que possa deixar de forma sólida referentes da destruição na qual está o nosso ofício é digno de ser louvado. Concordo plenamente com você, no entanto, enquanto estrutura do seu discurso sempre me pareceram muito longas as suas introduções, algo no qual você poderia caprichar exercitando a capacidade de concretizar idéias, enxugar e introduzir de maneira menos locuaz, pois bem sei que esse artigo está mais direcionado ao fértil-ataque às estruturas da escola de teatro do que a enaltecer o trabalho da escola de musica, ainda que esta sirva como referencia para um exercício comparativo. Há algo que conversamos ontem e que acho que é um ponto importante nesta questão. A Escola de teatro da UFBA – uma percepção minha desde que cheguei aqui – deveria se restringir ao seu papel de centro de ensino e pesquisa e não ficar almejando os espaços profissionais. Sei que falar de ser profissional em Salvador gera um certo incomodo, mas como não vai gerar se estamos cheios de amadorismo por toda e qualquer parte, confundindo espaços e cenários liminares com “vamos fazer qualquer coisa, que qualquer coisa é arte”, algo que trouxe dentre tantos a errada e nada concretizada etnocenologia – mas esse outro papo que envolve vivos e mortos. Vamos ao que me interessa. Uma vez que a escola de teatro da UFBA começar a se preocupar pelo centro de ensino e pesquisa que deve ser, parando de incentivar os alunos a concorrerem ao almejado Prêmio Braskem - que aliás tenho vivenciado ultimamente do que são capazes as pessoas por concorrer a esse prêmio - , quando a escola de teatro deixar de interferir em avaliações desse próprio prêmio a convite dos organizadores, quando a ETUFBA se concentrar nos seus planos de ensino e pesquisa e parar de ser cartesiana, quando a ETUFBA começar a valorizar os resultados profissionais das montagens da Companhia Profissional da Escola acima de qualquer resultado de curso dos alunos, então o dialogo com o universo profissional, seja escasso, seja abundante, nascerá de forma orgânica. Pois o aluno tem de apreender que esse, seu momento, é o de apreender, o de se debruçar frente aos mestres, de respeitar o universo profissional. Eu, particularmente, fico muito preocupado com quem serão os próximos professores da ETUFBA, observando o quadro de concorrentes. É algo que ninguém presta atenção,no entanto a ETUFBA é o nascente de futuros projetos profissionais, são os alunos que saem de lá que vão povoar as nossas salas de ensaio e pesquisa. Mas eles chegam a nós, profissionais, muito despreparados, com abismos de conhecimento de história da arte, de ética –sobretudo de ética-. Não gostaria de que o meu discurso fique tedioso, mas aprovo as suas reflexões, apoio elas integralmente e discordo 100% com esse carnaval de mestres e doutores que só gera mais afrancesamento do que práxis teatral, discurso sólido. Mas acho que no fim das contas a ETUFBA pode se achar no embalo do grande número de pessoas que compõem a sociedade mundial, pois ela está tão quanto elas, na liquidez do seu discurso.

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