Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

O catador na floresta de signos: Alexandre Mury na Galeria Roberto Alban

Inaugurada ontem à noite na Galeria Roberto Alban, em Ondina, a exposição O catador na floresta de signos, que mostra fotografias elaboradas pelo artista Alexandre Mury tendo os orixás como tema central, reúne um conjunto de imagens cujo rigor estético permite uma continuidade no enfrentamento de questões que perpassam a sua obra, como a autonomia da imagem e a tensão entre repetição e diferença.

A obra de Mury faz vibrar a inquietação muito contemporânea do desequilíbrio em favor da mensagem e em detrimento do meio: fruto da cultura compartilhável, da intercambialidade de formatos, o conteúdo parecia retomar fôlego depois de décadas de primazia da forma.

Na época dos passeios virtuais pelos grandes museus do mundo, as suas reproduções fotográficas de exemplares famosos da história da arte, tematizam a questão do conteúdo de um outro ângulo: e quando a imagem é em si o conteúdo cultural que possuímos – e a estratégia de reconhecimento de repertório por parte do público é mecanismo essencial para o seu trabalho – como paradoxalmente amplificar a sua validade cultural, sem cair no fetiche da experiência da verdade material da obra única, que por si só é “apenas suporte” da imagem?

Aqui entra o espírito divertido e leve no tratamento da diferença na repetição: Mury reconstrói em estúdio – e por isso suas fotografias são elaboradas - as cenas retratadas em famosos quadros da história da arte, assumindo o protagonismo das figuras neles retratadas, para fazer valer a diferença na repetição, sublinhando e amplificando a autonomia da imagem, daquilo que ironicamente acreditamos como autônomo a cada uma das milhares de vezes que a reproduzimos.

O passo que Alexandre Mury dá nesta exposição é por isso interessante e arriscado: sair do campo da história da arte – com seus objetos únicos assinados por artistas inconfundíveis – para entrar no campo da cultura popular do candomblé – que além de ser impossível de ter um autor reconhecido como tal e, portanto, longe de uma compreensão estilística que contribua para a refeitura da imagem, possui um processo de construção de símbolos e imagens próprio, distintos da tradição da arte européia –  é definitivamente um teste para as duas questões – autonomia da imagem e a tensão repetição/diferença, que continuam aqui presentes.

Nestas fotografias, que representam individualmente os orixás, Mury é mais uma vez o protagonista. A escolha pelo mundo vegetal como suporte de signos que identificam os orixás revela a mesma dedicação e apuro que a produção dos ambientes dos quadros já demonstrava. A delicadeza da obra é percebida aqui exatamente como seu traço mais autoral, ao se dedicar a um mundo de imagens tanto aberto em suas codificações, como saturado por clichês. A exposição Catador na Floresta de Signos revela uma grande sensibilidade de Mury ao se arriscar em tarefa tão difícil, separando da floresta de signos um estrato preciso para suas composições. É uma grande experiência, que passa longe da transgressão e ruptura, tanto com o conteúdo tratado como com sua trajetória até aqui, e é, com certeza, muito bem sucedida.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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