Cultura e Cidade

  • Márcio C. Campos

    Márcio Correia Campos é Professor de Projeto, Teoria e Crítica de Arquitetura na UFBA, formado por esta universidade e Mestre em Arquitetura pela TU-Vienna.

O desabamento em Riga ou os limites dos fetiches arquitetônicos

O teto verde, provavelmente o maior fetiche arquitetônico dos últimos 15 anos, acaba de protagonizar uma grande tragédia: na noite de 21 de novembro a cobertura de uma loja da rede de supermercado Maxima em Riga, Letônia, desabou causando a morte de pelo menos 51 pessoas. No momento do desastre uma empresa de paisagismo concluía a instalação de um teto verde sobre a cobertura, que havia sido projetada para este fim. O edifício, projeto da empresa HND Grupa, e que combina o supermercado com uma torre habitacional, é novo, tendo sido inaugurado em 2011.

Do ponto de vista histórico não deixa de ser interessante a dinâmica particular que fez um dos cinco pontos da arquitetura moderna enunciados por Le Corbusier há quase cem anos – e que na literatura em português é conhecido como terraço-jardim – chegar a ser uma mania projetual, praticamente obrigatória nos projetos de estudantes de cursos de arquitetura mundo afora. Sem dúvida alguma, o aprofundamento da consciência ecológica no campo da construção civil, desencadeado pela necessidade de diminuição de gastos energéticos, foi o principal impulso para o grande sucesso do teto verde, mas, de alguma maneira, sua transformação em obsessão guarda os mesmos problemas da vulgarização da palavra sustentabilidade. Atingiu, nesta intensidade, o patamar do modismo, do que é inquestionável por interiorização como valor.

E o teto verde, ou terraço-jardim, não está sozinho na lista de elementos da arquitetura do século XX que tiveram sua força de popularização muito mais calcada no apelo de sedução estético (e a partir deste apelo, todos os outros significados agregados) associado à força da industrialização. O mais famoso deles deve ser a fachada de vidro, o curtain wall; depois de décadas de desenvolvimento tecnológico para resolver os problemas criados nos espaços interiores relativos a aquecimento excessivo ou isolamento acústico e térmico, ela continua a gerar desconforto, desta vez devido aos altos graus de reflexão, nos ambientes externos.

O efeito visual e a lógica da moda também foram determinantes para a disseminação do brise-soleil, que ganhou fama mundo afora a partir do sucesso internacional da arquitetura moderna brasileira. Concebido exatamente para proteger fachadas modernas da incidência solar excessiva, os brises viraram nos anos 50 índice de “contemporaneidade”, passando a ser empregados exclusivamente como efeito plástico de fachada, como já chama a atenção Henry Russell Hitchcock em sua História da Arquitetura.

É claro que não somente o apelo estético contribuiu para a disseminação da arquitetura moderna. Os pilotis, outro dos cinco pontos corbusianos, chegaram a se tornar por via de lei um elemento obrigatório de determinados programas arquitetônicos, a exemplo dos edifícios habitacionais verticalizados em cidades como Salvador. Ainda hoje, arquitetos da Europa ou dos Estados Unidos ao visitar cidades brasileiras surpreendem-se com este “triunfo” específico da arquitetura moderna no país.

E também o teto verde tem tido sua disseminação parcialmente impulsionada por leis. Em países da Europa Central, edifícios de uso público a partir de uma determinada área de ocupação do solo estão obrigados e ter a sua cobertura solucionada com um teto verde como parte da redução do impacto ambiental.  Em um número bastante considerável de exemplos construídos nos últimos anos, programas como grandes supermercados, galpões industriais ou shopping centers invariavelmente tem a sua cobertura solucionada desta maneira.

As primeiras notícias sobre a instalação do teto verde no supermercado em Riga informam que nos dois anos entre a inauguração do edifício e o início das obras de paisagismo, o material que estava na cobertura era inclusive bem mais pesado que o novo. Ainda é muito cedo para se ter alguma precisão sobre a responsabilidade técnica do acidente, se de projeto ou execução, desta obra ou da primeira, em 2011, mas parece que as fortes chuvas que antecederam a tragédia de alguma maneira colaboraram para o acontecido.

E nem este texto é o lugar para esta questão. Entretanto cabe sim perguntar, diante da morte de tantas pessoas, qual a responsabilidade que uma cultura da moda dentro do campo arquitetônico pode vir a ter em um evento como este. Em um momento histórico particular onde as imagens percorrem o mundo de maneira instantânea (muito distintamente das condições materiais para a realização da arquitetura), onde acompanhando a velocidade das imagens, as tendências e modas também se atropelam na aceleração do mecanismo próprio de invenção de novidades, onde com alguma frequência os cursos de arquitetura se aproximaram muito dos problemas do design da imagem ou da arte urbana e se distanciaram um tanto da cultura de engenharia (especialmente como projeto), onde, portanto, o processo de estabelecimento de um fetiche pode acontecer todo no plano das imagens, este desabamento pode servir sim para uma reflexão sobre os modos de pensar, conceber, executar e, principalmente, divulgar arquitetura. Os limites do que é físico em arquitetura, da transformação material do espaço e das suas condições locais, parecem mais uma vez, e de maneira trágica, advertir sobre o fácil apelo sedutor de determinadas imagens.

Fonte da imagem: http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-25048839, acessado em 23 de novembro de 2013.

 

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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Comentários

 Márcio C. Campos
Creio que o texto não afirma isso, o que está dito é que a propagação do uso dos brises como moda, como índice de contemporaneidade àquele época, deve-se ao sucesso internacional da arquitetua moderna brasileira e esta afirmação não é minha, é, como citado, de Hitchcock.
 Arquiteto
Brise soleil invenção brasileira???
 michel
Olá, estou em Riga no momento acompanhando os acontecimentos. Só uma correção, Riga é a capital da Letônia e não da Lituânia como diz o texto.

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