Cultura e Cidade

  • Cláudio Marques

    De pais e avós baianos, Cláudio Marques é fundador e coordenador do Panorama Internacional Coisa de Cinema desde 2003. Diretor, roteirista, produtor e montador de 6 curtas metragens, todos co-dirigidos com Marília Hughes. "Depois da Chuva", primeiro longa da dupla, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. "A Cidade do Futuro" é o segundo longa de Marília e Cláudio e será lançado comercialmente em 2017.

O meu amigo Dimitri

Preocupado com a preservação e valorização de diversos aspectos da cultura popular, Dimitri organizou concursos de carrinhos de café entre os anos 80 e 2000.

Eu era bem jovem, ainda adolescente, quando passei a me interessar de maneira apaixonada pelo Centro Histórico de Salvador. Logo comecei a ter notícias de Dimitri e seu trabalho combativo pela arquitetura e pelos moradores daqui. Ele foi um dos poucos a se levantar contra a reforma “arrasa-quarteirão” promovida por ACM, o avô. Dimitri auxiliou pelo menos uma dezena de pessoas que corriam o risco de perder suas casas, inclusive em âmbito jurídico. Todos sabem que centenas de moradores foram expulsos do Pelourinho naquele momento.

Dimitri é um homem das palavras e da ação. Diferente da grande maioria da sociedade que diz amar o Centro Histórico, mas nada faz de concreto, ele reformou à duras penas duas casas que estavam completamente em ruínas. Dimitri mora no Centro Histórico há quatro décadas.

E Dimitri lutou, durante anos, pela cultura popular e pelas festas de largo. Denunciou políticos e sempre se manteve em uma posição de independência, inclusive negando apoio de empresários que temiam suas denúncias. Muitos tentaram silenciar Dimitri, até hoje sem sucesso.

Nós nos tornamos amigos, mesmo, há pouco tempo. São cerca de quatro anos de convívio, de profunda admiração e lealdade.

Quando eu levei para ele a idéia de carimbar diversas casas com o slogan “Aqui Podia Morar Gente”, Dimitri não titubeou. Foi o mais enérgico defensor da ação e, ao final, ainda foi processado pela Luciana Rique, dona de cerca de 36 casas no Santo Antonio. Dimitri jamais temeu Luciana e seu poder econômico. Jamais acenou para um acordo que o levaria a ficar calado.

No final, o processo não deu em nada e Luciana Rique fez o que o bom senso mandava: vender as casas que ela mantinha fechadas no bairro. Hoje temos cerca de 28 novas famílias no Santo Antônio graças a essa ação simples.

Dimitri não gosta de conversar sobre astrologia, mas eu me interesso e acho que o fato dele ser canceriano (signo solar) com sagitário (ascendente) o torna um sujeito emotivo, amável, embora combativo e sincero ao extremo. Muitas vezes, parece que Dimitri está em uma missão especial, de um ativismo jovial sem limites.

Não raro eu peço para que o meu amigo “pegue mais leve”. Poucas vezes adianta, pois ele se transformou num cronista político e social voraz da cidade. Dimitri realmente gosta disso e seu trabalho faz muito bem a uma sociedade que tem medo de falar, se expor e criticar.

Dimitri também é fotógrafo do cotidiano. Por onde ele vai, ele carrega sua câmera e costuma registrar o que vê.

Foi durante o Panorama que ele se viu diante de um fato inusitado: uma garota de biquíni próxima à Barroquinha. Ao lado dela, um rapaz. Eles conversavam. Não é uma cena comum, digamos. Dimitri registrou o momento. Fez uma foto à distância e, assim, ele acreditava não expor os personagens.

Dimitri postou a foto no Facebook. Ele ainda escreveu “Enquanto isso na área externa do teatro da Barroquinha”. Dimitri não acreditava que iria trazer danos aos envolvidos. Não foi bem assim. Depois (pelo que eu entendi, pois eu não cheguei a ler), algumas pessoas escreveram frases pejorativas e machistas com relação à jovem da foto. Vejam bem: repito que pelo que eu sei e entendi, não foi Dimitri a escrever nenhum comentário misógino, mas outras pessoas que viram o post e fizeram interpretações diversas e negativas.

De toda forma e com todo o direito, Lara Duarte, a jovem da foto, se sentiu ofendida e, pelo que eu compreendi, pediu que Dimitri apagasse a foto. Dimitri negou e aqui, para mim, o meu amigo errou. Ele deveria ter retirado a foto, imediatamente, sem nem pensar. Acho que não houve machismo da parte dele, mas Dimitri foi invasivo e não respeitou o pedido justo de Lara.

Lara, que também é câncer com sagitário, escreveu uma carta aberta endereçada ao meu amigo e Dimitri pôde sentir na pele o que ela passou, só que em uma escala maior. Centenas de pessoas escreveram coisas terríveis sobre Dimitri. Chamaram-no de “nojento”, “canalha”, “asqueroso”, “velho idiota”, “gringo colonizador” e outros tantos adjetivos muito piores.

Gente que não conhece minimamente a trajetória de Dimitri desandou a desqualificá-lo. Por outro lado, alguns desafetos trouxeram à tona questões há muito ocorridas. Coisas do passado, que jamais poderemos compreender. Estamos presenciando a um verdadeiro linchamento moral.

Dimitri, em algum momento, retirou a foto e pediu desculpas públicas à Lara, que não as aceitou. Lamento, acho (apenas acho) que ter aceito seria um gesto incrível. Mas, eu não posso julgar, daqui, a dor que Lara sentiu. Até mesmo por compreender que vivemos em um momento especial de luta feminista, de entendimento do quanto a nossa sociedade é misógina. Fiquei esses meses em silêncio, lendo muitos relatos sobre o primeiro assédio e compreendi que o momento é de escutar, não de pedir ou falar.

O que eu realmente não concordo é com o linchamento que está em curso. Injusto, preconceituoso e, para mim, inaceitável.

O nosso país possui sede de sangue e isso ocorre muitas vezes no sentido físico. Desde o terrível episódio da Escola Base, 1994, deveríamos ter aprendido minimamente a lição de aguardar, respirar e conversar para depois julgar fatos e pessoas.

Acho que eu não tenho o direito de pedir que exista diálogo ou perdão dentro dessa história. Sei que Dimitri errou ao não ter retirado a foto quando foi procurado, ao menos esse é o meu entendimento que, mais uma vez repito, é limitado, pois eu não li os comentários no post que Dimitri fez.

Mas, eu tenho certeza de que ele não merece passar por essa campanha generalista e preconceituosa, como se o comportamento dele, em toda a sua trajetória, o marcasse como uma pessoa sem escrúpulos. Essa não é a pessoa que eu conheço.

Não posso fazer muita coisa, a não ser escrever esse texto e manifestar publicamente que estarei ao lado do meu amigo. De maneira crítica (torcendo para que ele aprenda a lição desse episódio), honesta, mas com muito amor e admiração.

E desejo que Lara Duarte dê continuidade a sua vida pessoal e profissional da melhor forma possível, com brilho e inteligência.

 

O texto acima é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do grupo Teatro NU.

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